Inspiração e superação: Guerrero recebe um torcedor especial

Um encontro marcado por muita inspiração, superação e uma luta diária. Paolo Guerrero recebeu um torcedor muito especial, no CT Parque Gigante, após dois anos de uma amizade inspiradora, que incentiva Henrique Maffei a superar a cada dia um tumor. Um exemplo de que não é apenas futebol!

Gostou da história do Henrique e quer ajudar? Acesse: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/glioblastoma-multiforme-4-tratamento

Alô, sócio(a): uma ligação especial do Taison

Oficialmente apresentado no final da manhã da última sexta-feira (23/04), Taison já está em casa. Alegre com o retorno, o novo camisa 10 colorado decidiu comemorar o tão sonhado momento com os grandes protagonistas da história alvirrubra: os(as) sócios(as)! Separa o lencinho e confira todo amor e carinho recebido pela cria do Celeiro!

O primeiro dia de Taison no retorno ao Beira-Rio

Ele voltou, e já está entre nós! Ídolo colorado, Taison foi oficialmente apresentado como reforço do Clube do Povo no final da manhã desta sexta-feira (23/04). Novo camisa 10 do Inter, ele abriu o dia com avaliações físicas no CT Parque Gigante, sucedidas pelo esperado retorno ao Beira-Rio. Confira toda a emoção do craque:

De joia a ídolo: relembre a trajetória de Taison no Inter

O PASSISTA DO BEIRA-RIO VOLTOU! Fiel representante da essência do Clube do Povo, Taison está de volta ao Gigante. Anunciado na tarde desta sexta-feira (16/04), o ídolo retorna ao Inter para escrever novos capítulos em história que já conta boas doses de superação, alegria, taças e, é claro, muita irreverência vestindo vermelho.

Oriundo do pelotense Progresso, clube de sua cidade natal, Taison chegou ao Celeiro de Ases no ano de 2005. Jogador de extrema velocidade e dribles desconcertantes, foi descoberto durante confronto contra o próprio Inter. A partir de então, passou a ser cuidadosamente lapidado na base do Clube do Povo, onde viveu pouco mais de dois anos e atuou pelas categorias Sub-17 e Sub-20 até a promoção para os profissionais, oficializada no início de 2008.

À época, o mês de maio, inaugurado com taça estadual, não ofereceu final feliz para o Inter. Oscilante, o Colorado acumulou derrotas, por Brasileirão e Copa do Brasil, que culminaram com troca no comando técnico e despedida de ídolos. Neste cenário instável, Taison debutou entre os profissionais do Clube do Povo. No Estádio do Canindé, o jovem substituiu Magrão quando o relógio indicava 34 minutos da etapa final, e pouco pôde fazer para evitar o tropeço colorado para a Portuguesa, vitoriosa naquele domingo dia oito.

“Olha para trás, Taison.
Está todo mundo te observando e,
no dia do jogo, vai ter muito mais.
Tens que dar o teu melhor,
pois tu vai acertar!”

TIte, em seus primeiros treinos À frente do INTER
Taison e Cléber Xavier, auxiliar colorado durante a passagem de Tite

Os dias que sucederam o revés em São Paulo ficaram marcados por novas mudanças. Primeiro, Tite chegou. Pouco depois, Fernandão, nosso eterno capitão, deixou o Inter. O ataque vermelho, assim, sofria grande baixa, lacuna que aumentava a pressão sobre Taison. Felizmente, neste exato momento o jovem encontrou um amigo e fiel escudeiro na casamata do Beira-Rio. O novo comandante, em breve ficaria claro, era um entusiasta do futebol da cria colorada.

“Se o professor precisar de mim,
estou pronto para dar
o meu melhor.”

TAISON, SOBRE A CHEGADA DE TITE

Não demorou para Tite precisar de Taison. Em sua segunda partida à frente do Inter, o comandante deu novos minutos ao jovem, alçado a campo aos 22 da etapa final de partida contra o Vitória, em Salvador. O desempenho agradou a ponto de o pelotense ser escalado como titular no confronto seguinte. Formando dupla com Nilmar, a cria do Celeiro iniciou o Gre-Nal 370, disputado no Olímpico e válido pelo primeiro turno do Brasileirão. Missão difícil? Não para o futuro craque, escolhido o melhor do Inter no empate em 1 a 1.

Taison não sentiu o peso do primeiro clássico que disputou pelo Inter

Faltava a Taison apenas a estreia no Beira-Rio, que chegou no dia seis de julho. Diante do Coritiba, o insinuante avante ocupou papel de destaque em linha de frente compartilhada com Alex e Nilmar. Protagonista na vitória por 3 a 0, brilhou com dribles, ocupou o papel de garçom e fez os zagueiros adversários, infernizados com seu ritmo de garoto, acumularem cartões amarelos.

“A torcida é quem dá apoio para nós, estou muito emocionado. Temos muito o que mostrar ainda. Sempre sonhei em ter este reconhecimento, em ouvir a torcida gritando o meu nome no Beira-Rio. Que bom que isso aconteceu. O Inter apostou em mim, por isso quero dar o meu melhor.”

Taison, após estrear no Gigante

Se a parceria com nomes marcantes a exemplo de Alex, Tite e Nilmar avançava em velocidade equiparável apenas à das pernas do pelotense, o primeiro gol da joia pelo Inter apresentou uma nova dupla que faria história no Beira-Rio. A chuvosa noite de 20 agosto pareceu embalar D’Alessandro, que criou linda jogada para Adriano finalizar. Marcos defendeu, mas o rebote foi de Taison, que não hesitou em fuzilar. O Clube do Povo chegava a quatro, o Palmeiras seguia com um, e a cria do Celeiro estreava na lista de goleadores alvirrubros. Festa, no Beira-Rio, com El Cabezón!

A festa com o primeiro gol de Taison!

Grande conquista colorada em 2008, a Sul-Americana também presenciou atuações de luxo do jovem colorado. Importante na fase de oitavas, quando o Inter enfrentou a Universidad Católica com equipes mistas, Taison saiu do banco no histórico triunfo de 2 a 1 sobre o Boca, na Bombonera.

Seu momento de maior brilho na campanha – e, provavelmente, na temporada -, veio na sequência, na partida de volta das semifinais. Titular diante da ausência de Alex, convocado para a Seleção Brasileira, a joia serviu Nilmar nos dois gols marcados pelo parceiro na vitória por 4 a 0 sobre o Chivas.

A mágica Academia do Povo de 2008 já contava com Taison (20)

O show particular contra o Chivas, inclusive, ocorreu no embalo do segundo gol de Taison pelo Inter, marcado dias antes, durante goleada sobre o Ipiranga. Anotado em bonito chute de fora da área, o tento foi o último marcado pela cria no seu ano de estreia entre os profissionais.

Para além das bolas na rede, contudo, a participação do jovem pelotense também foi decisiva através de dribles insinuantes. Na finalíssima continental, contra o Estudiantes, foi Taison quem esbanjou coragem para encarar dois marcadores, um deles Desábato, e cavar o escanteio que originaria o inesquecível gol de Nilmar.

Taison, o terceiro agachado da direita para a esquerda

“Tive a felicidade de entrar e marcar. Agora, vou continuar trabalhando
para conquistar uma chance

do técnico Tite.”

Taison, após partida contra o são josé-poa

A titularidade absoluta de Taison chegou em 2009. Avassalador, o jovem saiu do banco na segunda rodada do Gauchão para marcar dois gols na brigada vitória de 3 a 1 do Inter sobre o São José e, a partir de então, se consolidar nos 11 iniciais de Tite. O último gol do jovem na partida, vale lembrar, saiu já nos instantes finais de jogo.

Aos poucos, a camisa 7 conhecia seu mais novo dono

Novo dono da camisa 7 colorada, Taison voltou a marcar na semana seguinte, participando de importante 4 a 0 em cima do Sapucaiense. Logo depois, outro doblete, contra a Ulbra, confirmou o inspirado início de temporada do jovem. No horizonte, um clássico Gre-Nal despontava como momento perfeito para o pelotense referendar o recente protagonismo.

“Todo mundo brinca que eu sou um raio. Então, o Nilmar é o papa-léguas!”

Em Erechim, Taison foi gigante. Uma vez mais, o jovem provou que sua estrela vai muito além dos gols, e protagonizou contra-ataque histórico com Nilmar. Em alta velocidade, a dupla transformou lance de perigo do rival em rabisco eternizado na retina do povo vermelho. O gol, segundo do Inter, garantiu vitória por 2 a 1 no primeiro clássico do ano de nosso centenário.

Taison e Bolívar, futuro e passado, então juntos no presente

O ritmo goleador não apenas foi mantido até o fim do primeiro turno estadual, conquistado em Gre-Nal disputado no Beira-Rio, como também renovado nas semanas seguintes. Campeão da primeira fase, o Inter também venceria o returno do Rio Grande, desta vez com goleada histórica sobre o Caxias. Autor de 15 gols no torneio, muitos deles decisivos, a exemplo do anotado em cima do Grená, Taison encerrou o Gauchão no topo da artilharia.

“Taison ou Messi?

Depois do Rio Grande, o Brasil inteiro também teve a oportunidade de se curvar à fase estrelada de Taison. Autor de gol nas fases segunda, de oitavas, quartas e semifinal da Copa do Brasil, o craque chegou a suscitar, em partida contra o Coritiba, que abriu a disputa por vaga na decisão, questionamento marcante da imprensa gaúcha. Como esquecer da heresia do saudoso Wianey Carlet, que ousou comparar o menino de Pelotas a Lionel Messi? Na noite de 27 de maio de 2009, os colorados e coloradas perceberam quem era melhor.

O Brasileirão, vale lembrar, também serviu de solo fértil para grandes exibições de Taison. Peça importante na excelente arrancada do Clube do Povo na competição, o atacante desenvolveu, ao longo do torneio, simpatia cada vez maior pelo corredor esquerdo do gramado, consequência da cada vez mais evidente defasagem do sistema 4-4-2, revolucionado por Mourinhos e Guardiolas.

Desacompanhado de Nilmar, negociado com o futebol espanhol, o camisa 7 encontrou parceria com outros nomes de destaque no Inter de então. Ao lado de Giuliano, Marquinhos, Alecsandro e companhia – além dos companheiros mais longevos, é claro -, Taison ajudou a classificar o Colorado, vice-campeão nacional, para a Libertadores seguinte.

Titular na última rodada do Brasileirão, Taison deu assistência para Giuliano na partida

O Taison, com velocidade, caiu
em cima
da última linha
do Emelec.”

fossati, depois da estreia nos grupos da libertadores
Taison abriu a temporada com gols no Gauchão…

A estreia do grupo principal colorado em 2010 ocorreu diante do Juventude. Titular, Taison marcou gol no Beira-Rio, logo acompanhado pelo segundo da temporada, tento anotado na terceira partida que disputou no ano. Com a chegada de Jorge Fossati para a casamata, todavia, o elenco passou a conviver com maior rotatividade na linha de frente.

Desta forma, o camisa 7 abriu a Libertadores na reserva do 3-5-2, mas entrando em campo para mudar esquema e postura do lado vermelho, contribuindo na virada sobre o Emelec. Também partindo do banco, a cria do Celeiro atuaria em outras quatro das cinco partidas que completaram a participação alvirrubra na fase de grupos da América.

Habituado a fazer a diferença em momentos decisivos, Taison viveu, na abertura das quartas de final, sua primeira grande noite no principal campeonato de clubes do continente. Contra o Estudiantes, foi o escolhido de Jorge Fossati na busca por espaços na retaguarda argentina, que emperrara o jogo colorado ao longo de todo o primeiro tempo.

Camisa 7 incomodou o Estudiantes

Chamado pelo técnico aos 18 minutos, o camisa 7 cumpriu sua missão com louvor. Garçom para gol de Alecsandro, anulado por centímetros, atordoou o corredor direito da defesa pincha, estonteando Cellay. Não por acaso, neste setor surgiu a falta cobrada por Andrezinho e desviada, em direção ao gol e à vantagem, por Sorondo.

“Venho treinando com dedicação,
quero aproveitar
esta chance!”

Taison, durante a intertemporada

A Copa do Mundo de 2010 paralisou a disputa dos campeonatos de clubes, oferecendo intertemporada fundamental para Celso Roth, substituto de Fossati, conhecer o elenco do Clube do Povo. Com as atenções completamente voltadas para as semifinais da Libertadores, o Inter ainda pôde tornar preparativos os quatro jogos que tinha por disputar pelo Brasileirão antes de enfrentar o São Paulo na luta por vaga na final da América.

“Fiquei morto após a arrancada, mas valeu o empenho!”

Decidido a conquistar o continente com o Colorado, Taison marcou dois gols nas quatro vitórias alcançadas pelo Inter antes do embate com os paulistas. O primeiro, anotado em jogada de altíssima velocidade, saiu logo na retomada do Brasileirão, contra o Guarani, em Campinas. O outro, uma pintura, saiu na partida anterior à semifinal. No Beira-Rio, o camisa 7 fez o acertou lindo chute de perna direita no ângulo da meta flamenguista.

Meu gol não me garantiu contra o São Paulo. Tenho certeza de que todos querem jogar.”

Que se registre para a posteridade: Taison viveu uma noite inspirada contra os paulistas. Disputados no Beira-Rio, os primeiros 90 minutos das semifinais da América tiveram no camisa 7 seu grande nome. Dono de crescente entrosamento com Kleber, o proprietário da ponta-esquerda de ataque do Inter participou de duas grandes oportunidades, milagrosamente defendidas por Ceni. Substituído por Sobis a instantes do apito final, deixou o campo justamente ovacionado pelas cerca de 50 mil pessoas presentes no Gigante.

Taison perturbou a zaga do São Paulo

Talhado para encarar momentos de tensão com a típica leveza dos craques, Taison sempre irritou marcadores que não compreendem a hierarquia exercida pelo pelotense dentro de campo. À pressão de 60 mil gargantas paulistas, ele respondeu com a tranquilidade característica de quem carrega o DNA do Celeiro, eternamente cassada pelos rivais. Fracassada para quem enfrenta Andrés D’Alessandro, a perseguição ao 7 valeu para o gringo falta cobrada na medida certa para o finalista resvalo de Alecsandro.

“Foi uma vitória muito importante.
Agora, vamos trabalhar forte
para o jogo da volta.”

taison, depois do jogo em guadalajara

Iniciada fora de casa, a decisão continental seguiu roteiro parecido ao do jogo de volta das semis. Liso como de costume, Taison seguiu oferecendo aos adversários um único caminho para ser interrompido: as faltas. Diferente do que ocorrera em São Paulo, entretanto, a melhor oportunidade que o jovem cavou em Guadalajara não virou gol – por detalhe. Alecsandro, desta vez, mandou no travessão. Sem problemas, graças ao grande segundo tempo colorado, premiado com vitória por 2 a 1.

Piscou? Perdeu!

Nova final, novo brilho. No gol de Rafael Sobis, do empate no Beira-Rio, foi Taison quem, atento à luta de Guiñazú, recuperou a posse para o Colorado e acionou D’Alessandro. Do Cabezón a bola seguiu até Tinga, que abriu tudo com Kleber, garçom da noite. O camisa 7, como de costume, era decisivo.

Sacado de campo logo após o empate, Taison acompanhou do banco os minutos que antecederam a consagração do Inter como bicampeão da América. Encerrada a partida, ele vivia o sonho de todo colorado. Pela segunda vez na história, seu time do coração conquistava a maior taça do continente. Pela primeira, com participação direta dele.

A emocionada euforia de um campeão da América/Foto: Ricardo Duarte

A reafirmação do futebol de Taison ao longo da campanha, coroada com a taça da Libertadores, não passou despercebida pelo mercado europeu. Assim, na semana seguinte ao Bi da América, o camisa 7 disputou, diante do Avaí, a última de suas 137 partidas com o Inter.

“Estou muito feliz por estar de volta a minha casa.
De volta a todos vocês, colorados.
Estou muito feliz, vocês
não têm noção.”

TAISON, NESTA SEXTA, EM LIVE NO PERFIL DO INTER

Casa adversária, a Ressacada presenciou tanto os últimos movimentos de Taison vestindo vermelho quanto as lágrimas que correram no rosto do craque após o jogo, no vestiário visitante. Quase 11 anos depois, o Clube do Povo agora volta a fazer sua cria chorar. Desta vez, de alegria. Bem-vindo de volta, ídolo!

Escurinho é o Personagem do Mês do Museu do Inter

Escurinho comemora gol marcado no Cruzeiro em 1972

Da Ilhota para a eternidade. Com suas jogadas, gols e samba, Luís Carlos Machado, o Escurinho, gravou seu nome na história do Inter e na memória da Maior e Melhor Torcida do Rio Grande.

Se a origem do Clube do Povo conta com o carnaval, também Escurinho veio da Boemia. A sua, da Ilhota. No icônico território negro, o ídolo colorado conviveu desde cedo com a música e o futebol. Deu seus primeiros passos no Campo da Rua Arlindo, aquele mesmo que abrigou os primeiros treinos do Inter.

Formado pelas categorias de base do Inter no Estádio dos Eucaliptos, virou profissional no Beira-Rio. Na Padre Cacique, conquistou títulos, marcou gols e escreveu histórias, como na final do primeiro turno do Campeonato Gaúcho de 1974, quando fez a imprensa questionar Ancheta, ou na tabela de cabeça que resultou na história pintura de Falcão sobre o Atlético-MG, na semifinal do Brasileiro em 1976.

Também no Beira-Rio, Escurinho tentou emplacar a venda de seu disco, ‘O Lance’, na final do Brasileiro de 1975. Gravada em muitas noites insones, pois os dias pertenciam aos treinos, a produção comprova como a boemia sempre andou lado a lado com a bola na vida de Luís Carlos. Seja pelo samba ou futebol, a certeza é de que o ídolo será eternamente lembrado vestindo a camisa alvirrubra. Saudades eternas, craque!

Não se vive um D’Alessandro todos os dias

Há quem diga que o craque é responsável por fazer time jogar e torcida se empolgar. Para outros, é exatamente a massa das arquibancadas quem contagia e dá ritmo aos ataques de seus heróis. Aparentemente condenadas à eterna separação, as figuras de atleta e fã encontraram, no Inter, um argentino denominador comum. Torcedor que joga, jogador que torce, D’Alessandro soube personificar como poucos a essência colorada dentro de campo.

Também pudera; a relação entre Inter e Andrés transcorreu intensa desde seu alvorecer. O primeiro capítulo, como todo bom filme clichê, foi do amor à primeira vista, com direito a encontro na pista de aeroporto. Enérgica, a paixão foi também efêmera, e logo evoluiu para sentimento muito mais intenso, alicerçado na cintilância dos dourados sorrisos que decoram o rosto de um campeão.

O par viveu momentos de instabilidade, é fato, mas nada que uma visita emocionada de um à casa do outro não resolvesse. Houve também espaço para a saudade, igualmente superada com nova reafirmação do casamento, matrimônio que sempre provou sua força quando necessário. Quem de nós nunca correu os olhos na direção do camisa 10 à espera de uma dose de magia como resposta para a frieza da pessimista objetividade de resultados negativos? D’Ale sempre esteve lá. E assim continuará.

Passados 12 anos, ídolo e Colorado já se encontram condenados à perpétua metamorfose de camisa e pele, que impossibilita qualquer separação. Fisicamente a distância pode até existir, mas os laços entre Clube e craque superam qualquer porém. No Clube que pertence ao Povo, D’Alessandro deixa de viver os gramados, mas segue vivo e atuante na história.

A partir de hoje, Andrés não veste vermelho, e isso dói. Mas D’Ale estará sempre situado no número 891 da Padre Cacique. Cada assistência de meia canhoto passará pela anuência da mais argentina de nossas divindades. Toda cobrança de falta contará com o empurrão do pé que inaugurou as redes de nossa reformada casa. Drible nenhum será dado sem evocar a estonteante La Boba, e festa alguma ocorrerá sem a regência do legítimo maestro do Gigante.

Com o tempo, as lágrimas que hoje nos correm tristes servirão de elixir para festejos tão alegres quanto todos que já vivemos com El Cabezón. Depois de mais de uma década dividindo um irmão de sentimento com o campo, o povo colorado enfim poderá afirmar que Andrés é seu. Só seu. E aqui, conosco, ele será eterno. Pois não se vive um D’Alessandro todos os dias. Cabe a nós, portanto, perpetuá-lo em nossa doutrina.

#DAleParaSempre: confira tudo que vivemos após o último apito deste sábado

Anote na agenda: o sábado 19 de dezembro de 2020 jamais será esquecido por todos que vivem e reverenciam a gigante história do Sport Club Internacional. Quando já se encaminhava para ser encerrada, a data teve o privilégio de receber a última partida de Andrés Nicolás D’Alessandro com a camisa colorada, disputada contra o Palmeiras e encerrada com vitória de 2 a 0 do Clube do Povo.

Assim que encerrado o duelo, El Cabezón foi prontamente saudado por seus companheiros de grupo, que após os devidos cumprimentos trataram de alçar o jogador às alturas. O festejo, inicialmente embalado pelo eterno grito de “Dale, D’Alessandro”, logo contou com vídeo especial formado por agradecimentos de ex-companheiros e amigos do argentino, grupo seleto que com suas palavras simbolizou os milhões de obrigados que foram ditos nesta noite por colorados e coloradas.

Encerrado o vídeo, D’Alessandro discursou no centro do campo. O ídolo tratou de comemorar a importante vitória conquistada neste sábado, agradecer seus atuais companheiros, destacar o papel ocupado pelas demais lideranças do grupo e elogiar Abel Braga, técnico que, desde 2014, também é amigo pessoal do gringo.

Jogador que torce, torcedor que joga, na saída de campo D’Ale viveu novo momento especial. Abraçado em sua esposa, Erica, e nos filhos Martina, Gonzalo e Santio, o camisa 10 atravessou um corredor formado pelos colegas de elenco, que mais uma vez aplaudiram um dos maiores craques do futebol sul-americano.

Antes de cruzar pela última vez o túnel dos vestiários do Gigante, D’Alessandro também recebeu uma faixa confeccionada em sua homenagem. O trapo eterniza Andrés em seu melhor estilo: sorridente e eufórico, carregando um bumbo nos braços, regendo a festa do povo que tantas fezes fez tremer as arquibancadas do Beira-Rio,

O relógio indicava 23h53 quando D’Ale desceu do campo, as derradeiras luzes do Beira-Rio foram apagadas e o último tango do gênio, infelizmente, findado. Equivocaram-se, porém, aqueles que julgaram como final o ponto escrito no gramado.

Na sala de coletivas do Beira-Rio, D10s concedeu entrevista para a imprensa e, com suas falas, voltou a trazer lágrimas para nossas faces. Confira as principais aspas de Andrés:

“Fico feliz pela entrega do time, pelo jogo que fez o grupo. Pessoalmente, sentimento de gratidão, agradecimento, por tudo que têm demonstrado os jogadores e funcionários do Clube nos últimos dias. Vai ser difícil quando cair a ficha. É uma situação de tristeza muito grande mas, quando olho para trás, uma felicidade muito grande também.”

D’Ale, sobre a partida

“Para a torcida, a palavra é de gratidão. Pelo apoio, pois me aguentaram em momentos que extrapolei, que cobrei e fui cobrado. É uma relação de empatia. Se poderia falar alguma coisa para o torcedor, é pedir desculpas. Gostaria de ter entregado mais. Sempre tentamos fazer o melhor, mas fica um gostinho porque não me conformo, não sou conformista.”

Humilde como os gigantes

“O Beira-Rio foi a minha casa por 12 anos. Tive o privilégio e a sorte de conhecer o antigo, vivi essa época e a época do novo Beira-Rio. Épocas totalmente diferentes. Gostaria que muitos jovens que estão hoje e que tiveram a chance de aparecer nas suas carreiras no novo, tivessem conhecido o antigo para poder ver como a gente se puxava, para conhecer os valores que a gente tinha lá atrás, quando tinha muito menos do que tem hoje.

A nostalgia dos tempos de chegada

“Sobre o legado, eu volto a repetir, o futebol é um esporte coletivo. O que eu conquistei, foi porque fui parte de grupos vencedores, com companheiros vitoriosos, que me ajudaram muito. Hoje eu saio com 13 títulos e com o carinho do torcedor, que para mim é importantíssimo, mas isso não quero deixar como legado. Isso é uma consequência do trabalho, do profissionalismo, que são o verdadeiro legado.”

O legado deixado por D10s

“Quero que meus companheiros me lembrem como uma pessoa do bem, maluco em alguns momentos, louco, chato, mas esse é o jeito de fazer as coisas andarem. Aprendi assim e irei até o último dia assim.”

Uma vez capitão, sempre capitão

Já vivíamos o infeliz domingo 20 de dezembro, dia um sem Andrés, quando o Clube aqueceu o coração de seu povo. No lugar das lágrimas, veio a ansiedade, pois no próximo 10 de janeiro, a única data possível, o Inter publicará, em seus canais oficiais, documentário especial sobre a trajetória do gigante D’Alessandro no Beira-Rio.

Clique aqui para saber mais sobre o documentário D’Ale para sempre

Embora tenha sido D’Alessandro o dono dos holofotes, o gringo não foi o único a falar depois do jogo. Alexandre Chaves Barcellos, segundo vice-presidente de Futebol, Abel Braga, técnico colorado, e Yuri Alberto, autor de pintura na noite deste sábado, também falaram ao público após o triunfo diante do Palmeiras. O assunto, é claro, foi a despedida de Cabezón. Confira as aspas:

“É muito, muito raro um jogador, durante 12 anos, conquistar a torcida, ter o respeito de todos, em um país que não é o dele. Ele foi muito bem recebido aqui no Inter, e soube retribuir todo esse carinho. Ele sabe o quanto admiro o lado profissional dele, o grande jogador que é e, acima de tudo, o grande caráter. Neste momento histórico, me sinto orgulhoso de ter participado mais uma vez.”

Abel Braga

“Essa noite teve uma simbologia muito especial para todos nós colorados. Agradecer por tudo que o D’Alessandro fez ao Internacional, são 12 anos de uma dedicação, de uma entrega, de uma liderança como eu nunca tinha visto de um atleta em relação a um clube. Acho que é algo que vai ser muito difícil que possamos repetir, provavelmente até mesmo na história do futebol brasileiro.”

Alexandre Chaves Barcellos

“Tenho pouco tempo de Clube,

mas aprendi muito

com ele”

Yuri Alberto

Foi pra ti, D10s: com direito a gol no minuto 10 e pintura nos minutos finais, Inter derrota Palmeiras na despedida de D’Alessandro

Colorado algum esperava por este dia, mas ele transcorreu à altura de seu protagonista. Na despedida de D’Alessandro, o Inter marcou seu primeiro gol no minuto 10, o segundo em pintura armada ao gosto de Cabezón, e derrotou o Palmeiras, no Beira-Rio, por 2 a 0. Edenilson e Yuri Alberto marcaram no triunfo integrante da 26ª rodada, que alça o Clube do Povo ao G4. Obrigado por absolutamente cada segundo que vivemos juntos, D10s. Você é único.

+ Confira as aspas no pós-jogo

+ Assista aos Bastidores da partida

O resultado alça o Inter à quarta colocação do Brasileiro, com 44 pontos. No próximo domingo (27/12), às 16h, o Clube do Povo visita o Bahia, em Salvador, para a disputa de partida da 27ª rodada do torneio.


Primeiro tempo impecável

Coeso, cascudo, encaixado e competitivo. Assim o Internacional disputou o primeiro tempo do duelo contra o Palmeiras, marcado por grande exibição do Clube do Povo. Cientes da velocidade que somavam pelas pontas, ocupadas por Caio e Patrick, os comandados de Abel Braga não hesitaram em explorar as diagonais de cada um para incomodar a zaga rival.

Exatamente a partir de um facão de Caio surgiu o escanteio que originou o único gol dos primeiros 45 minutos. Da esquerda, Moisés cruzou, Dourado escorou, Weverton salvou mas, no rebote, Edenilson não perdoou. No dia da despedida de D’Alessandro, um dos maiores camisas 10 da história alvirrubra, o Colorado assumia, aos 10 minutos, a vantagem no escore!

O Palmeiras nada criou após o tento colorado. Tentou, é verdade, mas esbarrou em excelente atuação do meio de campo colorado. Em frente aos quatro defensores, soberano como de costume, esteve Dourado, acompanhado de quarteto formado por Caio, na direita, Edenilson, Praxedes e Patrick, esquerda. Ao Clube do Povo, faltaram, especialmente a partir da segunda metade do tempo, bons contra-ataques, muito pela excelente contribuição defensiva que ofereceu Thiago Galhardo.


Quem não faz…

As duas equipes retornaram com mudanças no segundo tempo, que seguiu bastante truncado em seus movimentos iniciais. A inércia no desenrolar da partida motivou Abel Ferreira a conduzir três trocas na casa dos 15 minutos, novidades que valeram ao Palmeiras seu melhor momento no jogo.

O instante, porém, não foi devidamente aproveitado pelos visitantes que, de tanto se lançarem ao ataque, ofereceram espaços na defesa. Edenilson os percebeu e, emulando D’Alessandro, serviu Yuri, que também em homenagem ao ídolo esbanjou qualidade para, em lindo toque de cobertura, anotar o segundo.

Pouco depois do tento de Yuri, o momento chegou. D’Alessandro, lenda colorada, foi alçado a campo pelo técnico Abel Braga na casa dos 41 minutos. Participativo como sempre, o ídolo alvirrubro disputou até a última das bolas. Encerrado o duelo, Andrés foi devidamente celebrado por seus companheiros, assistiu a um belíssimo vídeo produzido em sua homenagem e, em lágrimas, deixou, pela última vez, o campo do Beira-Rio. O povo vermelho te ama, Cabezón. Gracias por todo!


Melhores momentos – primeiro tempo

8min – NADA? Caio Vidal invade a área palmeirense e, no momento de engatar o arremate, o jovem é desarmado por Marcos Rocha. Lateral usou da sola para desarmar, mas, por hora, a arbitragem assinala apenas impedimento.

10min – GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL DO INTERNACIONAL! É DO CLUBE DO POVO! DA ACADEMIA DO POVO! DO COLORADO ALEGRIA DOS NOSSOS CORAÇÕES! ED, ED, ED, EDENILSON! Moisés cobra escanteio açucarado pelo lado esquerdo. Na primeira trave, Dourado desvia consciente e exige milagre raro de Weverton. No rebote, porém, não houve chance para defesa: Edenilson completou direto para as redes abertas. Inter na frente. Na despedida de D’Ale, o gol sai aos 10!

16min – Defende, Weverton! Patrick costura pela esquerda e cruza na segunda trave. Caio Vidal sobe mais do que Viña e cabeceia no meio do gol, exigindo segura intervenção do goleiro rival.

23min – Uh! Moledão faz fila a partir da linha central e estica com Heitor pela direita. O lateral, da quina da grande área, suspende na segunda trave, açucarada para o testaço de Galhardo. Por pouco, por cima!

24min – Caio Vidal é amarelado por falta em Gustavo Gómez.

24min – Willian acerta um cotovelaço em Moledo. Cartão amarelo apresentado.

26min – Abriram a caixa de ferramentas no gramado do Beira-Rio. Gabriel Menino acerta uma tesoura em Praxedes e recebe o amarelo.

27min – UH! Caio Vidal deixa Viña comendo poeira, vai ao fundo e cruza. Gustavo Gómez corta de qualquer maneira. Inter tem escanteio!

33min – Patrick! Lucas Lima invade a área colorada pela direita, engatilha o chute mas, quando estava de frente para Lomba, sofreu o corte por baixo.

45min – Vamos a 48. Mais três minutos!

48min – Fim de papo. Etapa inicial de vitória colorada!


Segundo tempo

0min – Inter retorna com mudança. Entra Yuri Alberto, sai Praxedes. No Palmeiras, a novidade é Breno Lopes, substituto de Raphael Veiga.

7min – SAAAAALVA, WEVERTON! Caio Vidal aciona Galhardo, que invade a área palmeirense pela direita e, com força, solta o canhão. Goleiro palmeirense espalma em escanteio, mas arbitragem paralisa lance por – duvidoso – impedimento de Thiagol na origem do lance.

12min – Viña recebe na intermediária de ataque e solta a bomba de canhota. Por cima do gol de Lomba, que tem tiro de meta para cobrar.

13min – Tripla troca no Palmeiras. Zé Rafael, Mayke e Gabriel Veron entram, Danilo, Marcos Rocha e Viña saem.

14min – UH! Galhardo leva a melhor em dividida com a zaga adversária. Pela esquerda, o camisa 17 recupera, parte em disparada e cruza rasteiro, de canhota. Weverton deixa o gol e, providencialmente, encaixa assistência que chegaria açucarada até Caio.

17min – ESCANTEEEEEIO! Galhardo tenta uma bicicleta, a zaga corta e Edenilson, ligado, fica com a sobra. O camisa 8 cruza duas vezes, a segunda com endereço, na medida para testaço de Thiagol. Espirrada na defesa, ela sai tirando tinta da meta alviverde. Corner alvirrubro!

21min – Mayke invade a área colorada e, pela direita, cruza rasteiro. Cuesta corta de carrinho, ela explode no travessão e sai em escanteio.

24min – Duas novas trocas no Clube do Povo. Marcos Guilherme entra, Caio Vidal sai. Galhardo deixa o campo (e recebe amarelo), Lindoso vem. Patrick volta para a ponta-esquerda, Lindoso passa a atuar alinhado com Dourado e Marcos assume o corredor direito.

30min – Após confusão na grande área colorada, Willian pega a sobra na ponta-direita e finaliza. Forte demais, ela sai em tiro de meta para o Clube do Povo.

31min – No Palmeiras, Lucas Lima deixa o campo. Entra Gabriel Silva.

36min – Amarelo para Rodrigo Moledo.

37min – GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL! GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL! É GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL! YURI, YURI, YURI! QUE JOGADA, QUE GOLAÇO! Do campo de defesa, Edenilson lança Yuri, que dispara do campo de defesa, toma a frente de Gómez e, cara a cara com Weverton, toca por cobertura. Weverton, batido, apenas assiste à genialidade digna de quem convive com D’Alessandro.

41min – Chegou a hora que colorado algum esperava vivenciar. D’Alessandro, pela última vez em sua carreira, vem a campo com a camisa do Clube do Povo. Sai Patrick.

41min – Também entrou Lucas Ribeiro. O sacado foi Rodrigo Dourado.

45min – Partida vai até os 50.

50min – Este apito jamais deveria chegar, mas ele chegou. Acaba o jogo, o Inter vence e D’Alessandro, único, se despede.


Ficha técnica:

Internacional (2): Marcelo Lomba; Heitor, Rodrigo Moledo, Victor Cuesta e Moisés; Rodrigo Dourado (Lucas Ribeiro), Edenilson, Caio Vidal (Marcos Guilherme), Bruno Praxedes (Yuri Alberto) e Patrick (Andrés D’Alessandro); Thiago Galhardo (Rodrigo Lindoso). Técnico: Abel Braga.

Palmeiras (0): Weverton; Marcos Rocha (Mayke), Luan, Gustavo Gómez e Matías Viña (Gabriel Veron); Danilo (Zé Rafael), Gabriel Menino, Lucas Limas (Gabriel Silva), Raphael Veiga (Breno Lopes) e Gustavo Scarpa; Willian. Técnico: Abel Ferreira.

Gols: Edenilson, aos 10 minutos do primeiro tempo, e Yuri Alberto, aos 37 miutos do segundo tempo (I).

Cartões amarelos: Caio Vidal, Rodrigo Moledo e Thiago Galhardo (I). Willian e Gabriel Menino (P).

Arbitragem: Sávio Pereira Sampaio (DF), auxiliado por Daniel Henrique da Silva Andrade (DF) e José Reinaldo Nascimento Júnior (DF). Quarto árbitro: Daniel Nobre Bins (RS). Árbitro de Vídeo (VAR): Wágner Reway. Auxiliares do VAR: Mariélson Alves da Silva (BA) e Ciro Chaban Junqueira (DF).

Estádio: Beira-Rio, Porto Alegre (RS).

81 anos da estreia de Tesourinha

Ídolo multicampeão, um dos maiores pontas do futebol brasileiro, quinto artilheiro da história colorada, atleta dono de DNA alvirrubro como poucos. Sobram predicados para definir a grandeza de Tesourinha na biografia do Clube do Povo, ídolo que há 81 anos disputava sua primeira partida com a camisa do Inter. Ocasião festiva, surge como motivo perfeito para relembrar a trajetória do craque vestindo vermelho.

Da direita, Tesourinha finaliza cruzado e marca para o Inter!

O primeiro capítulo da história entre Inter e Tesourinha foi escrito ainda no nascimento do ídolo. Osmar Fortes Barcellos viveu sua infância na Ilhota, bairro periférico marcado pela mistura de futebol e samba, que em 1909 serviu de berço colorado. Há 81 anos, portanto, o que teve início foi o matrimônio entre Clube e craque.

Ativo no bloco de carnaval dos ‘Tesouras’, razão de seu icônico apelido, o ponta-direita estreou pelo Alvirrubro no dia 22 de outubro de 1939. A partir de então, sua biografia ficava ainda mais atrelada à do Internacional, clube de cores definidas por outro bloco, o dos Venezianos, e de essência voltada para o povo.

Cruzado e indefensável, mais um arremate de Tesourinha morre nas redes adversárias

De acordo com registros do acervo histórico do Clube, a primeira jornada de Tesourinha vestindo vermelho ocorreu em partida disputada diante do Cruzeiro-POA, válida pelo Campeonato Citadino daquele ano. Na ocasião, Osmar substituiu simplesmente Carlitos, ponta-esquerda que viria a se tornar o maior artilheiro da história colorada. Tesourinha, inclusive, atuava no mesmo setor do goleador máximo do Internacional, mas precisou se adaptar ao flanco direito pois, como o passar dos anos mostraria, conceber o Inter sem um dos integrantes da letal dupla de ataque não seria possível.

É bem verdade que Tesourinha não balançou as redes em sua primeira partida pelo Inter. Felizmente, contudo, seus tentos não foram necessários, e o Clube do Povo deixou o campo vencedor por 2 a 1. Quem marcou os gols vermelhos foi Brandão, em partida que viu o Colorado escalado com Júlio no gol, Alfeu e Risada na defesa, Nenê, depois Celso, Magno e Levy no meio, além de Rui, Russinho, Brandão, Moacir e Carlitos, depois Osmar Barcellos, no ataque.

Deste triunfo em diante, vieram mais centenas na história do ídolo no Inter, que resultaram em oito conquistas estaduais, outras oito municipais, e a consagração do ponteiro como eterno na biografia alvirrubra. Integrante do Rolo Compressor, Tesourinha formou, junto de Carlitos, Adãozinho e Villalba, um dos principais ataques da história do futebol brasileiro. Também ao lado do Rolo consolidou o Clube do Povo como maior time do Rio Grande do Sul, além de garantir ao Colorado a jamais tomada supremacia no histórico do clássico Gre-Nal.

Tamanha magnificência nos gramados gaúchos garantiu a Tesourinha feito raro para os atletas gaúchos de então: ser convocado para a Seleção Brasileira. Genial como sempre, superou qualquer desconfiança que o bairrismo imperante no selecionado poderia impôr a um forasteiro do eixo Rio-São Paulo e foi notório. Pela Canarinho, conquistou a Copa Roca, em 1945, a Copa Rio Branco, em 1947 e 1950, a Taça Oswaldo Cruz, também em 1950, além, é claro, da Copa América de 1949. Individualmente, ainda foi eleito o melhor ponta-direita da América nos anos de 1945 e 1946.

Tesourinha, o sétimo da esquerda para a direita

A história entre Tesourinha e Inter durou uma década inteira, esgotando-se apenas nos últimos meses de 1949, quando o atacante foi contratado pelo Vasco, que por seus dribles carnavalescos e gols implacáveis pagou uma fortuna. Emocionante, sua despedida em nada afetou o carinho da torcida pelo eterno ídolo, provavelmente o maior ponta-direita de nosso futebol ao lado de Garrincha. Perpétuo no Panteão vermelho, Osmar faleceu em 1979, aos 57 anos, mas seu legado segue vivo até hoje, manifestado sempre que um jovem colorado domina a bola pela ponta e é visto um fintando um zagueiro.

Tesourinha foi um dos primeiros homens Gre-Nal

“Jogador sozinho não ganha campeonato, mas o Falcão de 79 seria vice!”

O título desta matéria não contém exagero algum. Icônica, a frase, proferida por um gênio, retrata com grande precisão a magnificência de outro. De Veríssimo, Luís Fernando, para Falcão, Paulo Roberto. O Inter tricampeão do Brasil jamais foi repetido. Protagonismo igual ao de nosso camisa cinco? Nunca mais visto. Marcada por superações coletivas e pessoais, a história do craque do ‘Time que Nunca Perdeu’ é única, e merece, no dia do aniversário do Rei, ter seu principal capítulo rememorado. Conheça detalhes da mágica temporada vivida por Falcão em 1979!

Falcão exibe o cobiçado troféu para o povo colorado/Foto: Divulgação

Idolatria afirmada


No futebol, a história da camisa cinco tem um antes e depois. Falcão a divide. Gênio da bola, o revolucionário meio-campista revelado pelo Celeiro de Ases construiu carreira meteórica no Clube do Povo. Lançado aos profissionais em 1973, por Dino Sani, no ano seguinte já seria pilar da máquina de Minelli.

Bicampeão nacional sob o comando Rubens, ainda atingiria, treinado por Cláudio Duarte, o seu quinto título estadual. Idolatrado e figurando no principal degrau do panteão colorado o craque chegou ao fim da década de 70. Ninguém poderia imaginar, portanto, que Paulo conseguiria abrir os anos 80 ainda mais amado.

Ficha de inscrição de 1968 do atleta Paulo Roberto Falcão/Foto: Arquivo histórico do S.C. Internacional

Falcão precisou de pouco mais de dois anos como profissional para ser escolhido o melhor meia do Brasil. Brilhante na conquista do Brasileirão de 1975, o jovem integrou a seleção do campeonato. Aos 22 anos (recém-completados), foi fundamental, por exemplo, diante do Fluminense, na semifinal do torneio, quando em um Maracanã lotado serviu linda assistência para a pintura de Lula, primeira da jornada em solo carioca.

No ano seguinte, o Inter bicampeão do Brasil voltou a contar com a magia de seu camisa cinco, uma vez mais decisivo para a classificação alvirrubra à decisão nacional. Contra o Atlético-MG, desta vez no Beira-Rio, o craque marcou, no último minuto do tempo regulamentar, um dos gols mais bonitos da história do futebol, segundo da virada alvirrubra por 2 a 1. Construído em belíssima tabelinha de cabeça com Escurinho, o tento classificou o Clube do Povo para o duelo diante do Corinthians, encerrado com vitória vermelha, no Gigante, por 2 a 0.

Após insucessos estaduais e nacionais em 1977, o Inter voltou a ser protagonista na temporada de 1978. Terceiro do Brasil, o Clube do Povo conquistou o título gaúcho no Olímpico, antiga casa gremista, após vitória por 2 a 1. Falcão, ao lado de Jair e Valdomiro, foi um dos destaques do feito, inclusive marcando gol em Gre-Nal do primeiro turno.

No Brasileirão, o Colorado sucumbiu, nas semifinais, para o forte time do Palmeiras. A ausência na decisão, todavia, não impediu a escolha do catarinense de Abelardo Luz para o prêmio de melhor do Campeonato. Bola de ouro, o camisa cinco chegava a 1979 sonhando com repetir o brilho individual e elevar o desempenho coletivo.

Os campeões do Rio Grande em 1978. Falcão, em pé, ao centro/Foto: Divulgação

Novos problemas, novas companhias


Primeiro campeonato do ano, o Gauchão de 1979 acendeu importante alerta no Beira-Rio. Os primeiros sinais de oscilação chegaram ainda nos turnos de abertura do torneio, encerrados com tropeços diante de adversários inferiores ao Colorado. Na sequência, Cláudio Duarte, comandante alvirrubro desde 1978, precisou deixar a casamata – embora tenha continuado a ocupar cargo na comissão técnica.

Com a missão de reverter o quadro negativo e construir campanha campeã no octogonal final, desembarcou, então, Zé Duarte, treinador de boas passagens pelo interior paulista, em especial a campineira dupla Guarani e Ponte Preta. Zé, contudo, não apenas falhou em injetar novo ânimo no Inter, como também viu intensificar o clima conturbado nos arredores da Padre Cacique.

“A maior motivação

foram as críticas e a

humilhação que sofremos

durante o Estadual”

Mário Sérgio

Para além de resultados inesperados, caso dos reveses consecutivos para São Paulo de Rio Grande e Novo Hamburgo, o condicionamento dos atletas também se tornou um problema. Pilares da equipe, os ídolos Falcão e Valdomiro sofreram lesões graves, assim como o excelente zagueiro Larry. Reforços, ficava evidente, eram necessários, e eles foram encontrados tanto no mercado, à época inflacionado, quanto no Clube, tradicional formador de estrelas.

Mauro Galvão e Falcão no Beira-Rio em 1979/Foto: Divulgação

A demora para encontrar uma nova formação, porém, custou o Estadual, encerrado no simplório terceiro lugar, posição que cobrou nova mudança na comissão técnica. No lugar de Duarte, chegou Ênio Andrade, então comandante do Coritiba. Com ele, veio também Gilberto Tim, mestre da preparação física e bicampeão nacional pelo Inter ao lado de Rubens. O Brasileirão batia à porta, e o Colorado seguia desencontrado.

Dentro de campo, o Inter acumulou, ao longo dos meses de disputa do Gauchão, novidades em todos os setores. Contratado em 1977, o goleiro Benítez, emprestado para o Palmeiras em 1978, retornou ao Beira-Rio e logo conquistou a titularidade. Na defesa, Mauro Pastor se consolidava como zagueiro, enquanto o lado esquerdo começava a ser desbravado por Cláudio Mineiro. Completando o miolo estava o jovem Mauro Galvão, que, aos 17 anos, já encantava o Brasil.

João Carlos, cria da casa, fazia o corredor direito, faixa de campo ocupada, no meio de campo, por Jair. O Príncipe tinha as magníficas companhias de Batista, mais recuado, e Falcão, trio responsável por ditar o ritmo do Alvirrubro. Mais tarde, para o ataque, chegou Bira, contratado junto ao Remo e com o aval de Dario Maravilha, camisa 9 do título de 1976. Os dois centroavantes travavam, em Belém do Pará, intenso duelo pela artilharia paraense, com Dadá vestindo a camisa do Paysandu.

Montagem do ‘Time que Nunca Perdeu’ não foi simples

Falcão e Jair, estrelas benquistas pela torcida, também desejavam um ponta-esquerda, e tinham em mente o nome ideal: Mário Sérgio Pontes de Paiva. Pesava contra o ‘Vesgo’ seu temperamento intempestivo, que gerava desconfiança na diretoria colorada. As estrelas do meio de campo alvirrubro, entretanto, bateram pé, e prometeram se responsabilizar pelo futuro companheiro. Com ele, argumentaram, conquistariam taças. Mário, então, foi contratado – e logo caiu como uma luva no corredor canhoto.

Disciplinado taticamente, o camisa 11 atuava como um legítimo construtor, armando constantes aproximações ao trio de meias, assim criando quadrado mágico no time de Ênio Andrade. Menos agudo do que Lula, seu predecessor na ponta, o carioca permitia a Falcão presença ainda maior no terço final do campo. Uma geração inesquecível, enfim, tomava forma. Restava azeitar as engrenagens.


Segurança nas fases iniciais


Integrante do Grupo G, o Inter abriu o Brasileirão como visitante. No Couto Pereira, o Clube do Povo enfrentou o Athletico Paranaense, partida disputada em 23 de setembro e encerrada com o placar inalterado. Coube a Bira, três dias depois, marcar o primeiro gol colorado no Brasileirão. Acompanhado por Adilson na súmula de artilheiros alvirrubros, o centroavante foi fundamental na vitória por 2 a 1 sobre o Santa Cruz, em Recife.

“O Inter torna-se grande

quando ninguém acredita nele.

É um time que cresce quando

tudo fica difícil!”

Paulo Roberto Falcão

Na mesma partida, entretanto, o camisa 9 fraturou o braço e, ao lado de Batista, com uma distensão, tornou-se desfalque para as rodadas seguintes. Desconfianças retornavam, embora Jair as tenha parcialmente dissipado na terceira rodada, quando marcou, no Beira-Rio, o tento da vitória sobre o Figueirense.

A quarta rodada reservou ao Inter o primeiro clássico daquela edição do Brasileiro. Em um Beira-Rio lotado, Jair e Falcão apostaram na bola parada e, através de jogada ensaiada que contou com toque do futuro Rei e arremate do Príncipe, venceram o ex-companheiro Manga, então goleiro gremista. Colorado 1 a 0, e a campanha nacional tomava corpo, bem como o psicológico alvirrubro, renovado após o primeiro triunfo em Gre-Nais no ano. Nas jornadas seguintes, dois por 3 a 0, sobre Sport e Coritiba, encaminharam a classificação.

Na reta final da primeira fase, o Inter ainda empatou com América-RJ, por 1 a 1, antes de superar, na oitava rodada, o Rio Branco-ES, por 5 a 1. Diante dos capixabas, Falcão anotou uma pintura para abrir o placar. O camisa cinco emendou de primeira, da entrada da área, cobrança aberta de escanteio feita por Mário Sérgio, pela esquerda. O gol, marcado na goleira do Gigantinho, foi o primeiro do craque no Campeonato, sucedido, na mesma partida, pelo de número dois, quinto da jornada, que saiu em lindo testaço. Depois da goleada, o Clube do Povo encerraria o grupo empatando, no Gigante, com o Operário-MS, placar de 2 a 2.

Se na fase inicial oito equipes avançaram de um grupo com 10, o segundo momento do Brasileirão de 1979 começou a afunilar os participantes do torneio. Disputado por 94 times, o Campeonato daquele ano contou, na fase de número dois, com sete chaves formadas por oito instituições. Destas, apenas duas avançariam. Líder no formato anterior, o Inter sabia que os tropeços precisariam se tornar cada vez mais escassos.

Assim, o Colorado venceu, na primeira rodada, o Goytacaz, do Rio de Janeiro, por 1 a 0, gol de Mauro Pastor. Na semana seguinte, o Gigante sediou novo duelo da Academia do Povo, este perante os gaúchos do São Paulo de Rio Grande. Jair, cobrando pênalti sofrido por Falcão, abriu o escore. Bira, precisamente servido pelo Rei, aumentou, e Mário Sérgio, já na etapa final, fez o terceiro do triunfo por 3 a 1.

Três empates consecutivos, contra Caldense-MG, Anapolina-GO e Atlético-PR, representaram o momento mais delicado do Inter no torneio. Seguro defensivamente, o Colorado custava para deslanchar na linha de frente, muito pela ausência de Valdomiro, com volta aos gramados prevista apenas para o ano seguinte. Até mesmo Falcão chegou a atuar como centroavante em uma das tentativas de Ênio para bagunçar zagas rivais. Foi então que Valdo, como sempre sedento por quebrar paradigmas e recordes, retornou ainda no final do mês de novembro. Mais precisamente, no dia 25.

A reestreia do ídolo ocorreu diante da Desportiva, do Espírito Santo, e foi coroada, logo cedo, com assistência para Bira. Depois, no segundo tempo, o Rei também quis ser garçom, e ofereceu passe maravilhoso para Batista marcar o segundo. O centroavante alvirrubro, que de burro não tinha nada, faria mais dois, o último após lançamento genial de um Falcão cada vez mais à vontade dentro de campo, visivelmente decidido a conquistar o país como protagonista. O duelo, encerrado com o triunfo por 4 a 0, até hoje é lembrado pela infeliz lesão de Zé Rios, lateral do time visitante.

Valdomiro fechou com gol a segunda fase do Brasileirão. O tento, inclusive, foi o único na vitória por 1 a 0 sobre a Inter de Limeira, em São Paulo. Líder de seu grupo, o Colorado gaúcho avançava para o quadrangular antecessor dos mata-matas. Enfrentaria, na Chave C, Atlético-MG, Goiás e Cruzeiro. Do quarteto, apenas um avançaria às semis.

Reforçada na linha de frente, a Academia do Povo finalmente encontrava o equilíbrio que lhe serviria de principal característica. Entre a intransponível retaguarda e o avassalador setor ofensivo, um meio de campo minuciosamente afinado orquestrava o time. Harmônico, o setor contava com os graves de Jair e o apoio de Batista, maximizadores da sinfonia de Falcão, craque já reluzente nas semanas anteriores, mas prestes a se tornar herói nos dias que estavam por vir.

Falcão, o Bola de Ouro do Brasileirão 79/Foto: Revista Placar, Divulgação

Mococa ou Falcão?


Três jogos para chegar às semis. O primeiro, contra o Goiás, ocorreria no Beira. Vencer era imperativo. Dezenas de milhares nas arquibancadas, unidas no mesmo pensamento, apoiaram o time de Ênio Andrade. O jovem Gigante, que acabara de completar 10 anos de vida, queria subordinar o país inteiro de novo. Para isso, jogou junto.

Com Bira, no encerramento da primeira etapa, o Estádio lançou. Ao lado de Cláudio Mineiro, no fundo, pela esquerda, cruzou. Dissimulado, com Falcão fintou a zaga e abriu vazio na área alviverde. Lacuna criada pelo Rei, foi aproveitada pela grande aposta do Monarca: Mário Sérgio, que para as redes arrematou. Gol, da importante vitória por 1 a 0!

Completando a rodada de abertura, o empate entre Atlético e Cruzeiro tornava decisivo o confronto de Inter e Raposa. No Mineirão, os donos da casa precisariam vencer para seguir sonhando com o Brasil. De sua parte, o Clube do Povo sabia que, em caso de triunfo, praticamente garantiria classificação às semifinais. Determinado a vencer o clássico, que envolveu duas das maiores equipes da década de 70, Ênio Andrade escalou uma equipe que estava no limite. Lesionados, Falcão e Valdomiro iniciaram o jogo, mesmo caso de Batista.

“A gente aceitou que

alguns jogassem no sacrifício

porque estamos numa guerra.

E na guerra, meu velho,

cada um usa o que tem de melhor”

Gilberto Tim

Quem estivesse inteiro precisaria, indubitavelmente, jogar por dois. Como jogaram Jair e João Carlos, donos da direita, flanco pelo qual o Príncipe progrediu antes de, aos 25 da etapa inicial, cruzar rasteiro. Na entrada da área, o rei dos voleios não perdoou. Inter, dos pés de seu camisa cinco, na frente. Pouco depois, Joãozinho até igualou, mas a majestade catarinense, que atuava gemendo de dores na clavícula, estava incontrolável. Tamanho sacrífico, bradava, não aconteceria em vão.

Lançado por Valdomiro, Falcão dominou com a canhota, investiu contra Marquinhos, superou o marcador e, da meia-lua do retângulo maior, mandou rasteiro, com a direita. Luis Antonio salvou, mas o rebote foi de Bira, que se atirou em violento carrinho na direção da bola. Chorado, brigado, o tento era colorado. Nos instantes antecessores do intervalo, o corredor direito valeu ao Inter novo gol.

Após corte parcial da zaga, Valdo pegou a sobra, ajeito para a canhota e, a centímetros da risca da grande área, mandou com a canhota, de trivela. Na bochecha da rede rival a esférica morreu. Inter 3 a 1, triunfo até diminuído, no escore, por Alexandre, mas não impedido. Vitória da Academia do Povo, resultado que, somado ao W.O. do Atlético-MG, que entrou em discordância com a CBD, valeu a classificação para as semis.

O Cruzeiro foi uma das muitas vítimas de Falcão no Inter

O adversário colorado nas semifinais seria o Palmeiras, algoz na temporada passada, quando ficou com o vice-campeonato brasileiro. Na final, os palestrinos sucumbiram para o Guarani de Zé Carlos, Careca, Zenon e Capitão. Indigesto, o gosto da prata, esperavam os alviverdes, seria superado em 1979. Terceiro no Nacional anterior, no entanto, o Inter também queria a taça, e entraria em campo sedento por vingança.

Foto: Jornal da Tarde, 13 de dezembro de 1979

Falcão, é claro!


Badalado, o duelo de 180 minutos entre o escrete de Telê e os eleitos de Ênio foi inaugurado no dia 13 de dezembro, no Morumbi. Empolgada com a boa fase alviverde, que superara com 100% de aproveitamento o quadrangular anterior, disputado perante a Flamengo, São Bento-SP e Comercial-Sp, a crônica paulista não hesitou em amplificar o choque que estava por vir.

O periódico Jornal da Tarde, porém, exagerou. Deleitado com as recentes exibições do jovem Mococa, valente marcador que anulara Zico, o noticiário criou um embate particular para o confronto eliminatório, e se permitiu questionar, em manchete garrafal, quem levaria a melhor: o valente meia bandeirante ou o deífico Falcão. Delírio!

As escalações que entraram em campo no Morumbi

A heresia da imprensa sudestina encontrou coro nos 45 minutos que serviram de abertura ao prélio. Superior nas ações do campo, o Palmeiras retornou para os vestiários em vantagem, mínima, no placar. Encurralado pelos locais na maior parte do tempo, o Clube do Povo sofreu muito com as arrancadas de Jorge Mendonça e Rosemiro, donos da direita do ataque palestrino. Apesar do triunfo parcial, todavia, a torcida da casa não encarou com grande euforia o intervalo da peleja. Também pudera, pois Falcão, a instantes do apito paralisador, quase marcou de bicicleta após estonteante tabela com Mário Sérgio. O Inter, afirmavam os alviverdes, entrara no jogo – e não havia Mococa capaz de contê-lo.

Reiniciado o confronto, o Clube do Povo precisou de apenas cinco minutos para empatar. Polivalente, Mário Sérgio foi mais ponta do que meia para arrastar a marcação até a linha lateral do campo. Espaçada, a zaga rival ofereceu espaço para Jair, que não titubeou. Livre, o camisa oito foi percebido pelo companheiro, que serviu rasteira. Fulminante como sempre, Jajá dominou engatilhando e, da intermediária, testou Gilmar, que foi reprovado pelo montinho artilheiro. O roteiro da semifinal, contudo, não seria tão simples ao Clube do Povo, que voltou a ficar no prejuízo aos 10, quando Jorge Mendonça marcou uma pintura.

Falcão e Pedrinho, antes do jogo/Foto: Divulgação

A desvantagem não abalou o Inter, que seguiu martelando. Inteligente, o time colorado percebeu que o chão não seria amigo naquela noite, e tratou de pressionar por cima. Quem mais levou o caminho a sério foi Falcão, que seguiria, até o fim do torneio, convivendo com intensas dores no ombro. Aos 19, o craque atingiu as alturas para completar, em fulminante cabeceio, cruzamento vindo da direita. Por pouco tempo, novo empate era denunciado pelo marcador. Desgostoso com a igualdade, o Rei, que já acumulava felizes súditos no sul, decidiu impor sua nobreza a azarados paulistas virentes.

“Não perdemos

para um time.

Perdemos para o

maior jogador do mundo.

Diretor palmeirense

O relógio indicava 25 minutos quando Mário Sérgio recebeu na esquerda. Com espaço para progredir, o camisa 11 fez o facão e acionou Cláudio Mineiro, que corria rente à linha esquerda da grande área palestrina. Embora travado, o cruzamento do lateral teve direção, e encontrou a cabeça de Bira. Também espirrado, o centroavante escorou para trás, onde estava Valdomiro, mais um que lutava por espaço. Espanada, a bola esbarrou no pé de Mendonça e tomou altura. Desequilibrado, o 10 do Palmeiras tentou afastar. Antes dele, a bola foi chicoteada. Por quem? Falcão, é claro.

Foto: Jornal da Tarde, 14 de dezembro de 1979

De bate-pronto, o arremate do camisa cinco esgaçou os barbantes da cidadela bandeirante. Mágico, o tento só não foi visto pelo artilheiro da noite, que, de modo a não acertar o rival, precisou recolher a perna com violência equiparável à da finalização, assim permanecendo de costas para a meta durante valiosos segundos. Último do jogo, o golaço valeu ao Inter vantagem especial para as pretensões coloradas. Sublime, o feito carrega, até hoje, assinatura das mais fidedignas de Falcão por misturar talento à classe, genialidade e simplicidade, precisão com protagonismo. Obra rara, digna de seu autor.

Disputado diante de um Beira-Rio completamente lotado, o confronto de volta consagrou, de uma vez por todas, a zona nevrálgica do time colorado. Incansáveis, Rei e Príncipe se sacrificaram pelo time, apoiando na mesma medida que fecharam espaços na defesa. Para Jair, a recompensa de tanto empenho chegou na abertura da etapa final. Após cruzamento de Cláudio Mineiro, Bira ajeitou para Adilson, que fez pivô perfeito. Jajá, é claro, não perdoou, e tirou o zero do placar. Irônico, o destino permitiu a Mococa o tento de empate. Placar final, 1 a 1. A luta de todos, enfim, justificada: Inter na decisão. Ao ritmo, óbvio, de Falcão.


Invicto, inédito e jamais igualado


Não bastasse a reviravolta que transformou um ano iniciado de maneira claudicante em finalista do Brasil, o roteiro de 1979 reservava mais emboscadas para a Maior e Melhor Torcida do Rio Grande. Classificado depois de eliminar o Coritiba, o Vasco seria o adversário colorado na decisão. Os primeiros 90 minutos reservavam o Maracanã, como palco, e Roberto Dinamite, como possível algoz.

Missão difícil, largar em vantagem pareceu se tornar impossível quando a escalação alvirrubra foi revelada sem Falcão e Valdomiro. Combalida, a dupla, que há muito vinha no sacrifício, precisou dar lugar a Valdir Lima, contratado junto ao São Paulo de Rio Grande, e Chico Spina, ponta muito contestado nas fases de abertura do Brasileirão. O empate, para os mais pessimistas, virava obsessão. Tolos eles.

“Poucos esperavam que o Inter derrotasse

o Vasco quando o empate bastava.

Acontece que nosso time

não sabe jogar na retranca.”

Ênio Andrade

O primeiro apito da final soou às 21h15 do chuvoso 20 de dezembro. Instável, o clima afastou parcela do público, mas não evitou que mais de 60 mil pessoas tomassem as arquibancadas do eterno Maior do Mundo. Confiante, o Colorado não se abalou no mítico estádio para fazer, do limão, uma limonada. Substituto de Valdomiro, Chico Spina marcou dois. Reserva de Falcão, Valdir deu assistência para o primeiro. Impecável como estivera desde setembro, a defesa não vazou. De 2 a 0, a vantagem permitia, de uma vez por todas, maior respiro ao povo vermelho. Restavam míseros 90 minutos.

Os campeões invictos

Benítez, a muralha. João Carlos, incansável, Mauro Pastor, xerife, Mauro Galvão, fenômeno, e Cláudio Mineiro, guerreiro. Batista, gênio, Jair, artilheiro, e Falcão, divindade. Valdomiro, ídolo, Bira, matador e Mário Sérgio, craque. Escalado, o Inter entrou, como de costume, correndo no gramado do Beira-Rio. O Gigante, que fervilhava naquela antevéspera de Natal, respondeu com estremecedor tremular de bandeiras. A confiança do povo atingia escala comparável ao palco do duelo. A exibição colorada também, apesar de Leão, que muito retardou a abertura do placar. Inevitável, porém, o gol primeiro saiu, e teve a cara do time de Ênio Andrade.

Jamais derrotado, o goleiro Benítez repôs com Mário Sérgio, que recuara até a intermediária defensiva para receber. Pela esquerda, o Vesgo percebeu que Bira tomava a frente de seu marcador. Preciso, lançou o nove, que escorou, poucos metros depois do centro do campo, de casquinha. Perspicaz, Jair apareceu nas costas da adiantada defesa rival para, no primeiro toque, fintar Leão. No segundo, finalizou na direção da desprotegida goleira. Aos 41 minutos, o Beira-Rio aumentava os já ensurdecedores decibéis de festejo.

Quatro voltas do ponteiro depois, Falcão quase ampliou. Completo, o Rei lançou Bira, que driblou o arqueiro mas perdeu ângulo. Pela direita da área, o centroavante cruzou rasteiro. Ágil, ali já estava seu garçom, que tentou de letra. Por sorte dos cariocas, o goleiro impediu gol que faria justiça à magnífica campanha construída pelo camisa cinco vermelho. Decisivo em todas as fases, o ídolo dispensou estrelismos em nome dos objetivos. Na decisão, em momento algum foi individualista. Pelo contrário, seguiu ditando o ritmo de seus 10 companheiros, ora desfilando passes açucarados para os avantes, ora retendo a posse e esfriando o time visitante.

Fiel ao estilo de jogo que lhe fizera atingir a melhor forma de sua carreira, o camisa cinco não perdoaria, por óbvio, espaços na retaguarda rival. Espaços como os oferecidos a 13 minutos da segunda etapa, quando Mário Sérgio, de novo ele, lançou da defesa, desta vez para Cláudio Mineiro, que cruzou rasteiro, na direção de Bira. O centroavante finalizou, mas abafado por Falcão, que operou milagre. Abandonado por seus companheiros, o goleiro mal levantara do chão quando surgiu Falcão.

“Nós oferecemos este título

para aqueles que não

acreditavam no time”

Rei Falcão

Um, dois, três passos. Pé de apoio, perna direita no ar, chuteira na bola. Por um instante, corpo completamente fora do chão. O herói era elevado, ficava acima de seus rivais. Superior, como seu futebol. O Rei finalizou, com a seriedade dos grandes, a caminhada da maior equipe da história do principal desporto brasileiro.

Wilsinho até descontaria, é verdade, mas o gol de honra em nada ameaçou o Tri. Título único, posse exclusiva do Time que Nunca Perdeu, escalação inesquecível capitaneada pelo melhor meio-campista que nosso país já viu. O Rei de Roma. O Deus do Beira-Rio. O aniversariante desta sexta-feira (16/10). Parabéns, Falcão!

Falcão comemora o gol do Tri