Bravo, Iarley!

A carreira de Iarley merece aplausos. Por onde passou, o cearense conquistou títulos e respeito. No Inter, foi notável. Apesar da pouca estatura, o atacante se tornava um verdadeiro gigante quando vestia o manto colorado, que honrou durante toda a passagem pelo Clube, compreendida entre os anos de 2005 e 2008.

Camisa 10 foi um dos grandes nomes da decisão do Mundial de Clubes/Foto: Ricardo Duarte

Sua trajetória atingiu o ápice no Japão, onde o então camisa 10 foi peça fundamental na inesquecível vitória sobre o Barcelona, que deu ao Inter o título do Mundial, o segundo na conta pessoal do atleta. Já aposentado, o herói, que atualmente trabalha com as categorias de base alvirrubras, sabe que viverá eternamente na memória da Maior e Melhor Torcida do Rio Grande. No dia em que comemoramos 15 anos da apresentação do ídolo como reforço do Clube do Povo, relembre sua passagem no Beira-Rio!


Contratação badalada

Pedro Iarley já ostentava um currículo invejável quando desembarcou, no dia 17 de junho de 2005, no Aeroporto Salgado Filho. Seu passaporte somava carimbos que iam do argentino, onde conquistou, com o Boca Juniors, seu primeiro Mundial, ao espanhol, registro da época em que defendeu o Real Madrid B ao lado de jovens como Raúl, Eto’o, Cambiasso e Casillas. Mais do que atuar por grandes clubes, entretanto, o atacante tambem figurava na história de muitos destes.

Em território hermano, por exemplo, após marcar o gol que garantiu a conquista do Torneio Apertura de 2003, Iarley virou ídolo vestindo a mítica camisa 10 xeneize. No mesmo ano, participara da belíssima campanha do Paysandu na Libertadores, inclusive sendo o artilheiro da vitória por 1 a 0 do time brasileiro sobre o Boca Juniors, em plena Bombonera – feito que motivou o clube de Buenos Aires a contratá-lo.

À época de sua contratação, o Inter estava absolutamente faminto por títulos. Após passar um período na fila, o Clube do Povo se reestruturava e trabalhava duro para retomar o caminho das glórias. Iarley, neste cenário, chegava como a cereja do bolo de uma equipe já encorpada, capaz de empolgar a torcida a ponto de, no momento do desembarque do atacante na capital gaúcha, um grupo de alvirrubros pedir ao novo reforço que ajudasse o Colorado a conquistar uma Libertadores da América, título até então inédito na galeria de troféus do Beira-Rio.

“É um atleta experiente, mas que está

sem jogar há algum tempo.

Precisamos ver como será o rendimento

nos treinos da semana.”

Muricy, após o anúncio de iarley

Sofrendo com o desfalque de Rafael Sobis, convocado para a disputa da Copa do Mundo Sub-20, Muricy Ramalho, técnico colorado, ainda perdeu, na semana seguinte ao desembarque do atacante cearense, o centroavante Gustavo, lesionado. Desta forma, não restou alternativa ao comandante se não escalar o recém-chegado para a partida contra o São Paulo, no Morumbi, válida pela 14ª rodada do Brasileirão.


Como uma luva

É inegável: o início da caminhada de Iarley com a camisa vermelha esteve à altura das expectativas. Formando, com Fernandão, a dupla de ataque colorada, o cearense abriu o placar no Morumbi aos 30 do primeiro tempo, esbanjando qualidade para dominar, com a canhota, rebote de dividida do capitão com a defesa paulista, girar o corpo e, de direita, mandar chute preciso no ângulo de Ceni. Pouco depois, Souza até empatou para os locais, mas Fernandão, de pênalti, e Tinga, nos minutos finais, confirmaram o trunfo alvirrubro por 3 a 1. Envolvido, ainda, nos dois tentos marcados pelo Clube do Povo no segundo tempo, o estreante foi escolhido o melhor jogador da partida em enquete realizada no site do Inter.

O golaço do estreante

“A bola vai entrar a partir de agora.

Eu trabalho para fazer gols!”

Iarley, em entrevista na semana seguinte à estreia

Exuberante, a atuação diante do São Paulo garantiu a Iarley vaga no time titular, mantida para a rodada de número 15 apesar dos retornos de Gustavo e Michel, atacante que também estava entregue aos cuidados do Departamento Médico. À oportunidade, o atacante respondeu mantendo o ritmo elevado, fundamental para o triunfo colorado, por 2 a 1, sobre o São Caetano, no Beira-Rio. Na ocasião, mesmo debaixo de intensa chuva, quase 20 mil pessoas tomaram as arquibancadas do Gigante para apoiar o Inter, que abriu o placar aos 27.

Fernandão lançou Alex, que surpreendeu a marcação caindo pela direita. O jovem foi até o fundo, em velocidade, e cruzou, com o pé ruim, na medida para curioso cabeceio de Iarley, que mandou para as redes, marcando seu primeiro gol no Beira-Rio, segundo pelo Inter. Menos de cinco minutos depois, Granja serviu Tinga, que de canhota marcou o segundo do Clube do Povo. Dimba, para os visitante, até descontou na etapa final, mas nada que ameaçasse o triunfo alvirrubro, capaz de alçar o Colorado à terceira posição no Nacional.

O primeiro tento no Beira-Rio

Também escolhido o craque em sua partida de estreia no Beira-Rio, Iarley foi mantido entre os 11 iniciais para o duelo contra o Vasco, no Rio de Janeiro. Aparentemente esperada, a titularidade comprovou a grande fase do atacante, que deixou Rafael Sobis, de volta após conquistar a medalha de bronze com o Brasil na Copa do Mudo Sub-20, no banco.

Vitorioso em São Januário por 4 a 2, o Clube do Povo se manteve na terceira colocação, a apenas um ponto dos líderes Ponte Preta e Fluminense. A vice-liderança chegou na partida seguinte, encerrada com goleada de 5 a 2 sobre o Juventude, no Gigante. Ao lado de Sobis, Iarley formou dupla de ataque municiada por Fernandão, e abriu o placar, logo aos 10, em um golaço de perna direita.

Pintura para abrir o placar contra o rival gaúcho

Terceiro do atacante em quatro partidas, o tento diante do Juventude foi acompanhado, três dias depois, pelo quarto em sua trajetória no Inter, este marcado sobre o Goiás. De peixinho, contudo, o gol não impediu a derrota, por 3 a 2, no Beira-Rio. Pior ainda, Iarley precisou deixar o duelo mais cedo, consequência de luxação no ombro esquerdo. Incialmente, a injúria afastou o atleta dos gramados por quatro jornadas, mas, após sentir dores nos dois jogos seguintes que disputou, o cearense teve de ser submetido a cirurgia, que estendeu o tempo de afastamento.

“Os médicos disseram que

a operação foi um sucesso.

Agora, é repouso absoluto e, depois,

volto com tudo para retornar ainda

no Brasileirão.”

Iarley, após a cirúrgia

Contrariando a previsão dos médicos, que estipulavam o tempo de parada do atleta entre três e quatro meses, Iarley voltou aos gramados durante partida da 35ª rodada do Brasileirão, disputada em 31 de outubro, pouco mais de 60 dias após a cirurgia. Fora da lista de inscritos do Clube do Povo na Sul-Americana, não pôde disputar o confronto de volta das quartas continentais, contra o Boca, na Bombonera. No Nacional, seguiu como peça frequente no ataque alvirrubro, e teve o alto nível de suas atuações recompensado, já em 2006, com a renovação de contrato até o final de 2008.


2006 de brilho fora…

Titular no início da temporada de 2006, autor de quatro gols no Gauchão, Iarley seguiu conquistando, no novo ano, o respeito de todos no Beira-Rio. Naturalmente, o atacante se tornou uma das principais referências do time, chegando a formar, junto de Clemer e Fernandão, o trio de líderes do vestiário colorado. Em entrevista concedida para a Mídia do Inter em 2014, o ídolo, inclusive, comentou o perfil da trinca, destacando as diferentes características de cada um.

Nosso capitão, o cara que liderava mesmo, até pela inteligência que tinha, era o Fernandão. O Clemer era mais explosivo, até na hora de tomar à frente, dar uma dura. Eu, mais tranquilo, apaziguador, ia lá e analisava a situação, dava opinião, contornava.

Simbolizando o protagonismo que exercera nos meses inaugurais de 2006, Iarley teve o privilégio de ser inscrito na Libertadores da América com a mítica camisa de número 10 do Internacional. Capitão nos primeiros cinco jogos do Clube do Povo na competição, demonstrou o porquê de ser uma das lideranças do grupo quando, com os retornos de Rafael Sobis e Jorge Wagner aos gramados, recuperados de lesão, foi para o banco de reservas.

Iarley não apenas aceitou a condição, como se tornou um verdadeiro assistente do técnico Abel Braga, ajudando o comandante a gerir o elenco do Inter ao longo da fase eliminatória. Para além do papel fundamental que desempenhou no vestiário, o atacante também foi a campo oito vezes na campanha do título, oferecendo, ainda, duas assistências, umas delas na histórica virada sobre o Pumas, no Beira-Rio.


… e dentro de campo!

Após as saídas da dupla Sobis e Jorge Wagner para o futebol espanhol, sacramentadas poucos dias após a conquista da América, Iarley, que já vinha se destacando na formação que construía grande campanha para o Inter no Brasileirão, assumiu com maestria a lacuna deixada no ataque titular do Colorado. Ao lado de Fernandão, alcançou grande entrosamento, e encerrou o Nacional como um dos destaques do Clube do Povo vice-campeão, marcando 10 gols na competição.

Atuações maiúsculas como no Gre-Nal do Olímpico, quando marcou o gol da vitória, e no triunfo sobre o Fluminense, por 2 a 0, no Beira-Rio, além de golaços a exemplo da inesquecível bicicleta contra o Vasco, ou da letra diante do São Caetano, ambas no Gigante, valeram ao atacante uma merecida indicação ao prêmio Craque do Brasileirão. Curiosamente, Iarley acabou preterido na premiação, que não foi a única a injustiçá-lo em dezembro de 2006.


Um gigante no caminho do Barcelona

A delegação do Inter chegou ao Japão para a disputa do Mundial no dia 7 de dezembro de 2006. Antes disso, ainda no trajeto, Iarley já havia demonstrado a importância que sua liderança exerceria na caminhada rumo ao maior título de clubes do planeta.

Quando um contratempo em São Paulo atrasou o voo colorado, fazendo com que o grupo perdesse a conexão entre Paris e Tóquio, assim precisando passar uma tarde em hotel da capital francesa, foi o ídolo quem, em atitude extremamente solidária, dispôs-se a permanecer na sala de embarque do aeroporto parisiense junto dos companheiros Vargas e Hidalgo, os quais não tinham visto para entrar no país. Ali ficaram os três, conversando e descansando enquanto esperavam pelo prosseguimento da viagem.

Esse tá bonito, mas vamos colocar outro,

ainda maior, no lugar, escrito

Campeão do Mundo!

Iarley, ao se deparar com painel do time campeão da américa

Uma vez em terras nipônicas, Iarley, como sempre vestindo a 10, teve atuação segura na semifinal, contra os egípcios do Al-Ahly. Foi na decisão do Mundial, porém, que a estrela do ídolo reluziu como nunca.


No maior dos jogos, a melhor atuação

Os campeões do mundo/Foto: Jefferson Bernardes

A missão era espinhosa. No jogo mais importante da história do Inter, superar o poderoso e badalado Barcelona, de Ronaldinho Gaúcho, Deco, Iniesta, Xavi e companhia. Para isso, é claro, foi preciso traçar uma estratégia especial.

Foto: Ricardo Duarte

A gente sabia que o Barcelona viria com tudo pra cima, e começamos a visualizar o contra-ataque. Mentalizei que poderíamos ganhar o jogo assim, porque era isso ou os pênaltis. Tanto que, quando eu pego a bola na jogada do gol, já estava preparado para aquele momento!

Extremamente disputada, com boas chances para os dois lados, a finalíssima do Mundial de Clubes impôs duro baque à Maior e Melhor Torcida do Rio Grande quando, aos 30 da segunda etapa, Fernandão, extenuado e com cãibras, precisou ser substituído. Com o coração na mão, milhões de colorados e coloradas responderam à alteração depositando boa parte de suas esperanças em Iarley, que assumiu a braçadeira após a saída de nosso capitão, responsabilidade que assumiu com tranquilidade, atestada seis minutos depois.

Foto: Ricardo Duarte

Na hora, só tinha o Luiz Adriano. Esperei pra ver se ele se movimentava, porque estava muito aberto. Dali, só conseguiria um cruzamento ou chute cruzado. Fiquei observando o Puyol. Depois do corte, ele ficou me dando um lado. Segurei e vi um vulto de branco passando. Era o Gabiru. Consegui fazer um passe pressão, milimétrico!

Esbanjando frieza, o ídolo recebeu escorada de Luiz Adriano para, primeiro com o pé direito, dominar a bola. Sagaz, no toque seguinte colocou a redonda entre as pernas de Puyol. O restante da jogada, é claro, todos lembram. Iluminado, Gabiru, substituto de Fernandão, desferiu o mais preciso dos arremates, matando o goleiro Victor Valdez e fazendo o planeta, cada vez mais vermelho, tremer com a festa da torcida colorada.

Olhugol, olhugol, olhugol!

Apesar da empolgação com a vitória parcial, ainda faltavam 10 minutos para o jogo acabar. Mais do que isso, pela frente restava um Barcelona cada vez mais ofensivo em busca do empate. Foi então que Iarley levou seu 1,70 m de altura a atingir a estatura do Beira-Rio quando, junto de Rubens Cardoso, prendeu a bola na ponta esquerda do ataque colorado por praticamente três minutos. Três minutos ao longo dos quais uma história quase centenária passou diante dos olhos do povo alvirrubro, e que serviram para esfriar a pressão dos espanhóis, tranquilizando o time gaúcho.

Foto: Ricardo Duarte

Minha base foi no futsal, eu era pivô. Quando a gente precisava segurar um resultado, eu já fazia isso. Então, naquele momento do jogo, depois do nosso gol, quando o Barcelona veio com tudo pra cima, eu senti que precisava dar uma esfriada, deixar o tempo passar.

Gigantes, Iarley e Rubens Cardoso acumularam faltas, escanteios e laterais

O atacante cearense somente parou de lutar quando o árbitro marcou falta sua, a pouco mais de um minuto do final do jogo. Neste curto intervalo de tempo, todavia, nem mesmo a genialidade de Ronaldinho foi suficiente para segurar o Inter. Exatos 70 segundos após assinalar irregularidade de Iarley, o árbitro Carlos Batres voltou a levar o apito à boca. Desta vez, para encerrar a partida e oficializar que o mundo, finalmente, era vermelho.

Inter, és campeão mundial…/Foto: Jefferson Bernardes

Após o jogo, Iarley recebeu, erroneamente, a Bola de Prata, distinção oferecida ao segundo melhor jogador do Mundial. Premiação, é claro, injusta, pois a colocação não condizia com o nível das atuações do atacante, mas corrigida, dois dias depois, na chegada do time campeão a Porto Alegre.

Mais de 500 mil colorados e coloradas receberam, no dia 19 de dezembro, a delegação campeã mundial. Entre os atletas, Iarley foi, com justiça, um dos mais festejados pela multidão. Em meio ao mar vermelho que coloriu a Região Metropolitana de nossa capital, alguns apaixonados chegavam a bradar que o camisa dez merecia “metade da taça”, como dissera Galvão Bueno na narração do gol do título. Poucos sabiam, contudo, que o título tinha um gosto especial para o ídolo, que, com a taça, cumpria previsão que fizera ao se deparar, ainda em agosto, no vestiário do Inter, com um painel do time vencedor da Libertadores.

Assim, Iarley terminou 2006 atendendo não somente ao pedido do grupo de torcedores que o recebera quando de seu desembarque em Porto Alegre, como também cumprindo promessa feita dentro do sagrado vestiário do Beira-Rio e, é claro, consagrado no seleto rol de ídolos eternos alvirrubros. Uma temporada, definitivamente, irretocável.


A coroa americana

O início da temporada de 2007 não afetou a titularidade de Iarley. No primeiro semestre do ano, o ídolo seguiu formando, com Pato e Fernandão, o trio de ataque colorado, sempre municiado por um Alex cada vez mais regular e participativo na região central do campo. Após insucessos em Libertadores e Gauchão, o Clube do Povo conquistou, no dia 7 de junho, a Recopa Sul-Americana, taça que garantiu a Tríplice Coroa. Capitão na finalíssima, o camisa 10 levantou a taça junto das outras duas lideranças do grupo, Clemer e Fernandão.

Nos meses de encerramento do ano, atacante foi importante para a conquista de vaga na Sul-Americana de 2008. Marcada por grande reformulação no elenco, a temporada de 2007 chegou ao fim com Iarley, Fernandão e Nilmar, repatriado, formando um novo poderoso trio ofensivo para o Inter.

Ao mesmo tempo, Alex seguia brilhando na região central, agora apoiado pelos recém-chegados Guiñazú e Magrão. Na defesa, nomes como Marcão, Sorondo e Orozco foram contratados, trio que, junto do jovem Sidnei e do experiente Índio, renovava as esperanças do povo vermelho. Exatos 12 meses após chegar ao auge, portanto, o Inter demonstrava estar pronto para retornar ao topo, e contava com seu camisa 10 para isso.


Um campeão, até o fim

Titular ao lado de Alex e Fernandão em novo trio de ataque estrelado que formou ao longo de sua passagem pelo Inter, Iarley viveu momento goleador no Gauchão de 2008. Ao todo, balançou as redes em sete ocasiões, ocupando a vice-artilharia colorada na competição, atrás apenas de Alex. A partir das quartas de final, com o retorno de Nilmar, até então lesionado, o camisa 10 passou a revezar a titularidade com o veloz companheiro, assim diminuindo sua frequência dentro de campo.

Na finalíssima do torneio, contra o Juventude, coube a Iarley, junto de Clemer e Fernandão, como ocorrera na Recopa de 2007, erguer o troféu de campeão gaúcho. Primeiro estadual que venceu pelo Inter, 38º da história do Clube do Povo, o título foi, também, o segundo do Colorado no ano, sucedendo, em poucos meses, a conquista da Copa Dubai, ocorrida durante a pré-temporada.

“Achei que eu era forte,

mas mal consigo falar agora.”

IARLEY, em sua entrevista de DESPEDIDA

No dia 5 de junho, após selar transferência para o Goiás, Iarley deixou o Inter. Tomado pela emoção, o atacante praticamente não conseguiu conceder sua coletiva de despedida, admitindo não ter forças para falar. As lágrimas que corriam de seus olhos, obviamente, também tomaram as faces dos colorados e coloradas espalhados pelo mundo, multidão que ainda hoje procura por palavras capazes de agradecer ao gigante camisa 10 por todos os feitos que conquistou vestindo alvirrubro. Viva, I-AR-LEY!

Tinga, teu Clube, do Povo, te ama!

Há exatos 10 anos, no dia 14 de maio de 2010, Paulo César, o Tinga, era oficialmente apresentado em seu retorno ao Sport Club Internacional. Vencedor na primeira passagem, o já veterano meio-campista voltava ao clube do coração disposto a seguir escrevendo rica história com o manto colorado após um hiato de quase quatro anos. Missão difícil, considerando o que escrevera na trajetória anterior, mas atingida com sucesso. Relembre, abaixo, a carreira do ídolo no Beira-Rio!

Tinga: colorado e campeão

Um craque nascido em berço colorado

Tinga chegou ao Inter com 26 anos de idade, já carregando o apelido em referência à Restinga. Tradicional bairro da zona sul da capital gaúcha, serviu-lhe de morada até o início da vida adulta, e, curiosamente, exibe muitas coincidências, em sua biografia, com o Clube do Povo. Afinal de contas, a região foi criada para servir de destino aos moradores da Ilhota, berço colorado, palco do Ground da Rua Arlindo – primeiro campo da história alvirrubra -, e área localizada na altura onde, atualmente, a Avenida Érico Veríssimo se encontra com a Praça Garibaldi e a Avenida Ipiranga.

No início da segunda metade do século XX, políticas higienistas expulsaram da Ilhota a população humilde, operária e boêmia que vivia no bairro, entendendo que, por sua localização central, a região poderia despertar grande interesse das classes mais abastadas de nossa sociedade. Desta forma, os legítimos habitantes da área, descendentes de Tesourinha, Sylvio Pirillo, Escurinho e outros, acabaram empurrados para a zona sul, onde ergueram a Restinga. Anos depois, no encerramento de 2004, mais um filho deste DNA efervescente e popular desembarcou no Beira-Rio.


Casamento iniciado com taça

Chegando credenciado por passagem pelo Sporting-POR, Tinga declarou, logo em sua primeira entrevista como atleta do Clube do Povo, o sentimento de gratidão pelo empenho do Colorado em recrutá-lo. “Eu quero jogar à altura do interesse do Clube, que há um ano tentava me contratar.” Mal sabia o meio-campista que os dois próximos anos seriam intensos, dramáticos e vitoriosos a tal ponto que, quando deixasse os arredores da Padre Cacique, já estaria eternizado como um ídolo alvirrubro.

Titular na campanha do título gaúcho de 2005, Tinga teve participação destacada na decisão do certame estadual. Na partida de ida, o meio-campista marcou o segundo gol do Inter, pegando rebote de bola que Elder Granja mandara no travessão tentando encobrir o goleiro. Decisivo, o tento foi o quarto do camisa sete no Campeonato, seu sexto no ano, garantindo ao atleta a vice-artilharia da temporada colorada até então.

Na finalíssima, disputada fora de casa, foi Tinga quem, com magistral cruzamento, serviu Souza para que o centroavante fizesse o segundo do Inter na prorrogação, encaminhando a vitória, por 2 a 1, e o título, quarto seguido no Gauchão. Tamanho protagonismo do atleta foi reconhecido com vaga na seleção do Campeonato, em premiação organizada pela Federação Gaúcha de Futebol (FGF).


A injustiça nacional

Tinga seguiu como um dos principais nomes colorados na campanha que levaria o Inter ao quarto título brasileiro não fosse o escândalo da ‘Máfia do Apito’. Integrante do ‘quarteto goleador’ do time de Muricy ao lado de Sobis, Fernandão e Jorge Wagner, o meio-campista viveu a temporada mais artilheira de sua carreira, muito por conta das cobranças dos colegas de elenco, como brincou em outubro daquele ano. “Fui me aperfeiçoando ao longo da carreira. Meu chute não é forte, por isso procuro colocar a bola, tirando do alcance do goleiro. Os companheiros até brincam que precisam assoprar lá de trás para a bola passar a linha do gol”

Capaz de tirar o sorriso do rosto do meio-campista apenas os prejuízos impostos por celeradas arbitragens ao Clube do Povo. Tinga, inclusive, foi símbolo do escândalo que teve no Inter sua maior vítima quando, na antepenúltima rodada, já ocorrida a anulação de jogos conduzida por Luiz Zveiter, o Colorado gaúcho, ainda com chances reais de título, foi até São Paulo enfrentar o líder Corinthians, no Pacaembu.

Aos 28 minutos do segundo tempo, com o escore indicando igualdade de um gol para cado lado, o camisa sete foi lançado na área em profundidade. Como sempre genial em suas infiltrações, adiantou-se aos zagueiros adversários e, logo no primeiro toque na bola, dominou fintando o goleiro Fábio Costa. Descarrilhado, o arqueiro corintiano atropelou o meio-campista com um violento carrinho. Pênalti claro, que o árbitro Márcio Rezende de Freitas não apenas deixou de assinalar, como também interpretou como simulação de Tinga, assim apresentando ao atleta o seu segundo amarelo no jogo, encerrado com o 1 a 1 no escore.


O brilho nos grupos, o drama nas eliminatórias

A segunda colocação no campeonato deu contornos negativos ao grande ano do Clube que, dentro de campo, fizera por merecer o título nacional e, também, escrevera bonita campanha na Sul-Americana, tornando-se a primeira equipe estrangeira a superar o Rosário Central, na Argentina, em partidas continentais, e sendo eliminado apenas para o Boca Juniors, futuro vencedor do torneio, nas quartas de final, encerradas com agregado de 4 a 2. Para a surpresa daqueles que esperavam que o abatimento fosse tomar conta do elenco colorado, contudo, a temporada de 2006 comprovou que aquele era um grupo formado por vencedores. Toda indignação e frustração foram convertidas em motivação por conquistas maiores. Referência entre os atletas tanto por sua liderança quanto pelo alto nível de futebol que apresentava, Tinga, escolhido o melhor segundo volante do Brasileirão, continuou protagonista mesmo após a chegada de Abel, que assumiu o comando da casamata alvirrubra no lugar de Muricy Ramalho.

Titular no vice-campeonato gaúcho, o meio-campista sobrou na fase de grupos da Libertadores, brilhando na histórica virada sobre o Pumas, armando a jogada do gol de empate após desarme magistral. Infelizmente, seu embalo foi contido por lesão sofrida em confronto contra o Maracaibo, válido pela última rodada do chaveamento. Grave, a injúria afastou Tinga dos gramados por mais de um mês entre abril e maio, assim tornando o atleta um desfalque para as oitavas-de-final e, também, a primeira partida das quartas, contra a LDU. Dramática, a situação foi agravada quando, no início do segundo tempo do duelo de volta frente aos equatorianos, o camisa sete voltou a se machucar. As consequências? Mais duas semanas de afastamento e ausência nas semifinais.


A decisão de Tinga

Pela primeira vez em 26 anos, a segunda em seus 97 de existência, o Inter confirmou, nos últimos instantes do dia 3 de agosto, sua classificação à final da Libertadores. Sedento por minutos em campo após ser desfalque em praticamente toda a fase de eliminatórias, Tinga voltou a ficar à disposição para os confrontos da decisão. Diferenciado por sua técnica, provou-se, na final, também um verdadeiro talismã, ocupando posição de destaque nos dois confrontos.

Se a primeira partida foi de Rafael Sobis, vale destacar que o segundo gol marcado pelo menino de Erechim surgiu após rebote de bola dividida entre Tinga e Júnior, espirrada na direção do travessão. O meio-campista colorado, colocando sua especialidade à prova, invadiu a área adversária em velocidade e recebeu excelente escorada de Fernandão. Por centímetros não bateu Rogério Ceni, mas, graças ao oportunismo do colorado e gaúcho artilheiro da noite, a oportunidade passou longe de ser lamentada.

A mesma chance criada a partir de assistência de Fernandão que parou na trave na primeira partida, balançou o barbante da goleira defendida por Ceni na finalíssima. O Eterno Capitão colorado pegou rebote de cabeceio por ele mesmo desferido, milagrosamente defendido pelo goleiro, e, da ponta esquerda da pequena área girou e cruzou bola baixa para Tinga, que precisou se abaixar e contorcer antes de empurrar para a meta. Gol. O segundo do Inter, comemorado de maneira tão efusiva que o meio-campista chegou a levantar sua camisa vermelha para revelar mensagem religiosa que carregava por baixo do uniforme. Advertido pelo árbitro, levou o segundo amarelo no jogo.

Coube ao Inter segurar os 30 minutos finais de partida com um a menos. Correndo por eles e por Tinga, os jogadores se defenderam com a tradicional alma colorada. O camisa sete, enquanto isso, rezava e chorava no vestiário vermelho. Seu sofrimento só acabou quando os massagistas Banha e Juarez, juntos do roupeiro Gentil, foram buscá-lo anunciando o final do jogo. Pela primeira vez em quase cem anos de história, o Inter era campeão da América, e Tinga tinha marcado o gol do título. Era herói, como merecia ser depois do absurdo vivido em novembro anterior, no Pacaembu.

“A festa está completa. Ganhamos o mais importante. Para mim, só faltava a Libertadores. O Inter é o time que eu torço, que meus amigos todos torcem. Sofri muito quando cheguei, pois fui formado no Grêmio. Mas sou torcedor do Internacional desde criança. Este sofrimento serviu de incentivo e, agora, nosso trabalho foi coroado com este título”, declarou o então campeão da América. O troféu erguido no Beira-Rio também serviu de ponto final para a primeira passagem do atleta no clube, visto que Tinga seguiu para o Borussia Dortmund após a inesquecível e infindável noite de 16 de agosto.

Tinga comemora o gol do título da Libertadores/Foto: Jefferson Bernardes/VipComm

Voltou para casa e foi campeão

Após quase quatro anos vestindo a camisa do clube alemão, suficientes para, passados 85 jogos e catorze gols, alçar Tinga ao posto de ídolo local, o meio-campista voltou para casa. Eufórica, a torcida colorada respondeu ao anúncio da contratação com grande entusiasmo, fanatismo que pôde ser percebido logo no desembarque do atleta no Aeroporto Internacional Salgado Filho, quando centenas receberam o velho conhecido com festa digna do craque que chegava.

Por se tratar de uma contratação internacional, Tinga necessitava esperar pela abertura da janela de transferências para jogadores vindos do exterior para ter sua situação regularizada e, assim, reestrear com a camisa vermelha. Os bons ventos sopraram na direção da Padre Cacique, com o prazo de inscrições antecipado para julho. Novidade cirúrgica, uma vez que possibilitou que o meio-campista entrasse na lista de atletas colorados que disputavam a Libertadores, competição que já vivia sua fase de semifinais.

Vestindo a camisa 16, Tinga atuou na segunda partida da fase semifinal e na finalíssima. Nesta, começou a jogada do primeiro gol colorado e quase se antecipou a Sobis para concluir cruzamento feito por Kleber. Mais uma vez, uma chance criada pelo meio-campista era aproveitada com muito oportunismo pelo atacante gaúcho. Novamente, o Inter era campeão. E Tinga, também.


Novo ano, novo troféu

As lesões se tornaram mais frequentes para o ídolo na temporada de 2011. A primeira aconteceu ainda em fevereiro, durante partida contra o Pelotas, no Beira-Rio, e afastou Tinga dos gramados por dois meses, período que englobou praticamente toda a fase de grupos da Libertadores e boa parte do Gauchão. Seu retorno aconteceu na semifinal da Taça Farroupilha, contra o Juventude, em partida na qual a estrela de ídolo colorado voltou a se fazer presente. De cabeça, o meio-campista marcou o gol da classificação para a final, completando cruzamento feito por Leandro Damião em jogada que contou com magistral lambreta do centroavante alvirrubro.

Tinga ainda atuou na final do turno e no primeiro jogo da decisão do Campeonato, apenas ficando de fora da finalíssima por suspensão devido ao terceiro cartão amarelo. Diferente do que o espetacular retorno poderia sugerir, entretanto, o ano seguiu repleto de percalços para o jogador, que perdeu boa parte do Nacional lesionado. Seu momento de maior destaque no Brasileirão aconteceu nas últimas e decisivas rodadas, quando passou a atuar mais recuado, abrindo a meia-cancha colorada ao lado de Guiñazú. Por ali, foi peça importante na conquista da vaga à Libertadores seguinte.

A temporada também reservou um título inédito ao ídolo: a Recopa Sul-Americana. Tinga enfrentou o Independiente, fora de casa, na primeira partida da decisão que consagrou o Clube do Povo bicampeão do certame continental. Além disso, ainda em 2011 o atleta participou da campanha do Inter na Copa Audi, torneio encerrado com o bronze para o Colorado.


O fim que repetiu o começo

Após lesão na pré-temporada, Tinga surgiu como elemento surpresa na escalação colorada para a partida de volta da pré-Libertadores de 2012, disputada contra o Once Caldas. Como de costume, marcou gol importante, virando o jogo para o Inter após completar excelente cruzamento de D’Alessandro. A partida acabaria empatada em 2 a 2, com classificação gaúcha, e o tento seria o último do camisa sete pelo Clube do Povo.

No Gauchão, o meio-campista foi peça frequente no segundo turno e atuou nas partidas de ida e volta da decisão, contra o Caxias. Com o título, o atleta se tornou tricampeão do torneio. A finalíssima, inclusive, foi partida final de Tinga com a camisa alvirrubra. Na semana seguinte, o ídolo rescindiu amigavelmente seu contrato e seguiu para o Cruzeiro.

Em Minas Gerais, Tinga conquistou o bicampeonato brasileiro. Também por lá, aos 37 anos, o craque encerrou, em maio de 2015, sua vitoriosa carreira. Confira a ficha técnica:

Posição: Meio-campo
Nascimento: 13/01/1978
Naturalidade: Porto Alegre (RS)

Clubes:
1997 – 1999: Grêmio – RS
1999: Kawasaki Frontale (JAP)
2000: Botafogo – RJ
2001 – 2003: Grêmio – RS
2003 – 2005: Sporting (POR)
2005 – 2006: Internacional
2006 – 2010: Borussia Dortmund (ALE)
2010 – 2012: Internacional
2012 – 2015: Cruzeiro

Títulos pelo Inter:
Libertadores da América: 2006 e 2010
Recopa Sul-Americana: 2011
Campeonato Gaúcho: 2005, 2011 e 2012.