Inter 14 a 0: 44 anos da maior goleada do Beira-Rio e do Gauchão

Em 1976 não eram só Elton John e The Supremes que estavam nas paradas de sucesso. No futebol, o Brasil inteiro se rendia à magnificência da Academia do Povo comandada por Rubens Minelli, campeã nacional na temporada anterior. Intensa como uma boa disco, a geração colorada parecia imbatível aos torcedores, apaixonados pela geração de craques como Valdomiro, Falcão, Manga, Figueroa, e também para os rivais, aterrorizados com a afinada sintonia alvirrubra. Adversário nenhum, entretanto, passou pelo mesmo que os uruguaianenses do Ferro Carril que, há exatos 44 anos, no dia 23 de maio de 1976, sofreram, para o Colorado, o maior revés da história dos Gauchões e do Beira-Rio, por 14 a 0. Confira o especial da Rádio Colorada sobre a jornada:

Sport Club Internacional · Rádio Colorada: Especial 44 anos da maior goleada do Beira-Rio e do Gauchão – 21/05/2020
Figueroa briga pela bola contra atleta do Ferro Carril

O Clube do Povo foi a campo naquela outoniça tarde de domingo escalado com Manga no gol, Cláudio Duarte, Figueroa, Marinho Peres e Vacaria na defesa; Caçapava, Carpegiani e Escurinho no meio; Valdomiro, Flávio e Genau no ataque. Da casamata, Rubens Minelli viu seus comandados abrirem o placar logo aos 35 segundos de partida, quando o relógio sequer indicava 15h e 31 minutos. Pegando a sobra de bola levantada na área, Caçapava mandou na caçapa, como bem narrou Milton Ferreti, e inaugurou o marcador.

À época, o Inter já somava nove vitórias, além de um empate, nas partidas disputadas pelo Gauchão. Uma vitória larga, portanto, não seria exatamente chocante, como não foi a etapa inicial, encerrada com o 4 a 0 no placar, gols de Caçapava, mais uma vez, Carpegiani e Flávio. Após fazer história com o hexa do Rolo Compressor na década de 40, o Clube do Povo tinha a obsessão de chegar ao Octa estadual e, com ele, superar a sequência de sete títulos consecutivos do rival. Encarrilhando taças desde a inauguração do Gigante, o Colorado estava a um troféu de atingir feito inédito para o futebol gaúcho. Também por isso a equipe, já motivada pela promessa do vice-presidente de Futebol, Fernando Arnaldo Ballvê, que estipulara uma gratificação por gol marcado a cada atleta, sequer cogitou tirar o pé no segundo tempo. Entre os mais interessados em retornar com tudo para o segundo tempo, estava Escurinho.

A geração do Octa

Audacioso, Orlando, arqueiro do Ferro, provocou Escurinho, afirmando que até poderia sofrer mais gols, mas nenhum do talismã colorado. Tendo operado milagres a cada chute ou cabeceio do ídolo do Inter, o goleiro parecia ser o grande pesadelo do histórico camisa 14 alvirrubro, e sentia ter autoridade para incomodar o meio-campista vermelho. Reiniciado o confronto, as provocações seguiram por mais cerca de meia-hora, intervalo de tempo recheado pelos tentos de Valdomiro, Ramón, que, assim como Hermínio, entrara no decorrer da partida, Cláudio Duarte, Figueroa, novamente Valdomiro e, uma vez mais, Ramón. Aos 28 minutos, contudo, aproveitando corte ruim da zaga adversária, Escuro fez o seu, o 12º do dia, e deu fim à breve sina.

Ramón, antes, e Valdomiro, na sequência, encerraram a goleadora tarde na beira do Guaíba. Ato contínuo, ainda na beira do campo Rubens Minelli foi entrevistado e declarou, sincero, que estava satisfeito com a atuação respeitosa de seus atletas. “Realmente, a equipe esteve numa tarde muito feliz. Aproveitou demais as oportunidades que o adversário permitiu e transformou a superioridade em gols. Eu acho que uma maneira de respeitar o adversário é exatamente jogando um futebol sério, nunca nos preocupamos em menosprezar o adversário, tentando dar olé, e acredito que, embora nossa equipe tenha feito 14 gols, nós jamais subestimamos ou deixamos que se sentissem menosprezados.”

Na sequência do torneio, o Inter acumularia mais 14 vitórias em campanha avassaladora, que ainda somou três empates e um único revés. Contra o maior rival foram cinco os confrontos, três destes encerrados com alegria para a Maior e Melhor Torcida do Rio Grande, o último válido pela final, vencido por 2 a 0, gols de Lula e Dadá. Consagrado, o Octa segue, ainda hoje, inigualável, assim como o escore aplicado sobre o Ferro, feitos dignos de uma equipe histórica e rara como foi a Academia do Povo na década de 70.

Músicas do especial:

Rock’n Me – Steve Miller Band
Earth, Wind & Fire – Getaway
The Supremes – I’m Gonna Let My Heart Do The Walking
Blue Oyster Cult – (Don’t Fear) The Reaper
The Isley Brothers – Harvest For The World
Elton John (with Kiki Dee) – Don’t Go Breaking My Heart

Fotos:

Reprodução.

Ficha técnica da partida, disponibilizada pelo Arquivo Histórico do Inter

Conheça Amanda, sócia ‘Academia do Povo’ que superou doença rara e dificuldades para iniciar, hoje, Medicina na UFGRS

Milhares de estudantes retornam às aulas nesta quinta-feira (05/03) com o início do semestre letivo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Entre eles, Amanda Vitorya Luciano Gomes. Aos 21 anos, a sócia colorada na modalidade Academia do Povo, dona de história marcada por coloradismo, superações e alegrias, realiza, neste dia cinco, suas primeiras aulas na Faculdade de Medicina. Aguardada com grande expectativa, certamente esta será mais uma data que ficará marcada em sua memória, ao lado de muitas outras que compuseram o último mês de dezembro.

Colorada fanática que é, por óbvio Amanda Vitorya Luciano Gomes tem no 17 de dezembro marco que figura entre os mais especiais de sua vida. Em 2019, curiosamente, a data do título mundial do Inter ganhou, no dia que a antecede, ilustre companhia na lista de grandes alegrias vivenciadas pela jovem. Afinal de contas, foi neste que Amanda descobriu que estava aprovada no vestibular da UFRGS para Medicina. Naturalmente gigante, uma vez que se trata do curso mais concorrido da Universidade, a conquista toma contornos ainda maiores por conta das dificuldades que foram superadas pela futura médica ao longo do ano de estudos.

Moradora da comunidade do Mangue Seco, na Lomba do Pinheiro, Amanda convive diariamente com a infeliz escassez de oportunidades recorrente às classes mais humildes de nosso país, condição que a jovem superou bravamente no ano passado para se tornar uma exemplar exceção na sociedade brasileira, que jamais deve ser entendida como regra. Aos obstáculos sociais e financeiros, complicadores de uma rotina de estudos que em grande parte esteve comprometida pelo deslocamento até seu curso pré-vestibular, somaram-se as idas frequentes para a clínica de saúde onde realizou tratamento de rara doença crônica e sem cura.

Portadora da Granulomatose de Wegener, enfermidade autoimune que afeta os vasos sanguíneos de vias renais e respiratórias, a jovem precisa realizar três sessões de hemodiálise por semana, cada uma com cerca de quatro horas de duração. Agravado a ponto de tornar seus rins inoperantes, o empecilho foi parcialmente contornado com o apoio dos profissionais que acompanham seu tratamento. “Lá na clínica eles eram superflexíveis. Meu horário deveria começar ao meio-dia, mas eu tinha aula até 12h30. Então, deixavam eu chegar mais tarde. Ia direto da aula para lá, com meus livros e almoço. Foram muito queridos!”, revelou, em entrevista para o departamento de mídia do Inter.

O apoio dos funcionários da clínica tem como maior símbolo Fábio Spuldaro, nefrologista que acompanha Amanda há anos, período mais do que suficiente para conquistar a admiração da estudante, que tem no profissional um exemplo para os desafios que estão por vir. “O Fábio é um médico incrível. Está comigo desde que eu era pequena, foi vendo ele que quis ser médica.” Tamanha simpatia, inclusive, influencia no ainda incipiente pensamento da jovem acerca de qual área se especializar no futuro. “Às vezes eu quero ser Nefro, outras cirurgiã, e ainda, em alguns momentos, pediatra. Mas uma dessas três com certeza. Depende do dia!”

O exemplo que vem da família – nos estudos, e também paixões

Não foi apenas entre seus médicos e enfermeiros, porém, que Amanda encontrou motivação extra para enfrentar o extenuante ano de estudos. Abraçada pela família, teve em seus parentes auxílio e conforto fundamentais durante as longas noites de leitura e os duradouros deslocamentos que realizou entre clínica, casa e curso. Capaz de emocionar a estudante, a ajuda encontrou sua maior expressão em André Gomes, o pai. “Quando eu passava mal, ligava para ele, que ia me buscar lá na clínica. E a clínica é bem longe da minha casa! Se eu falava que precisava de alguma coisa, ele também me levava. Isso foi muito legal.”

Fotos: Acervo Pessoal/Amanda Gomes

A relação com o pai, vale destacar, também serviu de estímulo para outra das paixões de Amanda: o Inter. Crescida vendo André ir a jogos no Beira-Rio, a estudante desde cedo aprendeu a torcer pelo Clube do Povo. Sentimento nutrido primeiro pela TV e, nos últimos dois anos, no cimento, aroma e rotina típicos de quem frequenta o Gigante. “Eu comecei a vir no estádio mais de uns dois anos pra cá. Desde então, minha vida se resumiu a estudar e vir pro Beira-Rio quando tinha jogo. E acho que sou assim por causa do meu pai, porque ele é colorado, desde pequena eu via ele torcendo pro Inter, e pensei em também torcer. E deu muito certo, porque agora eu sou muito apaixonada!”

“Ele é uma inspiração!”

O coloradismo de Amanda passou a viver novo capítulo a partir do último semestre de 2019, quando se associou à popular modalidade colorada. Desde então, o Gigante, que já era figura frequente na vida da estudante, tomou contornos de uma segunda casa – posto compartilhado com clínica e curso. “Em 2019, minha vida se resumiu a fazer o tratamento, estudar e vir pro Beira-Rio.”

Fotos: Acervo Pessoal/Amanda Gomes

Rara, sua história de amor pelo Inter e dedicação para alcançar objetivos chegou, após intermédio do Consulado colorado da Lomba do Pinheiro, ao conhecimento do ídolo D’Alessandro. Amado pela torcida colorada e respeitado em todos os cantos do Rio Grande do Sul não apenas por sua qualidade, mas também engajamento social, o argentino recebeu Amanda no evento de apresentação de equipes e uniformes da sexta edição do Lance de Craque. A visita à cerimônia, ocorrida no dia 20 de dezembro, foi organizada sem o conhecimento da sócia colorada, que, surpreendida, entregou-se às lágrimas no momento em que se deparou com o atleta que toma como maior referência dentro do Clube que tanto ama.

“Eu sou tri envergonhada! Não parece, mas sou. E eu não senti vergonha, porque só pensava que eu tava do lado do D’Alessandro! Era o D’Alessandro!”, revela, ainda entusiasmada, comentando que a idolatria pelo camisa 10 passa, também, pela história de vida do gringo. “O D’Alessandro tem uma história muito legal. Vem de origens humildes e, querendo ou não, conseguiu tudo. Ele é uma inspiração!”

Foto: Ricardo Duarte/Internacional

No dia seguinte, Amanda assistiu ao amistoso beneficente organizado por D’Ale das tribunas do Beira-Rio. De lá, seguiu para o túnel dos vestiários, onde teve contato com muitas das estrelas que disputaram a partida. Entre elas, algumas referências que dividem seu coração com o camisa 10 colorado. “Gosto do Cuesta. Todo mundo gosta dele, né?! Ele é incrível, não sei como ele consegue! E gosto muito do Alex. Não sei o porquê, acho que por lembrar dele antes, de sair e voltar.”

Foi exatamente no último ato destas 48 horas mais do que especiais que a jovem concedeu entrevista para a mídia colorada. Acompanhada de amigos e familiares, a estudante, extremamente bem-humorada, conversou por longos e ainda conheceu o gramado do Beira-Rio, endereço perfeito para receber, como presente do Clube, uma camisa oficial do Inter, presente tido por Amanda como “perfeito” para as festas de fim de ano. Encerrada a gravação, a jovem pôde, enfim, voltar para casa, levando consigo, além de presente, autógrafos e fotos ao lado de seus ídolos, mais duas datas que certamente entrarão, ao lado dos dias 16 e 17 de dezembro, na recheada lista de alegrias de sua vida.

Saiba como ajudar!

Amanda já venceu inúmeras dificuldades e obstáculos para atingir a aprovação na Universidade, mas a vaga na medicina não significa o fim de percalços na caminhada da estudante. Prestes a ingressar em curso que exige dispendiosos gastos com materiais, a jovem e seus parentes sabem que precisarão economizar o máximo possível ao longo dos próximos anos.

Diante do cenário, a família pede por doações que possam ajudar no sustento da estudante. Livros, jalecos, materiais didáticos e contribuições em dinheiro são exemplos de apoios que poderiam auxiliar, e muito, nos estudos da jovem. Mais do que convocada a contribuir, a Maior e Melhor Torcida do Rio Grande pode entrar em contato direto com Amanda em seus perfis no Facebook e Instagram.

Foto: Acervo Pessoal/Amanda Gomes

O Clube do Povo deseja uma ótima abertura de ano letivo para toda sua torcida, incluindo aqui aqueles que já iniciaram seus estudos em 2020. Em especial, para Amanda. Estaremos na torcida para que esta seja uma temporada de muitas vitórias, tanto tuas, no ensino superior, quanto nossas, dentro de campo. Tua segunda casa estará sempre a postos para 90 minutos de extravaso e cantoria. Dale, guerreira!