81 anos da estreia de Tesourinha

Ídolo multicampeão, um dos maiores pontas do futebol brasileiro, quinto artilheiro da história colorada, atleta dono de DNA alvirrubro como poucos. Sobram predicados para definir a grandeza de Tesourinha na biografia do Clube do Povo, ídolo que há 81 anos disputava sua primeira partida com a camisa do Inter. Ocasião festiva, surge como motivo perfeito para relembrar a trajetória do craque vestindo vermelho.

Da direita, Tesourinha finaliza cruzado e marca para o Inter!

O primeiro capítulo da história entre Inter e Tesourinha foi escrito ainda no nascimento do ídolo. Osmar Fortes Barcellos viveu sua infância na Ilhota, bairro periférico marcado pela mistura de futebol e samba, que em 1909 serviu de berço colorado. Há 81 anos, portanto, o que teve início foi o matrimônio entre Clube e craque.

Ativo no bloco de carnaval dos ‘Tesouras’, razão de seu icônico apelido, o ponta-direita estreou pelo Alvirrubro no dia 22 de outubro de 1939. A partir de então, sua biografia ficava ainda mais atrelada à do Internacional, clube de cores definidas por outro bloco, o dos Venezianos, e de essência voltada para o povo.

Cruzado e indefensável, mais um arremate de Tesourinha morre nas redes adversárias

De acordo com registros do acervo histórico do Clube, a primeira jornada de Tesourinha vestindo vermelho ocorreu em partida disputada diante do Cruzeiro-POA, válida pelo Campeonato Citadino daquele ano. Na ocasião, Osmar substituiu simplesmente Carlitos, ponta-esquerda que viria a se tornar o maior artilheiro da história colorada. Tesourinha, inclusive, atuava no mesmo setor do goleador máximo do Internacional, mas precisou se adaptar ao flanco direito pois, como o passar dos anos mostraria, conceber o Inter sem um dos integrantes da letal dupla de ataque não seria possível.

É bem verdade que Tesourinha não balançou as redes em sua primeira partida pelo Inter. Felizmente, contudo, seus tentos não foram necessários, e o Clube do Povo deixou o campo vencedor por 2 a 1. Quem marcou os gols vermelhos foi Brandão, em partida que viu o Colorado escalado com Júlio no gol, Alfeu e Risada na defesa, Nenê, depois Celso, Magno e Levy no meio, além de Rui, Russinho, Brandão, Moacir e Carlitos, depois Osmar Barcellos, no ataque.

Deste triunfo em diante, vieram mais centenas na história do ídolo no Inter, que resultaram em oito conquistas estaduais, outras oito municipais, e a consagração do ponteiro como eterno na biografia alvirrubra. Integrante do Rolo Compressor, Tesourinha formou, junto de Carlitos, Adãozinho e Villalba, um dos principais ataques da história do futebol brasileiro. Também ao lado do Rolo consolidou o Clube do Povo como maior time do Rio Grande do Sul, além de garantir ao Colorado a jamais tomada supremacia no histórico do clássico Gre-Nal.

Tamanha magnificência nos gramados gaúchos garantiu a Tesourinha feito raro para os atletas gaúchos de então: ser convocado para a Seleção Brasileira. Genial como sempre, superou qualquer desconfiança que o bairrismo imperante no selecionado poderia impôr a um forasteiro do eixo Rio-São Paulo e foi notório. Pela Canarinho, conquistou a Copa Roca, em 1945, a Copa Rio Branco, em 1947 e 1950, a Taça Oswaldo Cruz, também em 1950, além, é claro, da Copa América de 1949. Individualmente, ainda foi eleito o melhor ponta-direita da América nos anos de 1945 e 1946.

Tesourinha, o sétimo da esquerda para a direita

A história entre Tesourinha e Inter durou uma década inteira, esgotando-se apenas nos últimos meses de 1949, quando o atacante foi contratado pelo Vasco, que por seus dribles carnavalescos e gols implacáveis pagou uma fortuna. Emocionante, sua despedida em nada afetou o carinho da torcida pelo eterno ídolo, provavelmente o maior ponta-direita de nosso futebol ao lado de Garrincha. Perpétuo no Panteão vermelho, Osmar faleceu em 1979, aos 57 anos, mas seu legado segue vivo até hoje, manifestado sempre que um jovem colorado domina a bola pela ponta e é visto um fintando um zagueiro.

Tesourinha foi um dos primeiros homens Gre-Nal

Tinga, teu Clube, do Povo, te ama!

Há exatos 10 anos, no dia 14 de maio de 2010, Paulo César, o Tinga, era oficialmente apresentado em seu retorno ao Sport Club Internacional. Vencedor na primeira passagem, o já veterano meio-campista voltava ao clube do coração disposto a seguir escrevendo rica história com o manto colorado após um hiato de quase quatro anos. Missão difícil, considerando o que escrevera na trajetória anterior, mas atingida com sucesso. Relembre, abaixo, a carreira do ídolo no Beira-Rio!

Tinga: colorado e campeão

Um craque nascido em berço colorado

Tinga chegou ao Inter com 26 anos de idade, já carregando o apelido em referência à Restinga. Tradicional bairro da zona sul da capital gaúcha, serviu-lhe de morada até o início da vida adulta, e, curiosamente, exibe muitas coincidências, em sua biografia, com o Clube do Povo. Afinal de contas, a região foi criada para servir de destino aos moradores da Ilhota, berço colorado, palco do Ground da Rua Arlindo – primeiro campo da história alvirrubra -, e área localizada na altura onde, atualmente, a Avenida Érico Veríssimo se encontra com a Praça Garibaldi e a Avenida Ipiranga.

No início da segunda metade do século XX, políticas higienistas expulsaram da Ilhota a população humilde, operária e boêmia que vivia no bairro, entendendo que, por sua localização central, a região poderia despertar grande interesse das classes mais abastadas de nossa sociedade. Desta forma, os legítimos habitantes da área, descendentes de Tesourinha, Sylvio Pirillo, Escurinho e outros, acabaram empurrados para a zona sul, onde ergueram a Restinga. Anos depois, no encerramento de 2004, mais um filho deste DNA efervescente e popular desembarcou no Beira-Rio.


Casamento iniciado com taça

Chegando credenciado por passagem pelo Sporting-POR, Tinga declarou, logo em sua primeira entrevista como atleta do Clube do Povo, o sentimento de gratidão pelo empenho do Colorado em recrutá-lo. “Eu quero jogar à altura do interesse do Clube, que há um ano tentava me contratar.” Mal sabia o meio-campista que os dois próximos anos seriam intensos, dramáticos e vitoriosos a tal ponto que, quando deixasse os arredores da Padre Cacique, já estaria eternizado como um ídolo alvirrubro.

Titular na campanha do título gaúcho de 2005, Tinga teve participação destacada na decisão do certame estadual. Na partida de ida, o meio-campista marcou o segundo gol do Inter, pegando rebote de bola que Elder Granja mandara no travessão tentando encobrir o goleiro. Decisivo, o tento foi o quarto do camisa sete no Campeonato, seu sexto no ano, garantindo ao atleta a vice-artilharia da temporada colorada até então.

Na finalíssima, disputada fora de casa, foi Tinga quem, com magistral cruzamento, serviu Souza para que o centroavante fizesse o segundo do Inter na prorrogação, encaminhando a vitória, por 2 a 1, e o título, quarto seguido no Gauchão. Tamanho protagonismo do atleta foi reconhecido com vaga na seleção do Campeonato, em premiação organizada pela Federação Gaúcha de Futebol (FGF).


A injustiça nacional

Tinga seguiu como um dos principais nomes colorados na campanha que levaria o Inter ao quarto título brasileiro não fosse o escândalo da ‘Máfia do Apito’. Integrante do ‘quarteto goleador’ do time de Muricy ao lado de Sobis, Fernandão e Jorge Wagner, o meio-campista viveu a temporada mais artilheira de sua carreira, muito por conta das cobranças dos colegas de elenco, como brincou em outubro daquele ano. “Fui me aperfeiçoando ao longo da carreira. Meu chute não é forte, por isso procuro colocar a bola, tirando do alcance do goleiro. Os companheiros até brincam que precisam assoprar lá de trás para a bola passar a linha do gol”

Capaz de tirar o sorriso do rosto do meio-campista apenas os prejuízos impostos por celeradas arbitragens ao Clube do Povo. Tinga, inclusive, foi símbolo do escândalo que teve no Inter sua maior vítima quando, na antepenúltima rodada, já ocorrida a anulação de jogos conduzida por Luiz Zveiter, o Colorado gaúcho, ainda com chances reais de título, foi até São Paulo enfrentar o líder Corinthians, no Pacaembu.

Aos 28 minutos do segundo tempo, com o escore indicando igualdade de um gol para cado lado, o camisa sete foi lançado na área em profundidade. Como sempre genial em suas infiltrações, adiantou-se aos zagueiros adversários e, logo no primeiro toque na bola, dominou fintando o goleiro Fábio Costa. Descarrilhado, o arqueiro corintiano atropelou o meio-campista com um violento carrinho. Pênalti claro, que o árbitro Márcio Rezende de Freitas não apenas deixou de assinalar, como também interpretou como simulação de Tinga, assim apresentando ao atleta o seu segundo amarelo no jogo, encerrado com o 1 a 1 no escore.


O brilho nos grupos, o drama nas eliminatórias

A segunda colocação no campeonato deu contornos negativos ao grande ano do Clube que, dentro de campo, fizera por merecer o título nacional e, também, escrevera bonita campanha na Sul-Americana, tornando-se a primeira equipe estrangeira a superar o Rosário Central, na Argentina, em partidas continentais, e sendo eliminado apenas para o Boca Juniors, futuro vencedor do torneio, nas quartas de final, encerradas com agregado de 4 a 2. Para a surpresa daqueles que esperavam que o abatimento fosse tomar conta do elenco colorado, contudo, a temporada de 2006 comprovou que aquele era um grupo formado por vencedores. Toda indignação e frustração foram convertidas em motivação por conquistas maiores. Referência entre os atletas tanto por sua liderança quanto pelo alto nível de futebol que apresentava, Tinga, escolhido o melhor segundo volante do Brasileirão, continuou protagonista mesmo após a chegada de Abel, que assumiu o comando da casamata alvirrubra no lugar de Muricy Ramalho.

Titular no vice-campeonato gaúcho, o meio-campista sobrou na fase de grupos da Libertadores, brilhando na histórica virada sobre o Pumas, armando a jogada do gol de empate após desarme magistral. Infelizmente, seu embalo foi contido por lesão sofrida em confronto contra o Maracaibo, válido pela última rodada do chaveamento. Grave, a injúria afastou Tinga dos gramados por mais de um mês entre abril e maio, assim tornando o atleta um desfalque para as oitavas-de-final e, também, a primeira partida das quartas, contra a LDU. Dramática, a situação foi agravada quando, no início do segundo tempo do duelo de volta frente aos equatorianos, o camisa sete voltou a se machucar. As consequências? Mais duas semanas de afastamento e ausência nas semifinais.


A decisão de Tinga

Pela primeira vez em 26 anos, a segunda em seus 97 de existência, o Inter confirmou, nos últimos instantes do dia 3 de agosto, sua classificação à final da Libertadores. Sedento por minutos em campo após ser desfalque em praticamente toda a fase de eliminatórias, Tinga voltou a ficar à disposição para os confrontos da decisão. Diferenciado por sua técnica, provou-se, na final, também um verdadeiro talismã, ocupando posição de destaque nos dois confrontos.

Se a primeira partida foi de Rafael Sobis, vale destacar que o segundo gol marcado pelo menino de Erechim surgiu após rebote de bola dividida entre Tinga e Júnior, espirrada na direção do travessão. O meio-campista colorado, colocando sua especialidade à prova, invadiu a área adversária em velocidade e recebeu excelente escorada de Fernandão. Por centímetros não bateu Rogério Ceni, mas, graças ao oportunismo do colorado e gaúcho artilheiro da noite, a oportunidade passou longe de ser lamentada.

A mesma chance criada a partir de assistência de Fernandão que parou na trave na primeira partida, balançou o barbante da goleira defendida por Ceni na finalíssima. O Eterno Capitão colorado pegou rebote de cabeceio por ele mesmo desferido, milagrosamente defendido pelo goleiro, e, da ponta esquerda da pequena área girou e cruzou bola baixa para Tinga, que precisou se abaixar e contorcer antes de empurrar para a meta. Gol. O segundo do Inter, comemorado de maneira tão efusiva que o meio-campista chegou a levantar sua camisa vermelha para revelar mensagem religiosa que carregava por baixo do uniforme. Advertido pelo árbitro, levou o segundo amarelo no jogo.

Coube ao Inter segurar os 30 minutos finais de partida com um a menos. Correndo por eles e por Tinga, os jogadores se defenderam com a tradicional alma colorada. O camisa sete, enquanto isso, rezava e chorava no vestiário vermelho. Seu sofrimento só acabou quando os massagistas Banha e Juarez, juntos do roupeiro Gentil, foram buscá-lo anunciando o final do jogo. Pela primeira vez em quase cem anos de história, o Inter era campeão da América, e Tinga tinha marcado o gol do título. Era herói, como merecia ser depois do absurdo vivido em novembro anterior, no Pacaembu.

“A festa está completa. Ganhamos o mais importante. Para mim, só faltava a Libertadores. O Inter é o time que eu torço, que meus amigos todos torcem. Sofri muito quando cheguei, pois fui formado no Grêmio. Mas sou torcedor do Internacional desde criança. Este sofrimento serviu de incentivo e, agora, nosso trabalho foi coroado com este título”, declarou o então campeão da América. O troféu erguido no Beira-Rio também serviu de ponto final para a primeira passagem do atleta no clube, visto que Tinga seguiu para o Borussia Dortmund após a inesquecível e infindável noite de 16 de agosto.

Tinga comemora o gol do título da Libertadores/Foto: Jefferson Bernardes/VipComm

Voltou para casa e foi campeão

Após quase quatro anos vestindo a camisa do clube alemão, suficientes para, passados 85 jogos e catorze gols, alçar Tinga ao posto de ídolo local, o meio-campista voltou para casa. Eufórica, a torcida colorada respondeu ao anúncio da contratação com grande entusiasmo, fanatismo que pôde ser percebido logo no desembarque do atleta no Aeroporto Internacional Salgado Filho, quando centenas receberam o velho conhecido com festa digna do craque que chegava.

Por se tratar de uma contratação internacional, Tinga necessitava esperar pela abertura da janela de transferências para jogadores vindos do exterior para ter sua situação regularizada e, assim, reestrear com a camisa vermelha. Os bons ventos sopraram na direção da Padre Cacique, com o prazo de inscrições antecipado para julho. Novidade cirúrgica, uma vez que possibilitou que o meio-campista entrasse na lista de atletas colorados que disputavam a Libertadores, competição que já vivia sua fase de semifinais.

Vestindo a camisa 16, Tinga atuou na segunda partida da fase semifinal e na finalíssima. Nesta, começou a jogada do primeiro gol colorado e quase se antecipou a Sobis para concluir cruzamento feito por Kleber. Mais uma vez, uma chance criada pelo meio-campista era aproveitada com muito oportunismo pelo atacante gaúcho. Novamente, o Inter era campeão. E Tinga, também.


Novo ano, novo troféu

As lesões se tornaram mais frequentes para o ídolo na temporada de 2011. A primeira aconteceu ainda em fevereiro, durante partida contra o Pelotas, no Beira-Rio, e afastou Tinga dos gramados por dois meses, período que englobou praticamente toda a fase de grupos da Libertadores e boa parte do Gauchão. Seu retorno aconteceu na semifinal da Taça Farroupilha, contra o Juventude, em partida na qual a estrela de ídolo colorado voltou a se fazer presente. De cabeça, o meio-campista marcou o gol da classificação para a final, completando cruzamento feito por Leandro Damião em jogada que contou com magistral lambreta do centroavante alvirrubro.

Tinga ainda atuou na final do turno e no primeiro jogo da decisão do Campeonato, apenas ficando de fora da finalíssima por suspensão devido ao terceiro cartão amarelo. Diferente do que o espetacular retorno poderia sugerir, entretanto, o ano seguiu repleto de percalços para o jogador, que perdeu boa parte do Nacional lesionado. Seu momento de maior destaque no Brasileirão aconteceu nas últimas e decisivas rodadas, quando passou a atuar mais recuado, abrindo a meia-cancha colorada ao lado de Guiñazú. Por ali, foi peça importante na conquista da vaga à Libertadores seguinte.

A temporada também reservou um título inédito ao ídolo: a Recopa Sul-Americana. Tinga enfrentou o Independiente, fora de casa, na primeira partida da decisão que consagrou o Clube do Povo bicampeão do certame continental. Além disso, ainda em 2011 o atleta participou da campanha do Inter na Copa Audi, torneio encerrado com o bronze para o Colorado.


O fim que repetiu o começo

Após lesão na pré-temporada, Tinga surgiu como elemento surpresa na escalação colorada para a partida de volta da pré-Libertadores de 2012, disputada contra o Once Caldas. Como de costume, marcou gol importante, virando o jogo para o Inter após completar excelente cruzamento de D’Alessandro. A partida acabaria empatada em 2 a 2, com classificação gaúcha, e o tento seria o último do camisa sete pelo Clube do Povo.

No Gauchão, o meio-campista foi peça frequente no segundo turno e atuou nas partidas de ida e volta da decisão, contra o Caxias. Com o título, o atleta se tornou tricampeão do torneio. A finalíssima, inclusive, foi partida final de Tinga com a camisa alvirrubra. Na semana seguinte, o ídolo rescindiu amigavelmente seu contrato e seguiu para o Cruzeiro.

Em Minas Gerais, Tinga conquistou o bicampeonato brasileiro. Também por lá, aos 37 anos, o craque encerrou, em maio de 2015, sua vitoriosa carreira. Confira a ficha técnica:

Posição: Meio-campo
Nascimento: 13/01/1978
Naturalidade: Porto Alegre (RS)

Clubes:
1997 – 1999: Grêmio – RS
1999: Kawasaki Frontale (JAP)
2000: Botafogo – RJ
2001 – 2003: Grêmio – RS
2003 – 2005: Sporting (POR)
2005 – 2006: Internacional
2006 – 2010: Borussia Dortmund (ALE)
2010 – 2012: Internacional
2012 – 2015: Cruzeiro

Títulos pelo Inter:
Libertadores da América: 2006 e 2010
Recopa Sul-Americana: 2011
Campeonato Gaúcho: 2005, 2011 e 2012.

No dia do aniversário do Beira-Rio, relembre a história das primeiras casas coloradas

Casa do povo colorado, o Beira-Rio completa, nesta segunda-feira (06/04), 51 anos. Endereço dos mais tradicionais do futebol sul-americano, serve de morada ao Internacional desde que o Clube tinha 60 anos. Palco de conquistas históricas, viu o Colorado se sagrar, entre outros feitos, tricampeão brasileiro e bicampeão da América. Antes de sua inauguração, contudo, o Inter já estava nacionalmente consagrado e devidamente profissionalizado, muito graças a outros templos que lhe serviram de residência. Relembre, agora, a história das primeiras casas alvirrubras!

O berço

Nosso primeiro campo foi o nostálgico Ground da Rua Arlindo, localizado na Ilhota, região marginal, habitada por negros e operários. Zona popular e carnavalesca. Berço de muitos anônimos, e também de Tesourinha e Lupicínio Rodrigues. Atualmente, a região equivale ao terreno que se estende da Praça Garibaldi até a Avenida Ipiranga, passando pelas Avenidas General Lima e Silva e Getúlio Vargas.

A Ilhota, nos arredores da Rua Arlindo

De sua parte, o campo pode ser rememorado no terreno vizinho ao Hospital de Porto Alegre, onde hoje se encontra a Praça Sport Club Internacional. Sobre o relvado, verdade seja dita, os grandes embates ali sediados foram disputados pelos próprios moradores da região. Constantemente alagado, recebeu apenas treinos, mas nunca jogos do Inter. Assim, foram os habitantes locais que, afastados das principais ligas da capital, protagonizaram naquele enlameado gramado campeonatos de altíssimo nível, hoje reduzidos ao pejorativo nome de Liga da Canela Preta.

Visão aérea do ‘Ground’

A brevidade da Ilhota em nossa história, contudo, não torna a região parte de um capítulo insignificante na biografia do Inter. Mais do que uma lembrança já centenária, a região segue viva no imaginário de nossa torcida, que jamais esquecerá do endereço que serviu de boêmio e operário berço colorado.

Palco dos primeiros prélios

O Campo da Várzea foi o primeiro a receber nossas partidas. Localizado em frente ao Colégio Militar, no Parque da Redenção, sediou nossa primeira vitória, diante de mais de mil pessoas. Era 10 de outubro de 1909, e nossa torcida já mostrava que era quem melhor entendia de torcer, mesmo que os contemporâneos não gostassem. Ou não entendessem.

Imagem aérea do Campo da Várzea

Na Várzea, uma vez mais ocupamos região popular. Desta vez, a Colônia Africana, formada por ex-escravizados que viam naquela zona bucólica uma chance de constituir comunidade, de começar uma vida que sempre lhes fora privada. A esperança recaia justamente sobre o futebol, um ambiente até então restrito à aristocracia da capital. Em 1912, entretanto, fomos obrigados a deixar este endereço tão entusiasta. Ficava evidente que o Inter precisava ter uma casa – se não comprada, ao menos alugada, mas não mais emprestada.

A Chácara dos Eucaliptos

Foi na Azenha, de frente para a José de Alencar, que levantamos nossa primeira taça, o Campeonato Metropolitano de 1913. Durante os 18 anos que por lá vivemos, também conquistamos, pela primeira vez, o Rio Grande, em 1927. Mais populares do que nunca, ali ainda recebemos nosso primeiro jogador negro, Dirceu Alves.

Afirmado como um clube vencedor, consolidado e prestigiado, o Colorado alugava o terreno de um Asilo local. O passar dos anos, todavia, tornou intensos os desentedimentos entre Inter e proprietários, levando o Clube a alimentar o sonho de possuir uma casa própria. Até que Ildo Meneghetti não se contentou com a simples fantasia.

Da Chácara, nosso eterno patrono levou o Clube, seu povo e algumas mudas de Eucaliptos para a Rua Silveiro. Não sabia na época, mas este grande passo estava também nos elevando de um patamar estadual para o posto de protagonista nacional – e anfitrião mundial.

O Estádio dos Eucaliptos

A estrutura que formava o Estádio dos Eucaliptos

A maioridade. Símbolo de uma vida autogovernada, independente, conquistada a partir da casa própria. Utopia de quase todos jovens adultos e adolescentes, compartilhada pelo Inter nos idos anos 20, e que virou realidade, graças à ajuda de nossa torcida, em 1931. Multidão vermelha, que ainda hoje pode ser escutada por ouvidos mais atentos que circulam entre as Ruas Silveiro, Dona Augusta, Barão do Cerro Largo e Barão do Guaíba.

Em um primeiro momento, como não poderia deixar de ser, quem pela região caminha afirma ouvir o espocar de foguetes no ar. Provavelmente sejam os fogos estourados pelo Departamento de Cooperação e Propaganda (DCP), projetado por Vicente Rao, no momento da entrada dos times em campo, fazendo a festa no apoio ao Clube do Povo.

Torcida colorada nos Eucaliptos

Conforme o pedestre avança na direção da zona sul, consegue compartilhar a tensão que antecedia cada um dos milagres de Ivo Winck e Milton Vergara, ou os precisos desarmes de Nena, Alfeu, Oreco e Florindo. Todos estes, é claro, acompanhados dos inconfundíveis e indecifráveis bravejos de Charuto, apoiando o seu Colorado até o último dos apitos, mesmo que ele venha depois do último gole.

Na sequência, o ar fica rarefeito, como se milhares prendessem a respiração subitamente, esperando pela assistência genial de Salvador, Odorico, Assis, Ávila e Abigail. Logo depois, a charanga sobe o som, ditando o ritmo da dança que Tesourinha, Russinho e Luizinho impunham aos infelizes adversários antes de, em um toque de mágica, lançarem Bodinho, Carlitos e Larry.

Povo colorado, sempre com o Inter, tomando as arquibancadas do antigo estádio

O trio domina no mesmo momento que a rua chega ao fim. Curiosamente, neste instante ela treme. Ruge. Explode. É gol do Inter, de Rolo Compressor e de Rolinho, que conquistam qualquer um de seus quinze estaduais vencidos ao longo dos 38 anos da era Eucaliptos.

Atravessando para a próxima quadra, o distraído andarilho se pergunta o porquê de um endereço com tanta história e tão alvirrubro ter sido deixado pelo Clube do Povo. A dúvida, contudo, não dura muito tempo. Poucos metros à frente, o Beira-Rio domina a mais bonita das paisagens de Porto Alegre e serve de justificativa. Por maior que fosse, percebe, o Estádio dos Eucaliptos ainda não era um Gigante.