Veias libertas da América Latina

Morumbi lotado. Cerca de 70 mil pessoas apoiando o time da casa, atual campeão do mundo, e que sonhava com o bicampeonato consecutivo da América. Duelo de duas das melhores campanhas da Libertadores. Confronto dos atuais líderes do Brasileirão. Os ingredientes, não se pode questionar, estavam postos para uma noite memorável. Tolos? Somente os que esperavam cozinhar o Inter no caldeirão paulista. Há 14 anos, vivíamos uma das maiores noites de nossa história.

Pula que é gol do Sobis, só pode ser o Sobis/Foto: Jefferson Bernardes


Duelo grandioso


De fato, o adversário exigia respeito. Tricampeão da Libertadores, em 2006 o São Paulo fechou a primeira fase com a quarta melhor campanha do torneio. Nas oitavas, superou o Palmeiras com o agregado de 3 a 2. Logo em seguida, eliminou, no Morumbi, os argentinos do Estudiantes. A classificação para as semis veio nas cobranças de pênaltis, após vitória por 1 a 0 no tempo normal.

Para chegar à finalíssima, o Tricolor, que contava com a estrelada geração de Rogério Ceni, Lugano, Josué, Mineiro, Aloísio e Ricardo Oliveira, ainda bateu o Chivas de Guadalajara. Na casamata, a equipe paulista tinha o comando de Muricy Ramalho, técnico colorado na temporada anterior e, portanto, grande conhecedor do elenco alvirrubro.

Em dezembro, São Paulo conquistaria o Brasil/Foto: Site São Paulo

“Com todo o respeito ao São Paulo, o Inter também é uma grande equipe!”

Bolívar, classificado para a final

O reconhecimento ao bom momento rival, todavia, não significava pessimismo. Muito menos covardia. Dono da segunda melhor campanha da fase de grupos da Libertadores, o Clube do Povo construiu caminhada maiúscula no torneio continental, à altura do que cobra o manto vermelho. Diante do Nacional-URU, equipe que derrotara o Inter na decisão do campeonato em 1980, o Colorado exorcizou seu primeiro fantasma na escalada rumo ao título.

Após eliminar os uruguaios do Parque Central em confronto marcado por pintura inesquecível de Rentería, o Inter encarou, nas quartas de final, duplo desafio. Dentro de campo, a LDU, base da Seleção do Equador, buscava fazer história a nível continental. Fora das quatro linhas, a ansiedade tirava o sono do povo colorado. Entre a partida de ida, vencida pelos locais, em Quito, e o duelo de volta, disputado no Beira-Rio, mais de dois meses, e uma Copa do Mundo, foram vividos. Obstáculos grandiosos, mas inferiores ao Gigante, que garantiu a classificação para as semis. O último rival no caminho até a decisão foi o Libertad, derrotado, depois de empate sem gols no Paraguai, por 2 a 0 no templo da Padre Cacique.

“A história não está feita ainda. Temos que buscar o título”

Fernandão após vitória sobre o Libertad

Pré-jogo de mistério


O Colorado embarcou para São Paulo no sábado 5 de agosto, véspera de confronto contra o Santos, válido pela 15ª rodada do Brasileirão. Disputada apenas quatro dias após o Inter garantir vaga na final da Libertadores, a jornada em terras paulistas contou com uma escalação alternativa do Clube do Povo, que abriu o placar com Iarley, mas sofreu a virada, apesar de boa atuação, nos instantes finais do segundo tempo. O grande ponto positivo do embate foi o retorno de Tinga, recuperado de lesão sofrida no dia 19 de julho, data do duelo de volta contra a LDU. O meio-campista, inclusive, criou a jogada do tento vermelho.

“A gente foi minado com muitas faltas na frente da área, mas não quero me apegar nisso, porque temos uma situação muito importante na quarta-feira. Fico triste pela derrota, mas feliz porque consegui me movimentar bem e posso jogar na quarta-feira.”

Tinga após o duelo contra o Santos

A Baixada Santista seguiu como casa do Colorado nos dias seguintes ao duelo. No CT do Santos, Abel Braga comandou duas atividades fechadas para a imprensa, rodeada de mistérios. Se o retorno de Tinga era provável, por outro lado Alex, com dores no púbis, era dúvida. Autor do primeiro gol marcado pelo Inter na partida decisiva contra o Libertad, o camisa 24 desempenhava papel fundamental no time alvirrubro, alternando com Jorge Wagner entre a ala-esquerda e a armação. Élder Granja, com lesão muscular, também integrava a delegação, mas sua presença dentro de campo era tida como ainda mais complicada.

Eram muitas, assim, as dúvidas que rodeavam a nominata alvirrubra. Na direita, Ceará, que já vinha atuando no lugar de Granja, correspondia à maior certeza. Alex, ao mesmo tempo, passava longe de ter substituto definido. Caso Abel optasse por formação mais conservadora, poderia escolher Índio para o lugar do meio-campista, armando a equipe com três zagueiros e oferecendo maior liberdade a Tinga.

Inter, de Sobis, ajeitou os últimos detalhes no CT do Santos/Foto: Jefferson Bernardes

Outra alternativa residia em Iarley, camisa 10 que vinha somando grandes exibições no Brasileirão. A vocação ofensiva do comandante vermelho também suscitava expectativas acerca da escalação de Michel ou Rentería, avantes que poderiam formar o ataque com Sobis, passando Fernandão para o meio. Com a cabeça repleta de pequenas interrogações, ínfimas se comparadas à enorme motivação que carregavam, cerca de 3,5 mil colorados e coloradas encararam os 1109 quilômetros que separam as capitais de Rio Grande e São Paulo.

Era hora de fazer história. Era hora de soltar o libertador grito que estava preso há 97 anos em nossas gargantas.

Uh, Fernandão!/Foto: Jefferson Bernardes


Nenhum gol, duas expulsões


Entender as escalações que representaram Inter e São Paulo no Morumbi exige voltar mais quatro anos no tempo. Pentacampeão mundial em 2002, o Brasil do técnico Felipão surpreendeu a crítica esportiva, que muito desacreditava a Seleção Brasileira, na Copa do Mundo disputada em Japão e Coréia do Sul.

Armada no esquema 3-5-2, a Canarinho contava com os recuos dos alas Cafu e Roberto Carlos para ter segurança defensiva e máximo apoio pelos flancos. A formação marcou época e, como de costume em Copas do Mundo, ditou novas regras para o futebol. A decisão da Libertadores, é claro, comprova.

A seleção do Penta/Foto: Wilson Carvalho, CBF

Muricy escalou Rogério Ceni; Fabão, Lugano e Edcarlos; Souza, Mineiro, Josué, Danilo e Júnior; Leandro e Ricardo Oliveira. O desenho, é claro, reproduzia o 3-5-2. Contra o escrete paulista, Abel apostou no 4-4-2. Clemer, há quatro jogos sem sofrer gols na Libertadores, defendia a meta alvirrubra. Na defesa estiveram, Ceará, na direita, Bolívar e Fabiano Eller, na zaga, e Jorge Wagner, na esquerda. À frente, Tinga e Alex armavam. Fabinho e Edinho, também – mas ainda somavam obrigações defensivas. Completando a nominata, Sobis e Fernandão reeditavam, uma vez mais, poética dupla que marcou época no ataque colorado.

O clima no luxuoso bairro paulista era de festa. Com foguetes, sinalizadores e bandeiras, a torcida da casa empurrou o São Paulo nos instantes iniciais, apostando que um precoce gol poderia bagunçar a estratégia de Abel. Logo no primeiro minuto, Leandro foi lançado na área colorada e chutou cruzado. Mascada pela zaga, a bola morreu segura nas mãos de Clemer. O Inter respondeu pouco depois com Ceará. Aos 3, o lateral escapou em velocidade pela direita e cruzou fechado buscando Sobis. Antes dele, Ceni cortou em escanteio. O camisa 11 colorado teve boa chance na continuidade do lance, partindo, sobre a linha da grande área, da esquerda para o centro. Cruzado, o arremate explodiu na rede, por fora.

Sobis era, de fato, o mais insinuante colorado em campo. Estonteante nas cercanias da grande área, não hesitava em buscar jogo no campo defensivo, irritando a selecionável dupla de volantes paulistas. Josué, estressado, descontou sua indignação muito cedo, e acertou cotovelaço no jovem atacante alvirrubro. Com 9 minutos de partida, o São Paulo já tinha um a menos.

Numérica, a superioridade colorada também foi vista nas ações do campo. Entregue a escassos contra-ataques, o São Paulo apostava o pouco que tinha em Souza, ala-direita. Esperto, Abel respondeu dando liberdade para Jorge Wagner, que muito se somou a Alex na construção de jogadas pelo flanco canhoto. Livre, o lateral-esquerdo colorado recebeu passe milimétrico de Edinho, que tabelara com Sobis, e, de cara com Rogério, finalizou rasteiro. O relógio marcava 17 minutos, e o Inter tinha a primeira grande chance da noite!

Cedo na partida, Jorge Wagner assustou os paulistas/Foto: Divulgação

A resposta tricolor chegou aos 23. Ricardo Oliveira interceptou troca de passes do Inter na intermediária ofensiva colorada e escapou em velocidade. Pela esquerda, colocou na frente e, antes do bote de Bolívar, cruzou com curva. Pouco depois da marca do pênalti, Leandro dominou, deixou correr e, quando Clemer já caía no chão, finalizou. Fabinho, salvador, travou em carrinho milimétrico. Que início de final!

Dono da posse de bola, o Inter voltou a assustar aos 34. Da mesma posição que partira para marcar o primeiro contra o Libertad, Alex recebeu passe de Bolívar. Com espaço, colocou na frente e dispensou a necessidade de um segundo toque na bola. Viva, com efeito, a finalização de canhota levou muito perigo. Três minutos depois, Fabinho acertou Souza por cima e também recebeu o vermelho.

Dono dos holofotes, o camisa 21 do Tricolor teve boa chance após cavar a expulsão do volante alvirrubro, mas esbarrou em Clemer. Por fim, Jorge Wagner encerrou os melhores momentos de uma agitada etapa inicial aos 44, quando cobrou falta por cima do gol de Ceni. O branco do placar, embora não refletisse o ritmo intenso do primeiro tempo, era bem recebido pelo time de Abel Braga, confiante na possibilidade de, no jogo de volta, exercer a tradicional força colorada no Beira-Rio.


Para a história


Até 2006, a maioria dos colorados e coloradas lembrava do Morumbi como palco da maior exibição da história do Inter como visitante. Abrindo a disputa da semifinal do Brasileirão de 1979, o Clube do Povo esteve perfeito para atropelar o Palmeiras e, através de vitória por 3 a 2, trazer a vantagem para o Beira-Rio. Na ocasião, Falcão, cabeludo craque revelado pelo Celeiro de Ases, brilhou balançando as redes paulistas em duas ocasiões. Passados 27 anos, o povo vermelho seria brindado com nova exibição impecável no gigante templo do São Paulo Futebol Clube.

A tranquilidade exibida pela equipe colorada na noite de 9 de agosto de 2006 contrastava com o turbilhão de emoções encarado pelos presentes no Morumbi. Seguro, o time de Abel jogava empurrado por rica biografia, e já construía, durante o zero a zero, atuação que despertava orgulho no povo vermelho. Seguindo à rica este roteiro, o Clube do Povo saiu de trás com tranquilidade aos 8 minutos da etapa final, quando Bolívar acionou Edinho.

Cabeça erguida, o volante progrediu firme para invadir a intermediária rival. Com passadas largas, venceu os dois primeiros marcadores na velocidade. Livre, lançou Sobis quando sentiu a aproximação de Lugano, descontrolado. Ingênuo, o uruguaio deixou espaço na retaguarda tricolor, já esvaziada graças à genialidade de Fernandão. Aberto na direita, o camisa 9 prendeu Edcarlos e criou espaço para a infiltração de seu parceiro de ataque. Como uma orquestra afinada, tudo corria bem na escapada colorada.

Cabeludo craque revelado pelo Celeiro de Ases (um salve às coincidências), Sobis partiu para o mano a mano contra Fabão. Em velocidade, dominou com a direita e, usando da mesma perna, conduziu em linha reta. Para a esquerda, gingou o corpo, levando junto o zagueiro. Ganhava, então, ainda mais espaço para sua melhor perna.

O drible custou o equilíbrio do atacante, que por pouco não caiu. Genial, todavia, ele, que acabara de costurar no gramado as veias do continente que estava prestes a libertar, manteve-se de pé para invadir a área. Dentro dela, finalizou cruzado. Rasteiro. Para a eternidade. Inter na frente, e o setor visitante do Morumbi conhecia o DNA carnavalesco do povo colorado.

Gaúcho e colorado, colorado e gaúcho/Imagens: Rede Globo

Logo depois do gol, Abel mandou Wellington Monteiro a campo, sacando Ceará. Mantido o desenho, a troca deu ainda mais liberdade para a infernal dupla Alex e Jorge Wagner, uma vez que o substituto pela direita, habituado a atuar também como volante, tinha no comportamento defensivo um de seus melhores valores. Em dívida no marcador, o São Paulo precisaria se jogar ainda mais para o campo ofensivo, e estava claro qual corredor ofereceria ao Inter seus melhores contra-ataques.

Infiltrando pela esquerda, Tinga recebeu ótimo passe de Alex que, posicionado pela direita, cobria o avanço do companheiro. Livre, o camisa 7 dominou no momento do pique, mas Rogério, inteligente, deixou o gol para ficar com ela antes do cabeceio do meia colorado. Chance perdida para alguns, caminho indicado para outros. Três minutos depois, Eller desarmou Ricardo Oliveira e deixou ela com Jorge Wagner, que escapou em velocidade.

O camisa 23 cruzou a linha do centro do campo e acionou Fernandão. Posicionado como um volante após ter empreendido intensa perseguição a Ricardo Oliveira, o Eterno Capitão colorado esperou o aproximação de Mineiro e devolveu em Jorge. Fazendo as vezes de meio-campista, ele deixou, em profundidade, para Alex, então exercendo a função de ala.

Alex cruzou linda bola na segunda trave, com efeito, direcionada à nuca de Fernandão, que infiltrou em velocidade. Nas costas da marcação, o camisa 9 colorado testou para a frente, onde estava Tinga, pisando na pequena área. O meio-campista mandou, também de cabeça, arremate certeiro e forte, que explodiu no travessão. Exatamente em cima da marca do pênalti, Rafael Sobis impediu o picar da bola no rebote e finalizou colocado em direção às redes abertas. Pobre Ceni, bem que tentou, mas a noite não era dele. Era de Sobis, que marcava o segundo do Inter.

O segundo do menino de Erechim/Imagens: Rede Globo

Os dois gols de vantagem conquistados em 16 minutos de etapa final criaram um portal na cidade de São Paulo. A partida, antes disputada no Morumbi, passou a ocorrer no gramado do Beira-Rio. O som ambiente não deixava dúvidas.

Tomado pelo povo vermelho, o estádio via ecoar estridente “Vamo, Vamo Inter”. Dona dos mais altos decibéis, a torcida colorada construiu festa poucas vezes vista no sudeste brasileiro. A noite, indubitavelmente, entrava para a história.

Festa da torcida colorada/Foto: Divulgação

Os elogios tecidos ao São Paulo no alvorecer desta matéria não se fizeram presentes por acaso. Treinado por um gênio, o time da casa respondeu ao segundo gol colorado com a entrada de Lenílson, ofensivo meio-campista que substituiu Danilo. Logo depois, Júnior, primeiro dentro e depois fora da área, desperdiçou boas oportunidades. O que antes era uma goleada, consequentemente, voltou a tomar contornos de igualdade, afinal de contas, entusiasmada pela postura de seus atletas, a torcida do São Paulo passou a disputar o posto de local com a colorada.

Dentro de campo, a vantagem do Clube do Povo também conviveu com ameaços. Aos 21, por exemplo, Clemer operou grande milagre. Sedento por novo contra-ataque, o Inter deu o troco com Sobis. Após servir Alex, o camisa 11 viu Fernandão ser lançado na esquerda da grande área. Parcialmente cortado, o cruzamento rasteiro do camisa 9 voltou para o artilheiro da noite. De frente pra o gol, ele exagerou na força.

É preciso reconhecer a excelente atuação de Souza, o mais perigoso atleta do São Paulo. Aos 28, ele quase consagrou Júnior, mas o excelente cruzamento foi cortado por Wellington Monteiro. Cobrado o escanteio, o lance prosseguiu até Leandro receber bola na direita da intermediária e cruzar para Edcarlos, postado como um centroavante. Certeiro, o cabeceio morreu nas redes de Clemer. Jogo em aberto, mais uma vez.

No lugar do zagueiro artilheiro, que vinha jogando como atacante, entrou Aloísio, centroavante de origem. Ao mesmo tempo, o Inter contava com Índio, que substituíra, minutos antes do gol, Alex. Fechado com cinco atletas na primeira linha, o Clube do Povo ainda somava mais quatro no meio de campo, consequência da aplicação tática de Fernandão e Sobis, que revezavam no momento de recompor.

A consequência de toda a dedicação dos avantes colorados chegou aos 34, quando o até então incansável Rafael Sobis precisou sair. Exaurido após atuação do mais alto nível, deu lugar para Michel. Renovado, o talismã de Abel Braga dispensou os recuos de Fernandão, e exerceu, absoluto, a função de coringa entre meio e ataque.

“As dificuldades serão iguais ou maiores no próximo jogo. Conseguimos apenas uma pequena vantagem e vamos aproveitá-la da melhor maneira possível”

Abel após o jogo no Morumbi

Descansado na linha de frente, Fernandão criou, aos 36 minutos, oportunidade mágica para o Inter. Acionado por Tinga, prendeu dois marcadores, fez a parede e recomeçou com Jorge Wagner, que deixou de lado com Edinho. O volante disparou do círculo central e, mais uma vez imparável, só foi derrubado por carrinho violento de Fabão, já na meia-lua da grande área. Para o agressor, amarelo. Para o Clube do Povo, falta. Para Jorge, o lamento. A bola saiu alta demais.

Ricardo Oliveira, Lenílson, Richarlyson – alçado a campo na vaga de Leandro -, Souza e, inclusive, Bolívar, cortando cruzamento perigoso vindo da direita. Todos estes atentaram contra a meta colorada ao longo dos instantes que antecederam o apito final. Nenhum balançou as redes de Clemer. Aos 48, Jorge Larrionda encerrou jornada que até hoje segue interminável na nostálgica memória do povo do Inter. Em uma semana, conquistaríamos a América.

Heróis colorados comemoram muito a vantagem conquistada na partida de ida/Foto: Divulgação

A virada da arquibancada: há 14 anos, Inter avançava para as semifinais da América

Tarefa ingrata resumir a gigante história do Inter na Libertadores. Primeira equipe da região sul do país a participar do torneio e disputar uma final, o Clube do Povo abriu o século XXI encarando indigesto histórico de recentes desencontros com a maior competição das Américas. Ao todo, o Colorado viveu um hiato de 13 anos distante do principal certame de nosso continente. O retorno, rodeado de grandes expectativas por um final feliz, aconteceu em 2006, e teve um de seus maiores capítulos vivenciados há exatos 14 anos.

Rafael Sobis e torcida: os destaques da vitória sobre a LDU


O caminho até as quartas


Credenciado após dois anos seguidos de boas campanhas na Sul-Americana, o Inter encarou com autoridade a pressão da reestreia na Libertadores. Contra o Maracaibo-VEN, fora de casa, Ceará abriu o placar aos três minutos do segundo tempo. Disputada no dia 16 de fevereiro, a jornada contou com infeliz gol dos donos da casa aos 43, igualando o marcador. Uma semana depois, o Beira-Rio lotado comemorou os 3 a 0 do Clube do Povo sobre o Nacional-URU. No mês seguinte, o Colorado conquistou duas grandes viradas sobre o Pumas-MEX, a segunda por 3 a 2, em Porto Alegre, e chegou aos 10 pontos. Novo empate, este no Uruguai, somado a triunfo de 4 a 0 sobre os venezuelanos, já em abril, encerrou a campanha alvirrubra, segunda melhor entre os participantes, na fase de grupos do torneio.

De maneira simultânea à boa fase continental, no Gauchão o Inter também avançou líder para as eliminatórias. Na final, entretanto, dois empates contra o maior rival deixaram o Clube do Povo com o vice-campeonato. O resultado serviu de alerta para Abel Braga, que promoveu mudanças na escalação, reconduzindo Rafael Sobis, que sofrera com lesões no primeiro semestre, ao time titular, assim como Jorge Wagner. No encerramento dos grupos da Libertadores, a lesão de Tinga resultou em nova alteração nos onze iniciais. Assim, com um meio de campo formado por Edinho, Fabinho, Alex e Gabiru, o Colorado chegou para a disputa das oitavas, que promoveram novo encontro com os uruguaios do Nacional.

O Inter exorcizou seu primeiro fantasma logo na partida de ida, disputada no Parque Central. Jorge Wagner, em um golaço de falta, empatou para o Inter na etapa inicial, mas a grande pintura da noite ainda estava por vir. Aos 18 do segundo tempo, Rentería, o mais colombiano dos sacis, aplicou um lençol no zagueiro Pallas e, sem deixar a bola cair, pegou na veia. Vitória por 2 a 1 que, somada a empate sem gols do Beira-Rio, classificaria o Inter para as quartas.


A tensão pelo jogo de volta


O adversário nas quartas de final foi a LDU. Equipe dona da segunda melhor campanha entre os segundo colocados da primeira fase, superou, nas oitavas, o Atlético Nacional, da Colômbia, com o agregado de 5 a 0. Extremamente forte em seus domínios, o time equatoriano sabia explorar a altitude de Quito, localizada cerca de 3.000 metros acima do nível do mar, para encurralar adversários. Abusando deste recurso, largou em vantagem na luta por vaga nas semis continentais. Jorge Wagner, vivendo fase artilheira com sua sempre afiada perna canhota, até abriu o placar para o Inter no primeiro tempo, mas o ar rarefeito fez a diferença na etapa final, permitindo aos donos da casa o triunfo por 2 a 1.

O revés marcou o fim de uma invencibilidade de 27 jogos. Para piorar, o confronto de volta, tradicionalmente disputado sete dias após o primeiro duelo, levaria meses até ser realizado. Paralisada por conta da disputa da Copa do Mundo da Alemanha, a Libertadores seria retomada apenas em julho. Assim, ao longo de mais de sessenta dias a torcida precisaria conter a ansiedade e, ao mesmo tempo, seguir esperançosa. Missão difícil? Não para o povo colorado.

A Maior e Melhor Torcida do Rio Grande não somente continuou fiel, como criou uma corrente de energias positivas poucas vezes vista na história. Foram semanas marcadas por recordes de associação, liquidação de cadeiras disponíveis nos setores locados e peregrinação ao Beira-Rio para comprar camisas, acompanhar treinos ou simplesmente fazer alguma reza, depositando sua fé no número 891 da Avenida Padre Cacique. Enquanto o restante do país estava imbuído de forte espírito nacionalista, o povo alvirrubro deixava os jogos da Seleção Brasileira em segundo plano, permanecendo ansioso não para as esperadas exibições de Dida, Ronaldinho, Kaká, Robinho, Ronaldo e Adriano, mas sim para ver em campo Clemer, Tinga, Alex, Rafael Sobis, Fernandão e companhia.

Duas semanas depois da partida do Equador, o Inter anunciou que 400 novas cadeiras locadas seriam colocadas à disposição, visando a suprir a demanda crescente dos associados e torcedores colorados. O bom momento vermelho, que após campanha histórica no Campeonato Brasileiro do ano anterior conseguia conciliar as diferentes disputas de 2006, seguindo vivo na Libertadores e ocupando as primeiras posições do torneio nacional, orgulhava a torcida. Faltava, porém, conquistar um título que estivesse à altura da grande fase.

Todos no Beira-Rio encaravam o confronto que se avizinhava como o jogo do ano. O Inter, por exemplo, tratou de aprimorar a estrutura do Gigante, realizando reformas nas cadeiras locadas, preparando o setor para a noite de 19 de julho, quando centenas de novos frequentadores eram esperados no local. A Central de Atendimento ao Sócio (CAS) também se adaptava, fazendo plantões em série, muitas vezes trabalhando noite adentro. Nem mesmo a derrota para o Juventude, na última partida do Nacional antes da decisão pela Libertadores, arrefeceu o ânimo da Maior e Melhor Torcida do Rio Grande.


O Gigante jogou junto


Passados mais de dois meses e uma Copa do Mundo, enfim o apito inicial estava próximo. Cerca de 40 mil colorados e coloradas tomaram as arquibancadas do Beira-Rio, ignorando o horário da partida, marcada para as 19h15, que complicava a rotina de todos que trabalharam naquela quarta-feira. Dentro do Gigante, todavia, nada mais parecia importar. Para a multidão ensandecida, apenas o estádio existia. Com bandeirões, faixas, cantoria, sinalizadores e instrumentos, o povo transformou o templo da Padre Cacique em um caldeirão, pronto para cozinhar o adversário desde a entrada das equipes em campo.

Iniciado o confronto, o Inter estava escalado com Clemer no gol; Elder Granja, Bolívar, Fabiano Eller e Jorge Wagner na defesa; Fabinho, Edinho, Tinga, recuperado de lesão, e Alex no meio; Rafael Sobis e Fernandão no ataque. Do outro lado, sete atletas que integraram a delegação equatoriana na Copa da Alemanha impunham respeito. Armada no esquema 4-5-1, com três volantes, a LDU tinha como claro objetivo anular o ataque colorado – e abria mão de quaisquer princípios por isso. Logo no primeiro minuto, Sobis cruzou da esquerda buscando Fernandão. O Capitão quase chegou na bola, dividindo com o goleiro Mora, que fez a defesa e, de imediato, aproveitou a oportunidade para ganhar alguns segundos na primeira cera visitante.

Resumido a esparsos cruzamentos na direção da área rival, o Clube do Povo sofreu para criar oportunidades na primeira meia hora de partida. Na reta final da etapa, Fernandão, Sobis e Granja, em arremates de fora da área, conseguiram esboçar uma pressão colorada, incapaz de balançar as redes equatorianas, mas suficiente para reascender o pavio do Gigante. Chegado o intervalo, da inferior às cadeiras o povo compartilhava da mesma certeza: se quarenta e cinco minutos eram pouco comparados às semanas de mobilização entre uma partida e outra, imagine, então, em relação a 97 anos de história.


Etapa final para a história


A sinergia entre time e estádio resultou em pressão arrasadora dos comandados de Abel Braga na volta do intervalo. Como um rolo compressor, o Inter encurralou os visitantes, e passou a empilhar grandes chances. Aos dois minutos, Sobis costurou do meio para a esquerda e deixou com Jorge Wagner, que cruzou rasteiro. A bola passou do goleiro e encontrou, praticamente debaixo das traves, o pé de Tinga. Desequilibrado por um marcador, o camisa 7 colorado finalizou com muita força, caindo, e mandou por cima da goleira. Segundos depois, Alex descolou lindo lançamento para Fernandão. Entre a dupla de zaga rival, o camisa 9 dominou no peito e, de canhota, finalizou cruzado, tirando tinta da trave de Mora. O gol era iminente.

A dobradinha Sobis e Fernandão fez história com a camisa colorada. Explosivo, o garoto de Erechim sabia explorar espaços como poucos. Surgiu para o futebol seguindo à risca a cartilha de um segundo atacante, genial para estabelecer combinações com seu parceiro ofensivo. Ao mesmo tempo, nosso Eterno Capitão sempre demonstrou inteligência acima da média. Apesar do que a estatura e o número que vestia podem sugerir, não era um centroavante clássico. Habituado a ocupar a ponta-de-lança, gostava de circular fora da área, criando vazios na defesa adversária. Exatamente desta forma, após lançamento de Jorge Wagner, nosso camisa 9, caindo pela esquerda, escorou de cabeça para Rafael.

Pula que é gol do Sobis, só pode ser o Sobis!/Imagens: Rede Globo

Sobis partiu no mano a mano com o zagueiro Espinoza. Inteligente, retardou ao máximo seu primeiro toque na bola, deixando a redonda seguir a trajetória proposta por Fernandão. Já próximo da área adversária, começou a cortar para a direita, entortando as costas do defensor rival. Ao pisar na meia-lua, percebeu que tinha visão aberta para a goleira, e soltou a bomba. Inter na frente!

Nos minutos que se seguiram, o Inter acumulou chances desperdiçadas. Pouco depois, Tinga sentiu lesão e deixou o campo para a entrada de Adriano Gabiru. Os milhares presentes no estádio, que tanto esperaram pelo jogo, agora torciam para que o confronto chegasse ao fim o quanto antes. Depois de 17 anos, o Colorado gaúcho poderia retornar, pela quarta vez em sua história, às semifinais da Libertadores.

Desesperada, a LDU passou a ocupar o campo de ataque, construindo pressão nos minutos finais. Bem postado, contudo, o Colorado impediu a criação de chances equatorianas. Mais do que isso, soube esperar por um contra-ataque fatal. Desgastado, Sobis deixou o campo para a entrada de Rentería, que precisou de menos de três minutos para aprontar. Após cruzamento perigoso da equipe visitante, Jorge Wagner ficou com a sobra pela esquerda e lançou o colombiano, nas costas da marcação. Em velocidade, o Saci chegou antes de Mora e tocou por cobertura. Golaço, comemorado com cachimbo e touca pelo artilheiro talismã.

Rentería, é nós! Tipo Colômbia!/Imagens: Rede Globo

Se antes os visitantes buscavam o gol que seria da classificação, o revés por 2 a 0 cobrava que balançassem as redes coloradas para, pelo menos, postergarem a decisão da vaga para além dos 90 minutos. Nos acréscimos, o incômodo destino obrigou o povo alvirrubro a flertar com a decepção. A centímetros da grande área, Candelário, tentando tirar proveito da encoberta visão de Clemer, que tinha todos os jogadores das duas equipes postados na sua frente, cobrou falta rasteira. Habituado a crescer nos grandes momentos, o goleiro do Inter voou no canto esquerdo, espalmando para escanteio e garantindo a classificação para as semifinais.

Assim, graças aos pés de Sobis, a genialidade de Rentería e as mãos de Clemer, o Inter seguiu escrevendo um belíssimo e vitorioso ano de 2006 na sua história na Libertadores. Ainda mais importante do que o brilho dos jogadores, entretanto, foi o apoio da torcida, que consagrou nosso amor. Com ele, já encaramos tudo – e vencemos. Sempre foi assim em nossa biografia – e sempre será. Afinal de contas, nós não somos DO Internacional, e sim O Internacional. Somos o povo que nunca deixa de acreditar, porque nada, nunca, vai nos separar! Associe-se aqui!

Rumo ao Bi, há 10 anos virávamos sobre o Banfield

A Libertadores tem um ritmo diferente. Soa, aos ouvidos do apaixonado por futebol, como a mais harmônica mistura da cumbia com o tango, passando pelo samba e o reggaeton. Envolvente disputa, consegue impor a uma equipe, durante breves 90 minutos, emoções que variam da alegria ao drama, do sofrimento à explosão. Aquele que deseja a Copa deve superar, com maestria, um caminho feito para lhe causar percalços. A melhor maneira ser bem-sucedido na empreitada? Contando com a força de uma casa que esteja à altura da mística do torneio.

Em 2010 tropeçamos, é inegável. Não por fraqueza, e sim devido às armadilhas que visitaram nossa campanha. Diante de acanhado alçapão hermano, enfrentando hostil arbitragem charrua, com direito a pênalti sonegado e expulsão polêmica forçada, sucumbimos para o Banfield, apesar da belíssima pintura de nosso lateral – pouco depois sacado de campo pelo homem do apito.

Golaço de Kleber acabou se provando fundamental para o Inter. Imagens: SporTV

Para avançar às quartas, portanto, o Inter dependia de vitória por placar superior aos de vantagem mínima. A alternativa, única, residia em fazer a diferença no Beira-Rio. Afinal de contas, por mais que a esperança parecesse dançar na corda bamba de sombrinha, em nossa casa não seria justo que nos machucássemos.

“A energia que vem da

arquibancada faz a diferença.

Ela contamina todo

mundo em campo.”

GUIÑAZÚ – semana anterior ao confronto

O crepúsculo da quinta-feira 6 de maio foi mais rubro do que de costume. Mobilizados para o duelo das 19h30, 35 mil colorados e coloradas migraram cegamente à Padre Cacique, certos de que, naquela data, apenas para o Gigante os caminhos poderiam convergir. Iniciado o confronto, se é verdade que as arquibancadas ainda não estavam tomadas, fruto do caótico trânsito de final da tarde na capital gaúcha, já eram numerosos os que cantavam nas arquibancadas do Beira-Rio.

Tão intenso quanto o movimento de chegada ao Estádio, por óbvio, era a cantoria que dele emanava. Irretocável no Beira-Rio até então, acumulando três vitórias no torneio continental, o Inter pisou em campo sabendo que, por mais dura que fosse, a missão nada tinha de impossível. Ideia comprada pela torcida, convencida pelos comentários do gigante Guiñazú.

Em perfeita sintonia, grama e cimento sufocaram os argentinos, não permitindo um mísero segundo de descanso. Conduzidos – time e torcida – por um endemoniado D’Alessandro, os colorados lamentaram chances perdidas por Andrezinho e Walter, criadas pelo camisa 10, e também finalização do argentino que explodira no travessão. Conforme a chegada do intervalo se aproximava, o medo começava a crescer entre os mais pessimistas. Neste instante, contudo, o regente Andrés voltou a dar as caras.

Com passe milimétrico, D’Alessandro deixou Andrezinho de frente para o goleiro. Genial, o anjo das cobranças de falta serviu Alecsandro que, com a meta aberta, teve o simples trabalho de completar. Agora, faltava um.

Abençoado momento dos vestiários, permitiu ao Gigante descansar. Pulsando intensamente, o quarentão Beira-Rio precisava de um respiro. Breve, é claro, pois poucas são as construções tão habituadas ao delírio das massas quanto o templo colorado. A importância do quarto de hora de relaxamento foi comprovada logo cedo, com D’Alessandro, mais uma vez ele, lançando Eller.

Imagens: SporTV
Imagens: SporTV

Cobrindo a lateral-esquerda, o zagueiro vencedor de América e mundo em 2006 avançou e suspendeu. Na cabeça de Walter. Testaço para as redes! Virávamos. Juntos.

Encaminhada a vaga, o escrete colorado não cessou. Como poderia, se finalmente percebia os primeiros ares de classificação despontando no horizonte? As chances perdidas até motivaram um suspiro ou outro de nervosismo, mas a expulsão de James Rodríguez, jovem craque do rival, e o sucessor apito final libertaram, de uma vez por todas, o otimismo alvirrubro. Estávamos nas oitavas, graças à determinação de um Estádio que não cansou de jogar.

Inter, o melhor do mundo!

O beijo da taça no capitão que melhor lhe tratou na história/Foto: Jefferson Bernardes

É CAMPEÃO DO MUNDO!!! O planeta passou a ter uma nova cor neste domingo (17/12). Histórico, o Inter venceu o Barcelona, na grande final do Mundial de Clubes da Fifa, e assim coloriu a Terra em vermelho e branco. Disputada na japonesa cidade de Yokohama, a inesquecível decisão foi encerrada com triunfo por 1 a 0 do Clube do Povo, gol de Adriano Gabiru. Predestinado, o artilheiro responsável por colocar o Colorado no seleto grupo de donos do planeta estufou as redes catalãs aos 36 minutos do segundo tempo, pouco depois de entrar em campo no lugar de Fernandão.


O pré-jogo

Sem Hidalgo, machucado, o técnico Abel Braga escolheu Rubens Cardoso para a lateral-esquerda. Nas demais posições, o time colorado repetiu a formação que derrotara o Al-Ahly nas semifinais, assim subindo a campo, vestindo branco, com Clemer no gol; Ceará, Índio, Fabiano Eller e Rubens, na defesa; Edinho, Wellington Monteiro, Alex e Fernandão no meio; Pato e Iarley na frente.

Os 11 iniciais/Foto: Jefferson Bernardes

Do outro lado, o Barcelona de Frank Rijkaard esteve escalado com Victor Valdes no gol; Zambrotta, lateral campeão do mundo com a Itália no último mês de julho, Rafa Marquéz, Puyol e Van Bronckhorst, na defesa; Thiago Motta, Iniesta e Deco, no meio; e Ronaldinho, o atual melhor jogador do mundo, Gudjohnsen e Giuly, no ataque. A equipe foi a mesma que, no último dia 14, goleou o América-MEX na semifinal do Mundial.

Lotado por mais de 70 mil pessoas, o Estádio Internacional de Yokohama demonstrou, ao longo de toda a noite, grande simpatia pela equipe europeia, com especial destaque para os craques Ronaldinho e Deco, constantemente ovacinados pelo público. O ambiente hostil, contudo, em nada intimidou as centenas de colorados e coloradas que, localizados principalmente atrás da goleira esquerda, cantaram e apoiaram o Inter durante os 90 minutos, decorando as arquibancadas nipônicas com bandeiras e faixas do Clube do Povo.

Após bonito espetáculo protagonizado por jovens crianças e embalado por um grupo de música pop japonesa, as equipes entraram em campo perfiladas, respeitando o tradicional protocolo da FIFA. Considerado visitante, o Inter teve seus atletas completamente fardados de branco, com a maioria vestindo mangas longas devido ao intenso frio nipônico.


Primeira etapa movimentada

Palco da decisão da Copa do Mundo de 2002, o Estádio Internacional de Yokohama assistiu à partida que esteve, desde seus primeiros movimentos, à altura da mística de suas arquibancadas. Vivendo grande momento, o Barcelona bem que tentou impor seu ritmo desde o minuto inicial, mas esbarrou no grande entrosamento da retaguarda colorada. Como se fora um meio-campista, Fernandão não oferecia respiro a Motta, perturbando a tradicionalmente qualificada saída de bola catalã. Diante do cenário positivo, o Clube do Povo começou a se soltar, criando boas oportunidades com Fernandão, Rubens Cardoso, Iarley e Pato.

A resposta dos europeus, tidos por quase toda a crônica esportiva como favoritos, chegou aos 18 minutos, em chute forte de Van Bronckhorst. O holandês botou bastante curva na bola, exigindo grande reflexo de Clemer, que espalmou para a direita. Ronaldinho aproveitou o rebote e mandou de primeira, mas direto pela linha de fundo. Deste momento em diante, a partida ficou mais concentrada entre as duas intermediárias, com o Barcelona apostando em bolas alçadas para Gudjohnsen e forçando faltas, enquanto o Inter tentava encaixar um rápido contra-ataque que poderia ser fatal. Como elemento surpresa, Índio, aos 37, teve a última boa oportunidade da etapa inicial, finalizando por cima jogada tramada com Wellington Monteiro.


O mais internacional dos tempos

Os 20 minutos iniciais da última etapa repetiram o cenário de abertura do primeiro tempo. Presente no campo ofensivo, o Inter levava perigo aos espanhóis ao mesmo tempo em que, no campo de defesa, contava com maiúscula atuação do sistema para segurar o ímpeto catalão. O cenário foi radicalmente revolucionado, todavia, aos 23, quando Fernandão sentiu cãibra após disputar bola por cima.

Após receber rápida massagem na panturrilha, o capitão retornou a campo e tentou, por quase cinco minutos, permanecer na partida, até não resistir às dores. Abel, então, chamou Gabiru, mas, no instante em que a troca seria feita, um novo problema surgiu: o nariz de Índio, que não parava de sangrar. O defensor precisou sair de campo em busca de uma nova camisa limpa. Ao mesmo tempo, recebia atendimento que impedia o comandante colorado de realizar a prevista substituição, que seria a terceira. Assim, o Inter permaneceu, durante intermináveis minutos, com um (e meio) a menos no gramado, até Índio retornar e Adriano entrar, aos 30.

Guerreiro, Índio!/Foto: Ricardo Duarte

Se no papel foi Adriano quem substituiu Fernandão, animicamente coube a Iarley ocupar o espaço de liderança deixado pelo capitão. Chamando a responsabilidade para si e importunando a defesa rival, o camisa 10 encontrou seu momento de maior brilhantura na partida aos 36, curiosamete em combinação com Gabiru, certamente abençoado por Fernando, que tudo assistiu da beira do campo.

Em velocidade, o quixeramobinense recebeu escorada de Luiz Adriano e, da altura do meio de campo, partiu em velocidade após aplicar caneta desconcertante em Puyol. Exatos cinco segundos após o corte, serviu açucarada assitência para Gabiru, que não perdoou. Gol. O mais importante de nossa história, o único da partida, apesar dos esforços de Deco, parado por Clemer, Ronaldinho, condenado pelo destino, e companhia. Faltando um segundo para os 48, Carlos Batres apitou pela última vez na partida e oficializou a conquista alvirrubra.


O Japão tremeu

O MUNDO É NOSSO/Foto: Jefferson Bernardes

Uma vez encerrado o confronto, a distância de 20 mil quilômetros entre Japão e Rio Grande do Sul foi encurtada a ponto de habitantes de uma terra confirmarem ser possível ouvir os festejos promovidos noutra. Goethe e Yokohama viraram um só ambiente, ou melhor, passarela, sobre a qual desfilou o popular bloco colorado.

Comemora o povo alvirrubro/Foto: Ricardo Duarte

Mais do que no momento do apito final, verdade seja dita, foi pontualmente às 21h38min do Japão, 10h38min do Brasil, que a euforia foi, enfim, iniciada. Neste instante, poucos minutos depois de Iarley ser premiado como o segundo melhor atleta da competição, Fernandão ergueu a taça do Mundial, colorindo, de vez, o mundo em alvirrubro. Depois disso, os jogadores deram a tradicional volta olímpica e partiram para a festa que não tem dia, hora ou lugar pra acabar. Comemore, povo colorado. O mundo é nosso!


Os principais lances da partida:

Primeiro tempo

Segundo Tempo


Ficha técnica

Internacional (1): Clemer; Ceará, Índio, Fabiano Eller e Rubens Cardoso; Edinho, Wellington Monteiro, Alex (Vargas) e Fernandão (Adriano); Alexandre Pato (Luiz Adriano) e Iarley. Técnico: Abel Braga.

Barcelona (0): Valdes; Zambrotta (Beletti), Márquez, Puyol e Van Bronckhorst; Motta (Xavi), Iniesta e Deco; Giuly, Gudjohnsen (Ezquerro) e Ronaldinho. Técnico: Frank Rijkaard.

Gol: Adriano (I), aos 36min do segundo tempo.

Cartões amarelos: Índio, Iarley e Adriano (I); Motta (B).

Público: 67.128.

Arbitragem: Carlos Batres (Guatemala), auxiliado por Carlos Pastrana (Honduras) e Leonel Leal (Costa Rica).

Local: Estádio Internacional de Yokohama, no Japão.