Sócios e sócias participam de ação especial pelo Dia Sem Fim

Comemorados na última segunda-feira (16/08), os 15 anos da primeira Libertadores colorada foram especiais para uma dezena de sócios e sócias alvirrubros, sorteados para reviver o Dia Sem Fim na companhia do ídolo Tinga. Em ação organizada pelo Clube do Povo em conjunto ao Hotel Blue Tree Towers Millenium, os associados aproveitaram um café da manhã ao lado do autor do gol do título continental, e também receberam brindes do Clube do Povo e camisa comemorativa ao aniversário da conquista.

Sediada no Hotel, palco da concentração colorada na véspera da final da Libertadores, a ação ocorreu dividida em duas partes. Na primeira, foram contemplados cinco associados e associadas que, com acompanhantes, passaram a noite do domingo passado (15/08) hospedados no Blue Tree Millenium. Lá, não apenas acompanharam de perto a saída da delegação do Inter para o jogo contra o Fluminense, como também assistiram ao duelo na cobertura, onde receberam petiscos e bebidas em ambiente engrandecido pela inigualável vista para o Beira-Rio.

Os demais sorteados participaram do segundo momento, quando, também com acompanhantes, foram recebidos para o café da manhã, que reuniu todo o grupo de sócios e sócias. Na mesa, conversaram com Tinga, rememorando histórias do mágico 16 de agosto de 2006, além de tirar fotos com a taça da Libertadores, devidamente uniformizados com a camisa comemorativa, e ainda interagir com outros campeões da América que chegavam ao Hotel para participar de uma série de ações comandadas pelo camisa sete do título continental.

Tinga, Clemer e Bolívar relembram conquista da Libertadores 2006 de um jeito inédito

Reza a lenda que o dia 16 de agosto de 2006 jamais teve fim. Por algum motivo desconhecido ou não, os astros se cruzaram justo no sublime momento de uma euforia coletiva às margens do Rio Guaíba, eternizando aquele exato instante.

Testemunhas apontam que tudo começou quando um bravo homem alto e de cabelos longos levantou um artefato brilhante sobre a sua cabeça, libertando um grito que ecoa no local até hoje.

Se o dia realmente não teve fim, ninguém confirma, mas também não nega. O fato é que a lenda correu por América Latina afora, virou tradição popular e eternizou os responsáveis pela obra em heróis lendários.

O Canal do Inter reuniu três destes bravos heróis lendários para contar de um jeito inédito a saga da primeira Libertadores colorada. Bolívar, Clemer e Tinga, pilares da conquista, retornaram ao vestiário do Gigante, ou melhor, à casa deles, para uma sessão de cinema e resenha histórica.

15 anos de um Dia Sem Fim: Inter promove live especial com a participação de Tinga

Marcante na história colorada, o dia 16 de agosto será especial neste ano de 2021: na próxima segunda-feira, completam-se 15 anos do antológico primeiro título continental do Internacional. Para celebrar a data, a partir das 21h45, ou seja, exatamente no mesmo horário em que o árbitro apitou o início da inesquecível final de 2006 contra o São Paulo, no Beira-Rio, o Clube do Povo promoverá uma live especial com a participação de Paulo César Tinga no site www.diasemfim.com.br.

Será uma oportunidade única para a torcida colorada conhecer histórias inéditas da decisão, tudo revelado pessoalmente por Tinga. Durante a transmissão, que será feita diretamente do vestiário do Gigante, o ídolo colorado relembrará o drama solitário que viveu após a sua expulsão, ocorrida ainda na comemoração do gol por ele marcado depois de um perfeito cruzamento de Fernandão.

Tinga (C) comemora o gol marcado em 2006/Foto: Chico Sisto

“Foram 27 minutos de muita apreensão. Eu ficava ouvindo o barulho do estádio, da galera na arquibancada, e imaginando o que estava acontecendo no jogo”, antecipa o ex-camisa 7 do Inter, que promete reviver com riqueza de detalhes a emoção daquela noite de 16 de agosto de 2006, um verdadeiro Dia Sem Fim.

Tinga libertou a América/Foto: Jefferson Bernardes

Camisa comemorativa será vendida de forma inédita e exclusivamente durante a live

Além de reviver a finalíssima contra o São Paulo, Tinga será o anfitrião de uma ação inédita entre os clubes do Brasil: ele apresentará uma camisa – oficial e exclusiva, feita especialmente para celebrar os 15 anos da conquista da América – que estará à venda ao longo de toda a live. Ou seja, enquanto revive a mágica noite de 2006, o torcedor colorado poderá, com poucos cliques, de forma totalmente interativa e prática, garantir uma lembrança única do aniversário do título.

Mas é importante avisar: as camisas serão comercializadas exclusivamente durante a live. Não haverá venda em nenhum outro local! Então tem que ser rápido, porque o dia é sem fim, mas esta oportunidade vai ser passageira!

Serviço:

O quê: 15 anos de um DIA SEM FIM – Live especial com Tinga/Venda de camisa exclusiva dos 15 anos do título da América.

Quando: 16 de agosto (segunda-feira), às 21h45.

Onde: www.diasemfim.com.br.

Como: ao longo da transmissão comandada por Paulo César Tinga, que apresentará detalhes inéditos da final da Libertadores de 2006, será possível comprar a camisa comemorativa dos 15 anos da conquista. Será uma live inédita entre os times brasileiros. Vale a pena conferir!

‘De Tabela Com Iarley’ entrevista Alex

Nesta edição, o ‘De Tabela com Iarley’ recebe um velho conhecido com quem o ex-atacante dividiu glórias e mais glórias internacionais. Ídolo, multicampeão e craque de bola, Alex contou detalhes de sua trajetória. Assista a essa resenha imperdível entre dois ídolos colorados no Facebook Watch:

O caminho para libertar a América

É CAMPEÃO!/Foto: Jefferson Bernardes

Uma noite que demorou 97 anos para chegar e, desde então, jamais acabou. Data em que libertamos o grito continental que há tanto teimava em engasgar nossas gargantas. Feliz a América, que encontrou em nosso camisa 9 o melhor capitão de sua história. Feliz, também, o povo vermelho, que a partir do Gigante coloriu todo o continente em alvirrubro. Há 14 anos, vivíamos o Dia Sem Fim. Relembre a campanha colorada na Libertadores de 2006!

A maior festa que a América já viu!/Foto: Jefferson Bernardes

Para pegar ritmo

Era grande a expectativa da torcida alvirrubra em relação ao retorno do Inter à Libertadores. Afastado do principal torneio de clubes do continente desde 1993, o Colorado precisaria superar, além da aparente inexperiência na competição, o pessimismo deixado pelo frustrante desempenho de sua última participação, quando foi eliminado nos grupos. Na busca por grandes resultados, todavia, também sobravam motivos para o otimismo.

Dentro de campo, o Inter fizera por merecer o título do Brasileirão de 2005. Além disso, o elenco somava duas participações de destaque nas últimas edições da Sul-Americana. Em 2004, o Colorado chegou a eliminar o Júnior de Barranquilla, nas quartas, e somente foi eliminado, nas semis, para o campeão Boca.

Um ano depois, o Clube do Povo sucumbiria, uma vez mais, para o time xeneize, desta vez lutando por vaga entre as quatro melhores equipes do continente. Cascudos em nível continental, portanto, e embalados por grande fase nacional, os comandados de Abel Braga chegaram ao grupo 6 da Libertadores da América.

Inter e Boca travaram grandes duelos na primeira década do século passado/Foto: Marcelo Campos

O Colorado estreou na Libertadores de 2006 no dia 16 de fevereiro. Diante de 35 mil pessoas, o Clube do Povo enfrentou o Maracaibo, da Venezuela, fora de casa. Ceará, aos três minutos do segundo tempo, abriu o placar em bonito chute da entrada da área. O gol do lateral-direito, inclusive, criaria, em breve, superstição ímpar entre a Maior e Melhor Torcida do Rio Grande. O tento, contudo, não foi o único da noite: já nos últimos instantes, Maldonado empatou para os locais e impediu o triunfo alvirrubro.

A vitória que escapou na estreia chegou na semana seguinte. Apoiado por um Beira-Rio lotado, o Inter deu show para atropelar o Nacional-URU, tricampeão da Libertadores, por 3 a 0. Michel e Fernandão, ainda no primeiro tempo, garantiram boa vantagem para o intervalo, resultado que foi ampliado, já nos últimos minutos da etapa final, por Rubens Cardoso.

Abrindo o mês de março, no dia 8 o Inter viajou até a Cidade do México para encarar o Pumas. Como de costume naquele início de campanha continental, as redes balançaram minutos antes dos 45 – desta vez, da primeira etapa. López, de cabeça, garantiu vitória parcial do time da casa antes do intervalo. Na volta dos vestiários, porém, Rentería mudou radicalmente o cenário da partida e, com um gol e uma assistência, para Fernandão, garantiu o posto de protagonista do confronto. Por 2 a 1, o Clube do Povo vencia e mantinha a liderança do grupo.


Invencibilidade nos grupos

A partida mais emocionante do Inter na fase de grupos ocorreu na noite do dia 22 de março. Tomado por mais de 42 mil pessoas, o Beira-Rio, como de costume, fez a diferença, e brilhou na histórica virada sobre o Pumas. A importância da torcida no triunfo fica clara na súmula da partida, afinal de contas, aos 34 do primeiro tempo o Clube do Povo perdia por 2 a 0.

Fernandão comemora o segundo gol colorado na noite/Foto: Jefferson Bernardes

“Foi fantástico. Ninguém arredou o pé, ninguém parou de incentivar. Os jogadores se sentiram orgulhosos de fazer parte deste clube. O torcedor sentiu que o resultado era injusto e incentivou o tempo todo. Sofremos, mas tivemos a competência necessária para virar o resultado”

Contínuo ao segundo gol dos mexicanos, a torcida respondeu com cantoria ainda mais intensa para o time colorado. Sob tamanho apoio, o Inter descontou, logo aos 36, com Michel, em gol brigado, batalhado e com a cara da Libertadores. Na etapa final, Tinga descolou, aos 7, desarme magnífico, e lançou, na direita, o autor do primeiro tento vermelho. Rasteiro, ele cruzou para Fernandão, que tirou proveito da falha do goleiro para empatar. A virada, merecida, chegou aos 30. Gabiru, recebendo assistência de cabeça do Eterno Capitão, fez explodir, também com a nuca, mas de peixinho, as estruturas do Gigante.

Data em que comemorou 97 anos de vida, no dia 4 de abril de 2006 o Clube do Povo visitou o Nacional, em Montevidéu. Desfalcado de alguns nomes, incluindo Fernandão, o Colorado segurou positivo empate sem gols no Parque Central, resultado que garantiu a manutenção da liderança, agora com 11 pontos, e praticamente assegurou vaga na fase de oitavas de final da América.

Finalizando a fase de grupos, o Inter recebeu, no 18º dia de abril, o Maracaibo. Escalado com novidades, a exemplo de Jorge Wagner, que retomou a titularidade na lateral-esquerda, e Rafael Sobis, devidamente recuperado de lesão, o time de Abel Braga não deu chance aos visitantes. Após Adriano Gabiru marcar o único gol da etapa inicial, Bolívar, Michel e Rentería transformaram a vitória em goleada. Em grande estilo, portanto, o Clube do Povo, dono da segunda melhor campanha da Libertadores, avançou, invicto e com 14 pontos, às oitavas.


Velho conhecido, novo final

Atualmente, os confrontos de oitavas de final da Libertadores são decididos através de sorteio. Em 2006, a lógica era outra. À época, a fase era disputada entre os melhores líderes contra os segundo colocados de pior campanha.

Segundo melhor time da fase de grupos, o Inter, que avançou como líder da chave 6, enfrentou nas oitavas, atendendo ao regulamento, o penúltimo segundo colocado. Curiosamente, o adversário foi o Nacional-URU, time mais do que conhecido. Apesar do positivo retrospecto recente para o Alvirrubro, todavia, o rival despertava grande receio na torcida vermelha

Desbravador gaúcho na Libertadores, o Clube do Povo disputara, exatamente contra o ‘Bolso’, a decisão do torneio em 1980. Derrotado na ocasião, o Colorado encarava, 26 anos depois, excelente oportunidade de vingar o revés passado e superar o fantasma charrua que pairava sobre as caminhadas continentais do escrete oriundo da Padre Cacique.

Iniciada em território uruguaio, a fase de oitavas de final viu brilhar Rentería. Mais colombiano dos sacis, o atacante, que já construíra excelente trajetória na fase de grupos do torneio, foi o grande nome do duelo disputado no Parque Central. Após um primeiro tempo de boas chances para os dois lados, encerrado com o 1 a 1 no placar, empate alcançado pelo Inter já nos instantes finais graças a precisa falta de Jorge Wagner, o dançarino Wason foi alçado a campo, logo no retorno dos vestiários, na vaga de Rafael Sobis. Talismã, precisou de apenas 18 minutos para virar, e o fez com estilo: acionado por Fernandão, aplicou, com a direita, um balãozinho no marcador e, sem deixar a bola cair, soltou um canhotaço, que encobriu o arqueiro Bava. Festejada, a vitória por 2 a 1, somada a empate sem gols na volta, no Beira-Rio, classificou o Inter para as quartas de final!


Uma fase, dois meses

O Clube do Povo teve uma semana de folga entre a classificação para as quartas e a abertura do duelo contra a LDU. Em Quito, capital equatoriana, os comandados de Abel Braga saíram na frente com gol de Jorge Wagner. Na etapa final, porém, a altitude de quase 3.000 metros fez a diferença. Benéfica ao time da casa, desgastou o Colorado e garantiu a virada dos locais. No Beira-Rio seria preciso, no mínimo, vencer por 1 a 0. Difícil, o desafio ficou ainda maior somado à ansiedade que precisaria ser superada, consequência dos mais de dois meses que separavam o revés na ida do embate de volta.

Dia 19 de julho de 2006. Após meses de fé, mobilização e treinos intensos, o Gigante, lotado, sediou a disputa dos últimos 90 minutos por vaga nas semifinais continentais. Obrigado a vencer, o Inter até criou boas oportunidades, mas foi incapaz de vazar as redes rivais no primeiro tempo. De volta do intervalo, porém, o ritmo colorado foi amplificado. Prova da intensidade? O primeiro gol, de Sobis, aos 6. Rentería, já aos 41, ampliou. Clemer, nos acréscimos, brilhou. Estávamos entre os quatro melhores das Américas!


Depois de 26 anos, a final

No Clube do Povo, os anos 1980 não ficaram conhecidos como ‘década de prata’ por acaso. Acostumado ao gosto do ouro, recorrente no início da era Beira-Rio, o Inter sofreu com frequentes batidas na trave, ocorridas também em âmbito continental.

Avassaladora, a campanha alvirrubra na Libertadores de 2006 ofereceu ao Colorado, nas oitavas, a primeira oportunidade de superar um trauma passado. Nas semifinais, surgiu a segunda. Desta vez, contra um adversário distinto, mas dentro de roteiro idêntico.

Em 1989, o Colorado perdera a vaga na decisão continental para os alvinegros paraguaios do Olímpia. Traumático, o episódio retornou à memória da torcida vermelha 17 anos depois. Para chegar à final de 2006 o Inter teria de superar, nas semis, o Libertad. Rival também do Paraguai, também preto e branco e também mandante, na partida de ida, no Defensores del Chaco.

Fora de casa, o Clube do Povo empatou sem gols. No Gigante, 50 mil pessoas empurraram escalação decidida a entrar para a história. Os protagonistas do time, naquela noite, foram Alex e Fernandão, que brilharam em nova etapa final decisiva. Pela segunda vez na história, o gigante da Padre Cacique era finalista da Libertadores.


Uma semana sem fim

Morumbi lotado. Inter, de grande campanha no Brasileirão passado, contra São Paulo, vencedor do último Mundial de Clubes. Duelo gigante, entre os dois atuais líderes do Campeonato Nacional. A final de 2006 foi, sem sombra de dúvidas, uma das maiores da história do principal torneio de clubes da América.

Nos primeiros 90 minutos da decisão, Sobis honrou os libertadores Simón Bolívar e José de San Martín para tomar nosso continente das mãos de seus atuais donos. Com dois gols do camisa 11, o Colorado venceu por 2 a 1 e garantiu, em uma das maiores noites da história do Internacional, a vantagem para o jogo de volta

Uma semana depois, no interminável dia 16 de agosto, Fernandão, o principal capitão da história da América, e Tinga, injustiçado herói, marcaram no empate de 2 a 2. A igualdade, conquistada diante de quase 60 mil pessoas, fez Porto Alegre tremer como nunca em sua história. De uma vez por todas, pela primeira em 97 anos, a América estava livre. Livre, e colorida em vermelho e branco. Inter, campeão do continente!

Veias libertas da América Latina

Morumbi lotado. Cerca de 70 mil pessoas apoiando o time da casa, atual campeão do mundo, e que sonhava com o bicampeonato consecutivo da América. Duelo de duas das melhores campanhas da Libertadores. Confronto dos atuais líderes do Brasileirão. Os ingredientes, não se pode questionar, estavam postos para uma noite memorável. Tolos? Somente os que esperavam cozinhar o Inter no caldeirão paulista. Há 14 anos, vivíamos uma das maiores noites de nossa história.

Pula que é gol do Sobis, só pode ser o Sobis/Foto: Jefferson Bernardes


Duelo grandioso


De fato, o adversário exigia respeito. Tricampeão da Libertadores, em 2006 o São Paulo fechou a primeira fase com a quarta melhor campanha do torneio. Nas oitavas, superou o Palmeiras com o agregado de 3 a 2. Logo em seguida, eliminou, no Morumbi, os argentinos do Estudiantes. A classificação para as semis veio nas cobranças de pênaltis, após vitória por 1 a 0 no tempo normal.

Para chegar à finalíssima, o Tricolor, que contava com a estrelada geração de Rogério Ceni, Lugano, Josué, Mineiro, Aloísio e Ricardo Oliveira, ainda bateu o Chivas de Guadalajara. Na casamata, a equipe paulista tinha o comando de Muricy Ramalho, técnico colorado na temporada anterior e, portanto, grande conhecedor do elenco alvirrubro.

Em dezembro, São Paulo conquistaria o Brasil/Foto: Site São Paulo

“Com todo o respeito ao São Paulo, o Inter também é uma grande equipe!”

Bolívar, classificado para a final

O reconhecimento ao bom momento rival, todavia, não significava pessimismo. Muito menos covardia. Dono da segunda melhor campanha da fase de grupos da Libertadores, o Clube do Povo construiu caminhada maiúscula no torneio continental, à altura do que cobra o manto vermelho. Diante do Nacional-URU, equipe que derrotara o Inter na decisão do campeonato em 1980, o Colorado exorcizou seu primeiro fantasma na escalada rumo ao título.

Após eliminar os uruguaios do Parque Central em confronto marcado por pintura inesquecível de Rentería, o Inter encarou, nas quartas de final, duplo desafio. Dentro de campo, a LDU, base da Seleção do Equador, buscava fazer história a nível continental. Fora das quatro linhas, a ansiedade tirava o sono do povo colorado. Entre a partida de ida, vencida pelos locais, em Quito, e o duelo de volta, disputado no Beira-Rio, mais de dois meses, e uma Copa do Mundo, foram vividos. Obstáculos grandiosos, mas inferiores ao Gigante, que garantiu a classificação para as semis. O último rival no caminho até a decisão foi o Libertad, derrotado, depois de empate sem gols no Paraguai, por 2 a 0 no templo da Padre Cacique.

“A história não está feita ainda. Temos que buscar o título”

Fernandão após vitória sobre o Libertad

Pré-jogo de mistério


O Colorado embarcou para São Paulo no sábado 5 de agosto, véspera de confronto contra o Santos, válido pela 15ª rodada do Brasileirão. Disputada apenas quatro dias após o Inter garantir vaga na final da Libertadores, a jornada em terras paulistas contou com uma escalação alternativa do Clube do Povo, que abriu o placar com Iarley, mas sofreu a virada, apesar de boa atuação, nos instantes finais do segundo tempo. O grande ponto positivo do embate foi o retorno de Tinga, recuperado de lesão sofrida no dia 19 de julho, data do duelo de volta contra a LDU. O meio-campista, inclusive, criou a jogada do tento vermelho.

“A gente foi minado com muitas faltas na frente da área, mas não quero me apegar nisso, porque temos uma situação muito importante na quarta-feira. Fico triste pela derrota, mas feliz porque consegui me movimentar bem e posso jogar na quarta-feira.”

Tinga após o duelo contra o Santos

A Baixada Santista seguiu como casa do Colorado nos dias seguintes ao duelo. No CT do Santos, Abel Braga comandou duas atividades fechadas para a imprensa, rodeada de mistérios. Se o retorno de Tinga era provável, por outro lado Alex, com dores no púbis, era dúvida. Autor do primeiro gol marcado pelo Inter na partida decisiva contra o Libertad, o camisa 24 desempenhava papel fundamental no time alvirrubro, alternando com Jorge Wagner entre a ala-esquerda e a armação. Élder Granja, com lesão muscular, também integrava a delegação, mas sua presença dentro de campo era tida como ainda mais complicada.

Eram muitas, assim, as dúvidas que rodeavam a nominata alvirrubra. Na direita, Ceará, que já vinha atuando no lugar de Granja, correspondia à maior certeza. Alex, ao mesmo tempo, passava longe de ter substituto definido. Caso Abel optasse por formação mais conservadora, poderia escolher Índio para o lugar do meio-campista, armando a equipe com três zagueiros e oferecendo maior liberdade a Tinga.

Inter, de Sobis, ajeitou os últimos detalhes no CT do Santos/Foto: Jefferson Bernardes

Outra alternativa residia em Iarley, camisa 10 que vinha somando grandes exibições no Brasileirão. A vocação ofensiva do comandante vermelho também suscitava expectativas acerca da escalação de Michel ou Rentería, avantes que poderiam formar o ataque com Sobis, passando Fernandão para o meio. Com a cabeça repleta de pequenas interrogações, ínfimas se comparadas à enorme motivação que carregavam, cerca de 3,5 mil colorados e coloradas encararam os 1109 quilômetros que separam as capitais de Rio Grande e São Paulo.

Era hora de fazer história. Era hora de soltar o libertador grito que estava preso há 97 anos em nossas gargantas.

Uh, Fernandão!/Foto: Jefferson Bernardes


Nenhum gol, duas expulsões


Entender as escalações que representaram Inter e São Paulo no Morumbi exige voltar mais quatro anos no tempo. Pentacampeão mundial em 2002, o Brasil do técnico Felipão surpreendeu a crítica esportiva, que muito desacreditava a Seleção Brasileira, na Copa do Mundo disputada em Japão e Coréia do Sul.

Armada no esquema 3-5-2, a Canarinho contava com os recuos dos alas Cafu e Roberto Carlos para ter segurança defensiva e máximo apoio pelos flancos. A formação marcou época e, como de costume em Copas do Mundo, ditou novas regras para o futebol. A decisão da Libertadores, é claro, comprova.

A seleção do Penta/Foto: Wilson Carvalho, CBF

Muricy escalou Rogério Ceni; Fabão, Lugano e Edcarlos; Souza, Mineiro, Josué, Danilo e Júnior; Leandro e Ricardo Oliveira. O desenho, é claro, reproduzia o 3-5-2. Contra o escrete paulista, Abel apostou no 4-4-2. Clemer, há quatro jogos sem sofrer gols na Libertadores, defendia a meta alvirrubra. Na defesa estiveram, Ceará, na direita, Bolívar e Fabiano Eller, na zaga, e Jorge Wagner, na esquerda. À frente, Tinga e Alex armavam. Fabinho e Edinho, também – mas ainda somavam obrigações defensivas. Completando a nominata, Sobis e Fernandão reeditavam, uma vez mais, poética dupla que marcou época no ataque colorado.

O clima no luxuoso bairro paulista era de festa. Com foguetes, sinalizadores e bandeiras, a torcida da casa empurrou o São Paulo nos instantes iniciais, apostando que um precoce gol poderia bagunçar a estratégia de Abel. Logo no primeiro minuto, Leandro foi lançado na área colorada e chutou cruzado. Mascada pela zaga, a bola morreu segura nas mãos de Clemer. O Inter respondeu pouco depois com Ceará. Aos 3, o lateral escapou em velocidade pela direita e cruzou fechado buscando Sobis. Antes dele, Ceni cortou em escanteio. O camisa 11 colorado teve boa chance na continuidade do lance, partindo, sobre a linha da grande área, da esquerda para o centro. Cruzado, o arremate explodiu na rede, por fora.

Sobis era, de fato, o mais insinuante colorado em campo. Estonteante nas cercanias da grande área, não hesitava em buscar jogo no campo defensivo, irritando a selecionável dupla de volantes paulistas. Josué, estressado, descontou sua indignação muito cedo, e acertou cotovelaço no jovem atacante alvirrubro. Com 9 minutos de partida, o São Paulo já tinha um a menos.

Numérica, a superioridade colorada também foi vista nas ações do campo. Entregue a escassos contra-ataques, o São Paulo apostava o pouco que tinha em Souza, ala-direita. Esperto, Abel respondeu dando liberdade para Jorge Wagner, que muito se somou a Alex na construção de jogadas pelo flanco canhoto. Livre, o lateral-esquerdo colorado recebeu passe milimétrico de Edinho, que tabelara com Sobis, e, de cara com Rogério, finalizou rasteiro. O relógio marcava 17 minutos, e o Inter tinha a primeira grande chance da noite!

Cedo na partida, Jorge Wagner assustou os paulistas/Foto: Divulgação

A resposta tricolor chegou aos 23. Ricardo Oliveira interceptou troca de passes do Inter na intermediária ofensiva colorada e escapou em velocidade. Pela esquerda, colocou na frente e, antes do bote de Bolívar, cruzou com curva. Pouco depois da marca do pênalti, Leandro dominou, deixou correr e, quando Clemer já caía no chão, finalizou. Fabinho, salvador, travou em carrinho milimétrico. Que início de final!

Dono da posse de bola, o Inter voltou a assustar aos 34. Da mesma posição que partira para marcar o primeiro contra o Libertad, Alex recebeu passe de Bolívar. Com espaço, colocou na frente e dispensou a necessidade de um segundo toque na bola. Viva, com efeito, a finalização de canhota levou muito perigo. Três minutos depois, Fabinho acertou Souza por cima e também recebeu o vermelho.

Dono dos holofotes, o camisa 21 do Tricolor teve boa chance após cavar a expulsão do volante alvirrubro, mas esbarrou em Clemer. Por fim, Jorge Wagner encerrou os melhores momentos de uma agitada etapa inicial aos 44, quando cobrou falta por cima do gol de Ceni. O branco do placar, embora não refletisse o ritmo intenso do primeiro tempo, era bem recebido pelo time de Abel Braga, confiante na possibilidade de, no jogo de volta, exercer a tradicional força colorada no Beira-Rio.


Para a história


Até 2006, a maioria dos colorados e coloradas lembrava do Morumbi como palco da maior exibição da história do Inter como visitante. Abrindo a disputa da semifinal do Brasileirão de 1979, o Clube do Povo esteve perfeito para atropelar o Palmeiras e, através de vitória por 3 a 2, trazer a vantagem para o Beira-Rio. Na ocasião, Falcão, cabeludo craque revelado pelo Celeiro de Ases, brilhou balançando as redes paulistas em duas ocasiões. Passados 27 anos, o povo vermelho seria brindado com nova exibição impecável no gigante templo do São Paulo Futebol Clube.

A tranquilidade exibida pela equipe colorada na noite de 9 de agosto de 2006 contrastava com o turbilhão de emoções encarado pelos presentes no Morumbi. Seguro, o time de Abel jogava empurrado por rica biografia, e já construía, durante o zero a zero, atuação que despertava orgulho no povo vermelho. Seguindo à rica este roteiro, o Clube do Povo saiu de trás com tranquilidade aos 8 minutos da etapa final, quando Bolívar acionou Edinho.

Cabeça erguida, o volante progrediu firme para invadir a intermediária rival. Com passadas largas, venceu os dois primeiros marcadores na velocidade. Livre, lançou Sobis quando sentiu a aproximação de Lugano, descontrolado. Ingênuo, o uruguaio deixou espaço na retaguarda tricolor, já esvaziada graças à genialidade de Fernandão. Aberto na direita, o camisa 9 prendeu Edcarlos e criou espaço para a infiltração de seu parceiro de ataque. Como uma orquestra afinada, tudo corria bem na escapada colorada.

Cabeludo craque revelado pelo Celeiro de Ases (um salve às coincidências), Sobis partiu para o mano a mano contra Fabão. Em velocidade, dominou com a direita e, usando da mesma perna, conduziu em linha reta. Para a esquerda, gingou o corpo, levando junto o zagueiro. Ganhava, então, ainda mais espaço para sua melhor perna.

O drible custou o equilíbrio do atacante, que por pouco não caiu. Genial, todavia, ele, que acabara de costurar no gramado as veias do continente que estava prestes a libertar, manteve-se de pé para invadir a área. Dentro dela, finalizou cruzado. Rasteiro. Para a eternidade. Inter na frente, e o setor visitante do Morumbi conhecia o DNA carnavalesco do povo colorado.

Gaúcho e colorado, colorado e gaúcho/Imagens: Rede Globo

Logo depois do gol, Abel mandou Wellington Monteiro a campo, sacando Ceará. Mantido o desenho, a troca deu ainda mais liberdade para a infernal dupla Alex e Jorge Wagner, uma vez que o substituto pela direita, habituado a atuar também como volante, tinha no comportamento defensivo um de seus melhores valores. Em dívida no marcador, o São Paulo precisaria se jogar ainda mais para o campo ofensivo, e estava claro qual corredor ofereceria ao Inter seus melhores contra-ataques.

Infiltrando pela esquerda, Tinga recebeu ótimo passe de Alex que, posicionado pela direita, cobria o avanço do companheiro. Livre, o camisa 7 dominou no momento do pique, mas Rogério, inteligente, deixou o gol para ficar com ela antes do cabeceio do meia colorado. Chance perdida para alguns, caminho indicado para outros. Três minutos depois, Eller desarmou Ricardo Oliveira e deixou ela com Jorge Wagner, que escapou em velocidade.

O camisa 23 cruzou a linha do centro do campo e acionou Fernandão. Posicionado como um volante após ter empreendido intensa perseguição a Ricardo Oliveira, o Eterno Capitão colorado esperou o aproximação de Mineiro e devolveu em Jorge. Fazendo as vezes de meio-campista, ele deixou, em profundidade, para Alex, então exercendo a função de ala.

Alex cruzou linda bola na segunda trave, com efeito, direcionada à nuca de Fernandão, que infiltrou em velocidade. Nas costas da marcação, o camisa 9 colorado testou para a frente, onde estava Tinga, pisando na pequena área. O meio-campista mandou, também de cabeça, arremate certeiro e forte, que explodiu no travessão. Exatamente em cima da marca do pênalti, Rafael Sobis impediu o picar da bola no rebote e finalizou colocado em direção às redes abertas. Pobre Ceni, bem que tentou, mas a noite não era dele. Era de Sobis, que marcava o segundo do Inter.

O segundo do menino de Erechim/Imagens: Rede Globo

Os dois gols de vantagem conquistados em 16 minutos de etapa final criaram um portal na cidade de São Paulo. A partida, antes disputada no Morumbi, passou a ocorrer no gramado do Beira-Rio. O som ambiente não deixava dúvidas.

Tomado pelo povo vermelho, o estádio via ecoar estridente “Vamo, Vamo Inter”. Dona dos mais altos decibéis, a torcida colorada construiu festa poucas vezes vista no sudeste brasileiro. A noite, indubitavelmente, entrava para a história.

Festa da torcida colorada/Foto: Divulgação

Os elogios tecidos ao São Paulo no alvorecer desta matéria não se fizeram presentes por acaso. Treinado por um gênio, o time da casa respondeu ao segundo gol colorado com a entrada de Lenílson, ofensivo meio-campista que substituiu Danilo. Logo depois, Júnior, primeiro dentro e depois fora da área, desperdiçou boas oportunidades. O que antes era uma goleada, consequentemente, voltou a tomar contornos de igualdade, afinal de contas, entusiasmada pela postura de seus atletas, a torcida do São Paulo passou a disputar o posto de local com a colorada.

Dentro de campo, a vantagem do Clube do Povo também conviveu com ameaços. Aos 21, por exemplo, Clemer operou grande milagre. Sedento por novo contra-ataque, o Inter deu o troco com Sobis. Após servir Alex, o camisa 11 viu Fernandão ser lançado na esquerda da grande área. Parcialmente cortado, o cruzamento rasteiro do camisa 9 voltou para o artilheiro da noite. De frente pra o gol, ele exagerou na força.

É preciso reconhecer a excelente atuação de Souza, o mais perigoso atleta do São Paulo. Aos 28, ele quase consagrou Júnior, mas o excelente cruzamento foi cortado por Wellington Monteiro. Cobrado o escanteio, o lance prosseguiu até Leandro receber bola na direita da intermediária e cruzar para Edcarlos, postado como um centroavante. Certeiro, o cabeceio morreu nas redes de Clemer. Jogo em aberto, mais uma vez.

No lugar do zagueiro artilheiro, que vinha jogando como atacante, entrou Aloísio, centroavante de origem. Ao mesmo tempo, o Inter contava com Índio, que substituíra, minutos antes do gol, Alex. Fechado com cinco atletas na primeira linha, o Clube do Povo ainda somava mais quatro no meio de campo, consequência da aplicação tática de Fernandão e Sobis, que revezavam no momento de recompor.

A consequência de toda a dedicação dos avantes colorados chegou aos 34, quando o até então incansável Rafael Sobis precisou sair. Exaurido após atuação do mais alto nível, deu lugar para Michel. Renovado, o talismã de Abel Braga dispensou os recuos de Fernandão, e exerceu, absoluto, a função de coringa entre meio e ataque.

“As dificuldades serão iguais ou maiores no próximo jogo. Conseguimos apenas uma pequena vantagem e vamos aproveitá-la da melhor maneira possível”

Abel após o jogo no Morumbi

Descansado na linha de frente, Fernandão criou, aos 36 minutos, oportunidade mágica para o Inter. Acionado por Tinga, prendeu dois marcadores, fez a parede e recomeçou com Jorge Wagner, que deixou de lado com Edinho. O volante disparou do círculo central e, mais uma vez imparável, só foi derrubado por carrinho violento de Fabão, já na meia-lua da grande área. Para o agressor, amarelo. Para o Clube do Povo, falta. Para Jorge, o lamento. A bola saiu alta demais.

Ricardo Oliveira, Lenílson, Richarlyson – alçado a campo na vaga de Leandro -, Souza e, inclusive, Bolívar, cortando cruzamento perigoso vindo da direita. Todos estes atentaram contra a meta colorada ao longo dos instantes que antecederam o apito final. Nenhum balançou as redes de Clemer. Aos 48, Jorge Larrionda encerrou jornada que até hoje segue interminável na nostálgica memória do povo do Inter. Em uma semana, conquistaríamos a América.

Heróis colorados comemoram muito a vantagem conquistada na partida de ida/Foto: Divulgação

Livres do fantasma paraguaio

Semifinal de Libertadores. O adversário? Forte equipe paraguaia, alvinegra e atual campeã nacional. Último obstáculo na luta por vaga na decisão continental, teria de ser superado no Beira-Rio, sede da batalha final de guerra iniciada no mítico Defensores del Chacho. O roteiro, sabíamos, era conhecido. Tornava-se necessário, portanto, revolucionar seu último capítulo. Há 14 anos, exorcizávamos o último fantasma na caminhada rumo ao topo da América.

Em breve retornaríamos, depois de 26 anos, à final da América/Foto: Jefferson Bernardes

Time embalado


A Libertadores de 2006 foi a primeira disputada pelo Inter em 13 anos. Afastado do torneio desde 1993, o Clube do Povo, gaúcho que desbravou o certame na década de 70, retornou à elite continental após anos de rápida e concreta reestruturação interna. Inicialmente, na abertura do século XXI, o Colorado lutou contra grandes equipes latinas na Sul-Americana, assim ganhando cancha em competições do exterior.

Colorado ascendeu rapidamente no cenário sul-americano/Foto: Marcelo Campos

Logo depois, o Inter fez por merecer o título do Brasileirão de 2005, conquista que consagraria forte elenco abrilhantado por nomes como Clemer, Ceará, Índio, Bolívar, Edinho, Tinga, Jorge Wagner, Alex, Rafael Sobis, Fernandão e muitos outros. Os escândalos extracampo, contudo, embora tenham retirado o troféu nacional das mãos alvirrubas, também serviram de motivação para o time, que ficou ainda mais sedento por taças, como provou na invicta campanha da fase de grupos da Libertadores.

Praticando um futebol extremamente ofensivo, o time de Abel Braga somou 14 pontos e avançou para as oitavas de final na liderança de seu grupo. Ao mesmo tempo, duro revés na finalíssima estadual suscitou mudanças na equipe, que passou a atuar de maneira mais equilibrada, mas igualmente propositiva. Foi assim que eliminamos o Nacional, antigo carrasco, nas oitavas, e também a LDU, em dramático duelo por classificação às semis. Para chegar a decisão, seria necessário superar mais um fantasma – este paraguaio.


Rival também fora de campo


A década de 80 não foi fácil para a torcida colorada. Habituado a dominar Rio Grande e Brasil, o povo vermelho precisou se acostumar ao insosso gosto da prata. Batemos, inúmeras vezes, na trave, alimentando grande sentimento de frustração nos arredores do Gigante. Dentre as derrotas mais doloridas, o revés diante do Olímpia, na semifinal da Libertadores de 1989, atinge notório destaque.

Treinado por Abel Braga, o Inter havia construído maiúscula caminhada continental. Nas oitavas, despachou o todo poderoso Peñarol através de incrível agregado de 8 a 3. Logo depois, o Bahia, atual campeão brasileiro em cima do próprio Colorado, sucumbiu à força do Gigante. Embalado, o Clube do Povo abriu fora de casa, contra a alvinegra equipe do Olímpia, a disputa por vaga na decisão.

O jovem Abel Braga, comandante do Inter no final da década de 80

No Defensores del Chaco, Luis Fernando Rosa Flores anotou, de bicicleta, um dos gols mais bonitos da história da Libertadores. Com ele, o Inter garantiu a vantagem mínima para o jogo da volta, duelo acompanhado, no Beira-Rio, por mais de 70 mil colorados e coloradas que encerrariam o dia atônitos. Ninguém imaginava, mas o Clube do Povo viveria uma das noites mais trágicas de sua história, sacramentada com eliminação após duas derrotas. A primeira, por 3 a 2, aconteceu no tempo normal. A segunda, na marca do cal. Desde então, jamais havíamos chegado tão longe na Libertadores. Até 2006. Até o retorno de Abel. Até novo confronto contra paraguaio, agora o Libertad.

Comandado por Gerardo ‘Tata’ Martino, técnico que chegaria, no futuro, ao comando da Seleção Argentina e também do Barcelona, o atual campeão do Paraguai contava com forte elenco. Entre as principais estrelas de geração que conquistaria o tricampeonato nacional estavam Édgar Balbuena, Víctor Cáceres, Martín Hidalgo, Cristian Riveros, Rodrigo López e, é claro, Pablo Horácio Guiñazú. Para avançar à final, o Inter teria, então, de superar grande adversário dentro de campo, e temido fantasma fora dele.


O jogo de ida


A classificação para a final não seria conquistada graças a alguma receita mágica, invenção de última hora ou coelho tirado da cartola. Se o Inter estava entre os quatro melhores do continente, era por merecimento e justiça. Abrir mão do fizera para chegar tão longe no torneio seria inconsequente. A despeito de qualquer má recordação, a partida contra o Libertad precisava ser encarada como todas as outras. Nosso capitão, como sempre genial, sabia disso.

“Se chegamos até esta fase da competição foi porque adquirimos uma maneira de jogar. Por isso, não podemos mudar nossa postura contra o Libertad. Vamos em busca da vitória, tendo consciência dos perigos que o adversário oferece”

Fernandão, projetando o duelo

Os maus agouros, inclusive, também encarariam adversário de peso nas arquibancadas do Defensores del Chaco. Contra o espírito das frustrações passadas, o Inter contaria com a vibração do mais inabalável povo, capaz de erguer um gigante sobre as águas de um rio. Torcida que sofrera no passado recente, e ansiava para retornar ao seu lugar de direito: o topo do pódio. Para tanto, os milhares que viajaram ao Paraguai apostavam em um comandante identificado com nossas cores.

“É muito bom saber que teremos este apoio maciço no Paraguai. O Inter é uma equipe de alma, de cor vermelha, de sangue. Contra o Libertad não vai ser diferente”

Abel Braga, antes do jogo

Desfalcado por Tinga, o Clube do Povo foi a campo com Clemer no gol, Índio, Bolívar e Eller na zaga; Ceará e Jorge Wagner nas respectivas alas direita e esquerda; Edinho, Fabinho e Alex no meio; Fernandão e Sobis no ataque. Vivendo noite inspirada, o jovem camisa 11 alvirrubro causou grandes problemas à zaga paraguaia, criando as principais oportunidades do começo de partida. De sua parte, o Libertad insistia em bolas alçadas na área, sempre contando com a vibração de Guiñazú para garantir o rebote. Os três zagueiros colorados, todavia, frustravam os planos mandantes.

Na etapa inicial, as melhores oportunidades de cada equipe foram criadas após os 30 minutos. Primeiro, Fernandão, como se fora um poço de tranquilidade em meio ao nervosismo clássico de um confronto eliminatório, recebeu passe forte de Ceará, na altura da intermediária, e, inteligente, deu um chapéu no marcador. Afobado, o adversário passou batido, enquanto o Eterno Capitão colorado dominava no peito, adiantando a posse. Com força, o camisa 9 mandou de direita, e a bola tirou tinta do travessão.

Pouco depois, Cholo Guiñazú conseguiu seu primeiro bom rebote no jogo e, de canhota, em cima da linha da grande área, finalizou no canto. A redonda explodiu no poste, cruzou em frente à meta vermelha, encontrou Riveros e, na segunda tentativa deste, foi cruzada para a confusão, onde López arrematou para defesa segura de Clemer. Por fim, aos 42, Ceará levantou bola fechada que foi direto na trave superior de Gonzalez. Dono da sobra, Sobis ajeitou para Jorge Wagner encher o pé. O arqueiro paraguaio promoveu um belíssimo milagre.

O panorama de igualdade foi mantido para a etapa final. Mortais como de costume, os entrosados Sobis e Fernandão cansaram a defesa paraguaia. À dupla, somavam-se os constantes avanços de Jorge Wagner, pela esquerda, e Ceará, na direita, além de Iarley, que substituiu Alex. O lance mais marcante do segundo tempo, contudo, foi da equipe da casa – mas, de certa forma, também do Inter. Após cruzamento de Romero, Eller afastou para a intermediária. Bem posicionado, Riveros pegou a sobra e, ignorando a longa distância, mandou de primeira.

Rasante, ela voou até o travessão de Clemer, bateu nas costas do goleiro e, mansa, teimosa, picando, saiu ao lado do poste direito. Há dois anos, na Bombonera, também em uma semifinal continental, o goleiro sofrera gol em lance muito parecido. Agora, a bola saía. Na luta entre a camisa colorada e o fantasma paraguaio, parecíamos levar a melhor. Nossa torcida, presente aos milhares no Defensores, certamente fazia por merecer desfecho mais alegre. Pouco depois do lance, o jogo foi encerrado, com o placar zerado. O duelo seguia em aberto.


Tensão gigante


Entre os confrontos de ida e volta das semifinais continentais, o Inter disputou, pelo Brasileirão, o Gre-Nal de número 366 na história. Com os reservas, o time de Abel Braga até criou as melhores chances, mas não conseguiu alterar o placar do duelo, que ficou marcado, muito mais do que por qualquer lance dentro de campo, pelo vexame histórico da torcida gremista, que provocou grande tumulto nas arquibancadas do Gigante, inclusive incendiando banheiros químicos. Dois dias depois, foi o povo vermelho quem deu exemplo – mas positivo. Na abertura do mês de agosto, o Inter atingiu a inédita marca de 40 mil sócios e sócias, feito que teve como consequência um Beira-Rio completamente lotado para o duelo diante do Libertad.

O Clube do Povo foi a campo, no dia 3 de agosto de 2006, escalado, a exemplo do que ocorrera na partida de ida, com três zagueiros. Bolívar era o responsável pelo lado direto da trinca, enquanto Eller ocupava a esquerda. Entre eles, estava Índio. À frente, cinco meio-campistas tratavam de gerar superioridade numérica na região mais crítica do campo. Donos de grande poder de contenção, mas também responsáveis por oferecer boa saída de bola, Fabinho e Edinho garantiam a liberdade necessária para Alex, extremamente entrosado com o ala-esquerda Jorge Wagner. Ceará, na direita, tinha como parceiro preferido o inquieto atacante Rafael Sobis, eterno par perfeito de Fernandão. No gol, é claro, o titular foi Clemer.

Os heróis responsáveis por devolver o Inter à decisão continental

Os primeiros movimentos da partida deram a entender que o fantasma paraguaio, incapaz de triunfar diante de cinco mil colorados em Assunção, não teria a menor chance contra as mais de 50 mil pessoas que fizeram trepidar o Beira-Rio. Logo aos 3, Edinho escapou em velocidade pelo meio e abriu com Fernandão. Invertendo posição com Sobis, o camisa 9, posicionado como um ponta-direita, cruzou rasteiro para o 11, que se atirou em preciso carrinho. Com os pés, Gonzalez salvou.

De garçom, Fernandão passou a artilheiro, e tentou, aos 14, completar cruzamento aberto de Jorge Wagner. Alta demais, a bola saiu em tiro de meta. Já aos 31, no último lance de perigo da etapa inicial, o Eterno Capitão alvirrubro recebeu grande passe em profundidade de Alex, assistência que não dominou por questão de centímetros, suficientes para o goleiro adversário fazer a defesa.

Embora de ampla supremacia colorada, a etapa inicial conviveu, também, com crescente ansiedade do povo vermelho. Contra o Olímpia, o Inter fora eliminado exatamente no segundo tempo, quando, inclusive, desperdiçou uma penalidade. A lição do passado, logo, era bastante clara: quem não faz, sofre. E o sofrimento deu as caras depois do intervalo. Cedo, o Libertad desperdiçou a primeira oportunidade, respondida rapidamente por Sobis, que teve boa chance. A partir dos 10 minutos, todavia, um verdadeiro filme de terror teve início.

O Inter viveu seis minutos de pura tensão, capaz de paralisar os atletas dentro de campo. Aos 11, Cáceres subiu livre após cobrança de escanteio e, respeitando o figurino, cabeceou para baixo. Clemer defendeu. Cerca de 40 segundos depois, López foi lançado na área e só não balançou as redes graças a desarme providencial de Bolívar. Na cobrança do córner, o mesmo atacante cabeceou bola que levou muito perigo ao gol alvirrubro. A torcida finalmente conseguia puxar o primeiro ar quando Riveros finalizou cruzado e Villareal, por detalhe, não completou de carrinho. Ato contínuo, quem arrematou para longe foi Gamarra. Abel, então, percebeu que a situação só tendia a piorar. Como respondeu? Mandando Rentería a campo, na vaga de Fabinho.

A troca foi ousada. A partir dela, Alex seria recuado à volância, e Fernandão, como um ponta-de-lança, estaria responsável por municiar Rentería e Sobis, a nova dupla de ataque. Necessária para um time que se via obrigado a marcar gols, a substituição também poderia oferecer ainda mais espaços para o Libertad, dentro de campo, e ao azar, fora dele. Felizmente, nenhum destes teve tempo para agir.

Aos 17, pouco mais de um minuto após a entrada de Rentería, Alex recebeu passe de Ceará. Recuado, o camisa 24 pôde visualizar o campo de frente e perceber que, ao mesmo tempo que seus companheiros mais adiantados estavam excessivamente marcados, existia espaço de sobra para progredir até as cercanias da grande área paraguaia. Assim fez e, após simples dois toques na bola, soltou um de seus marcantes canhotaços. Veloz, a esférica voou até as cercanias da pequena área, picou pela primeira vez, ganhou velocidade ainda maior e, sem oferecer chance alguma de defesa, bateu no poste para depois morrer nas redes. Inter na frente!

Ele sempre foi de bomba/Imagens: SporTV

A vantagem colorada nocauteou o Libertad. Antes confiantes em um gol que parecia iminente, os paraguaios ficaram visivelmente desorientados com o caldeirão da beira do Guaíba. Completamente zonzos devido à festa da torcida, chegaram a sentir náuseas quando, ao ritmo do povo vermelho, Sobis começou a dançar na ponta direita.

Primeiro, aos 21, o camisa 11 decidiu partir para dentro da marcação e só depois soltar a bola, cruzada na cabeça de Ceará, que parou no goleiro. No minuto seguinte, mudou de ideia e, ainda na intermediária, acionou Fernandão.

Vindo de trás como um meia, o capitão pôde dominar, fazer o giro, ajeitar e, a exemplo do que fizera Alex, soltar a canhota. Cruzado, o arremate dispensou o beijo no poste, mas também morreu no canto das redes alvinegras. Após abrir o placar graças a meio-campista recuado para a volância, o Inter chegava ao segundo através de um camisa 9 que ocupava a ponta-de-lança. Brilhante, Abel!

O 2 a 0 permitia ao Inter sofrer um gol e, mesmo assim, garantir vaga na decisão. A postura ofensiva, portanto, podia ser arrefecida. Assim, Abel mudou mais uma vez, colocando Wellington Monteiro na vaga de Índio. Deste momento em diante, o Clube do Povo esteve formado por duas linhas de quatro. Na primeira, estavam Ceará, Bolívar, Eller e Jorge Wagner. Logo na frente, Edinho, Alex, Wellington Monteiro e Fernandão.

Compacto, o Colorado seguiu se fechando bem, tocando a bola com segurança e transpirando disposição e garra. Ao mesmo tempo, a torcida, enlouquecida de felicidade, vaiava cada trama adversária com furor idêntico ao usado para incentivar o Alvirrubro. Nos acréscimos, Rentería ainda desperdiçaria boa chance, defendida pelo goleiro paraguaio.

Enfim, aos 48 minutos do segundo tempo, ecoou pelo Beira-Rio o último apito do árbitro Oscar Ruiz, oficializando o retorno do Inter, após 26 anos de espera, à final da Libertadores. Na força do Gigante, nos libertávamos do último fantasma continental. Livres, logo serviríamos de libertadores para os povos vizinhos. Que viesse o São Paulo!

Estávamos loucos por ti, América!/Foto: Jefferson Bernardes

A virada da arquibancada: há 14 anos, Inter avançava para as semifinais da América

Tarefa ingrata resumir a gigante história do Inter na Libertadores. Primeira equipe da região sul do país a participar do torneio e disputar uma final, o Clube do Povo abriu o século XXI encarando indigesto histórico de recentes desencontros com a maior competição das Américas. Ao todo, o Colorado viveu um hiato de 13 anos distante do principal certame de nosso continente. O retorno, rodeado de grandes expectativas por um final feliz, aconteceu em 2006, e teve um de seus maiores capítulos vivenciados há exatos 14 anos.

Rafael Sobis e torcida: os destaques da vitória sobre a LDU


O caminho até as quartas


Credenciado após dois anos seguidos de boas campanhas na Sul-Americana, o Inter encarou com autoridade a pressão da reestreia na Libertadores. Contra o Maracaibo-VEN, fora de casa, Ceará abriu o placar aos três minutos do segundo tempo. Disputada no dia 16 de fevereiro, a jornada contou com infeliz gol dos donos da casa aos 43, igualando o marcador. Uma semana depois, o Beira-Rio lotado comemorou os 3 a 0 do Clube do Povo sobre o Nacional-URU. No mês seguinte, o Colorado conquistou duas grandes viradas sobre o Pumas-MEX, a segunda por 3 a 2, em Porto Alegre, e chegou aos 10 pontos. Novo empate, este no Uruguai, somado a triunfo de 4 a 0 sobre os venezuelanos, já em abril, encerrou a campanha alvirrubra, segunda melhor entre os participantes, na fase de grupos do torneio.

De maneira simultânea à boa fase continental, no Gauchão o Inter também avançou líder para as eliminatórias. Na final, entretanto, dois empates contra o maior rival deixaram o Clube do Povo com o vice-campeonato. O resultado serviu de alerta para Abel Braga, que promoveu mudanças na escalação, reconduzindo Rafael Sobis, que sofrera com lesões no primeiro semestre, ao time titular, assim como Jorge Wagner. No encerramento dos grupos da Libertadores, a lesão de Tinga resultou em nova alteração nos onze iniciais. Assim, com um meio de campo formado por Edinho, Fabinho, Alex e Gabiru, o Colorado chegou para a disputa das oitavas, que promoveram novo encontro com os uruguaios do Nacional.

O Inter exorcizou seu primeiro fantasma logo na partida de ida, disputada no Parque Central. Jorge Wagner, em um golaço de falta, empatou para o Inter na etapa inicial, mas a grande pintura da noite ainda estava por vir. Aos 18 do segundo tempo, Rentería, o mais colombiano dos sacis, aplicou um lençol no zagueiro Pallas e, sem deixar a bola cair, pegou na veia. Vitória por 2 a 1 que, somada a empate sem gols do Beira-Rio, classificaria o Inter para as quartas.


A tensão pelo jogo de volta


O adversário nas quartas de final foi a LDU. Equipe dona da segunda melhor campanha entre os segundo colocados da primeira fase, superou, nas oitavas, o Atlético Nacional, da Colômbia, com o agregado de 5 a 0. Extremamente forte em seus domínios, o time equatoriano sabia explorar a altitude de Quito, localizada cerca de 3.000 metros acima do nível do mar, para encurralar adversários. Abusando deste recurso, largou em vantagem na luta por vaga nas semis continentais. Jorge Wagner, vivendo fase artilheira com sua sempre afiada perna canhota, até abriu o placar para o Inter no primeiro tempo, mas o ar rarefeito fez a diferença na etapa final, permitindo aos donos da casa o triunfo por 2 a 1.

O revés marcou o fim de uma invencibilidade de 27 jogos. Para piorar, o confronto de volta, tradicionalmente disputado sete dias após o primeiro duelo, levaria meses até ser realizado. Paralisada por conta da disputa da Copa do Mundo da Alemanha, a Libertadores seria retomada apenas em julho. Assim, ao longo de mais de sessenta dias a torcida precisaria conter a ansiedade e, ao mesmo tempo, seguir esperançosa. Missão difícil? Não para o povo colorado.

A Maior e Melhor Torcida do Rio Grande não somente continuou fiel, como criou uma corrente de energias positivas poucas vezes vista na história. Foram semanas marcadas por recordes de associação, liquidação de cadeiras disponíveis nos setores locados e peregrinação ao Beira-Rio para comprar camisas, acompanhar treinos ou simplesmente fazer alguma reza, depositando sua fé no número 891 da Avenida Padre Cacique. Enquanto o restante do país estava imbuído de forte espírito nacionalista, o povo alvirrubro deixava os jogos da Seleção Brasileira em segundo plano, permanecendo ansioso não para as esperadas exibições de Dida, Ronaldinho, Kaká, Robinho, Ronaldo e Adriano, mas sim para ver em campo Clemer, Tinga, Alex, Rafael Sobis, Fernandão e companhia.

Duas semanas depois da partida do Equador, o Inter anunciou que 400 novas cadeiras locadas seriam colocadas à disposição, visando a suprir a demanda crescente dos associados e torcedores colorados. O bom momento vermelho, que após campanha histórica no Campeonato Brasileiro do ano anterior conseguia conciliar as diferentes disputas de 2006, seguindo vivo na Libertadores e ocupando as primeiras posições do torneio nacional, orgulhava a torcida. Faltava, porém, conquistar um título que estivesse à altura da grande fase.

Todos no Beira-Rio encaravam o confronto que se avizinhava como o jogo do ano. O Inter, por exemplo, tratou de aprimorar a estrutura do Gigante, realizando reformas nas cadeiras locadas, preparando o setor para a noite de 19 de julho, quando centenas de novos frequentadores eram esperados no local. A Central de Atendimento ao Sócio (CAS) também se adaptava, fazendo plantões em série, muitas vezes trabalhando noite adentro. Nem mesmo a derrota para o Juventude, na última partida do Nacional antes da decisão pela Libertadores, arrefeceu o ânimo da Maior e Melhor Torcida do Rio Grande.


O Gigante jogou junto


Passados mais de dois meses e uma Copa do Mundo, enfim o apito inicial estava próximo. Cerca de 40 mil colorados e coloradas tomaram as arquibancadas do Beira-Rio, ignorando o horário da partida, marcada para as 19h15, que complicava a rotina de todos que trabalharam naquela quarta-feira. Dentro do Gigante, todavia, nada mais parecia importar. Para a multidão ensandecida, apenas o estádio existia. Com bandeirões, faixas, cantoria, sinalizadores e instrumentos, o povo transformou o templo da Padre Cacique em um caldeirão, pronto para cozinhar o adversário desde a entrada das equipes em campo.

Iniciado o confronto, o Inter estava escalado com Clemer no gol; Elder Granja, Bolívar, Fabiano Eller e Jorge Wagner na defesa; Fabinho, Edinho, Tinga, recuperado de lesão, e Alex no meio; Rafael Sobis e Fernandão no ataque. Do outro lado, sete atletas que integraram a delegação equatoriana na Copa da Alemanha impunham respeito. Armada no esquema 4-5-1, com três volantes, a LDU tinha como claro objetivo anular o ataque colorado – e abria mão de quaisquer princípios por isso. Logo no primeiro minuto, Sobis cruzou da esquerda buscando Fernandão. O Capitão quase chegou na bola, dividindo com o goleiro Mora, que fez a defesa e, de imediato, aproveitou a oportunidade para ganhar alguns segundos na primeira cera visitante.

Resumido a esparsos cruzamentos na direção da área rival, o Clube do Povo sofreu para criar oportunidades na primeira meia hora de partida. Na reta final da etapa, Fernandão, Sobis e Granja, em arremates de fora da área, conseguiram esboçar uma pressão colorada, incapaz de balançar as redes equatorianas, mas suficiente para reascender o pavio do Gigante. Chegado o intervalo, da inferior às cadeiras o povo compartilhava da mesma certeza: se quarenta e cinco minutos eram pouco comparados às semanas de mobilização entre uma partida e outra, imagine, então, em relação a 97 anos de história.


Etapa final para a história


A sinergia entre time e estádio resultou em pressão arrasadora dos comandados de Abel Braga na volta do intervalo. Como um rolo compressor, o Inter encurralou os visitantes, e passou a empilhar grandes chances. Aos dois minutos, Sobis costurou do meio para a esquerda e deixou com Jorge Wagner, que cruzou rasteiro. A bola passou do goleiro e encontrou, praticamente debaixo das traves, o pé de Tinga. Desequilibrado por um marcador, o camisa 7 colorado finalizou com muita força, caindo, e mandou por cima da goleira. Segundos depois, Alex descolou lindo lançamento para Fernandão. Entre a dupla de zaga rival, o camisa 9 dominou no peito e, de canhota, finalizou cruzado, tirando tinta da trave de Mora. O gol era iminente.

A dobradinha Sobis e Fernandão fez história com a camisa colorada. Explosivo, o garoto de Erechim sabia explorar espaços como poucos. Surgiu para o futebol seguindo à risca a cartilha de um segundo atacante, genial para estabelecer combinações com seu parceiro ofensivo. Ao mesmo tempo, nosso Eterno Capitão sempre demonstrou inteligência acima da média. Apesar do que a estatura e o número que vestia podem sugerir, não era um centroavante clássico. Habituado a ocupar a ponta-de-lança, gostava de circular fora da área, criando vazios na defesa adversária. Exatamente desta forma, após lançamento de Jorge Wagner, nosso camisa 9, caindo pela esquerda, escorou de cabeça para Rafael.

Pula que é gol do Sobis, só pode ser o Sobis!/Imagens: Rede Globo

Sobis partiu no mano a mano com o zagueiro Espinoza. Inteligente, retardou ao máximo seu primeiro toque na bola, deixando a redonda seguir a trajetória proposta por Fernandão. Já próximo da área adversária, começou a cortar para a direita, entortando as costas do defensor rival. Ao pisar na meia-lua, percebeu que tinha visão aberta para a goleira, e soltou a bomba. Inter na frente!

Nos minutos que se seguiram, o Inter acumulou chances desperdiçadas. Pouco depois, Tinga sentiu lesão e deixou o campo para a entrada de Adriano Gabiru. Os milhares presentes no estádio, que tanto esperaram pelo jogo, agora torciam para que o confronto chegasse ao fim o quanto antes. Depois de 17 anos, o Colorado gaúcho poderia retornar, pela quarta vez em sua história, às semifinais da Libertadores.

Desesperada, a LDU passou a ocupar o campo de ataque, construindo pressão nos minutos finais. Bem postado, contudo, o Colorado impediu a criação de chances equatorianas. Mais do que isso, soube esperar por um contra-ataque fatal. Desgastado, Sobis deixou o campo para a entrada de Rentería, que precisou de menos de três minutos para aprontar. Após cruzamento perigoso da equipe visitante, Jorge Wagner ficou com a sobra pela esquerda e lançou o colombiano, nas costas da marcação. Em velocidade, o Saci chegou antes de Mora e tocou por cobertura. Golaço, comemorado com cachimbo e touca pelo artilheiro talismã.

Rentería, é nós! Tipo Colômbia!/Imagens: Rede Globo

Se antes os visitantes buscavam o gol que seria da classificação, o revés por 2 a 0 cobrava que balançassem as redes coloradas para, pelo menos, postergarem a decisão da vaga para além dos 90 minutos. Nos acréscimos, o incômodo destino obrigou o povo alvirrubro a flertar com a decepção. A centímetros da grande área, Candelário, tentando tirar proveito da encoberta visão de Clemer, que tinha todos os jogadores das duas equipes postados na sua frente, cobrou falta rasteira. Habituado a crescer nos grandes momentos, o goleiro do Inter voou no canto esquerdo, espalmando para escanteio e garantindo a classificação para as semifinais.

Assim, graças aos pés de Sobis, a genialidade de Rentería e as mãos de Clemer, o Inter seguiu escrevendo um belíssimo e vitorioso ano de 2006 na sua história na Libertadores. Ainda mais importante do que o brilho dos jogadores, entretanto, foi o apoio da torcida, que consagrou nosso amor. Com ele, já encaramos tudo – e vencemos. Sempre foi assim em nossa biografia – e sempre será. Afinal de contas, nós não somos DO Internacional, e sim O Internacional. Somos o povo que nunca deixa de acreditar, porque nada, nunca, vai nos separar! Associe-se aqui!

Bravo, Iarley!

A carreira de Iarley merece aplausos. Por onde passou, o cearense conquistou títulos e respeito. No Inter, foi notável. Apesar da pouca estatura, o atacante se tornava um verdadeiro gigante quando vestia o manto colorado, que honrou durante toda a passagem pelo Clube, compreendida entre os anos de 2005 e 2008.

Camisa 10 foi um dos grandes nomes da decisão do Mundial de Clubes/Foto: Ricardo Duarte

Sua trajetória atingiu o ápice no Japão, onde o então camisa 10 foi peça fundamental na inesquecível vitória sobre o Barcelona, que deu ao Inter o título do Mundial, o segundo na conta pessoal do atleta. Já aposentado, o herói, que atualmente trabalha com as categorias de base alvirrubras, sabe que viverá eternamente na memória da Maior e Melhor Torcida do Rio Grande. No dia em que comemoramos 15 anos da apresentação do ídolo como reforço do Clube do Povo, relembre sua passagem no Beira-Rio!


Contratação badalada

Pedro Iarley já ostentava um currículo invejável quando desembarcou, no dia 17 de junho de 2005, no Aeroporto Salgado Filho. Seu passaporte somava carimbos que iam do argentino, onde conquistou, com o Boca Juniors, seu primeiro Mundial, ao espanhol, registro da época em que defendeu o Real Madrid B ao lado de jovens como Raúl, Eto’o, Cambiasso e Casillas. Mais do que atuar por grandes clubes, entretanto, o atacante tambem figurava na história de muitos destes.

Em território hermano, por exemplo, após marcar o gol que garantiu a conquista do Torneio Apertura de 2003, Iarley virou ídolo vestindo a mítica camisa 10 xeneize. No mesmo ano, participara da belíssima campanha do Paysandu na Libertadores, inclusive sendo o artilheiro da vitória por 1 a 0 do time brasileiro sobre o Boca Juniors, em plena Bombonera – feito que motivou o clube de Buenos Aires a contratá-lo.

À época de sua contratação, o Inter estava absolutamente faminto por títulos. Após passar um período na fila, o Clube do Povo se reestruturava e trabalhava duro para retomar o caminho das glórias. Iarley, neste cenário, chegava como a cereja do bolo de uma equipe já encorpada, capaz de empolgar a torcida a ponto de, no momento do desembarque do atacante na capital gaúcha, um grupo de alvirrubros pedir ao novo reforço que ajudasse o Colorado a conquistar uma Libertadores da América, título até então inédito na galeria de troféus do Beira-Rio.

“É um atleta experiente, mas que está

sem jogar há algum tempo.

Precisamos ver como será o rendimento

nos treinos da semana.”

Muricy, após o anúncio de iarley

Sofrendo com o desfalque de Rafael Sobis, convocado para a disputa da Copa do Mundo Sub-20, Muricy Ramalho, técnico colorado, ainda perdeu, na semana seguinte ao desembarque do atacante cearense, o centroavante Gustavo, lesionado. Desta forma, não restou alternativa ao comandante se não escalar o recém-chegado para a partida contra o São Paulo, no Morumbi, válida pela 14ª rodada do Brasileirão.


Como uma luva

É inegável: o início da caminhada de Iarley com a camisa vermelha esteve à altura das expectativas. Formando, com Fernandão, a dupla de ataque colorada, o cearense abriu o placar no Morumbi aos 30 do primeiro tempo, esbanjando qualidade para dominar, com a canhota, rebote de dividida do capitão com a defesa paulista, girar o corpo e, de direita, mandar chute preciso no ângulo de Ceni. Pouco depois, Souza até empatou para os locais, mas Fernandão, de pênalti, e Tinga, nos minutos finais, confirmaram o trunfo alvirrubro por 3 a 1. Envolvido, ainda, nos dois tentos marcados pelo Clube do Povo no segundo tempo, o estreante foi escolhido o melhor jogador da partida em enquete realizada no site do Inter.

O golaço do estreante

“A bola vai entrar a partir de agora.

Eu trabalho para fazer gols!”

Iarley, em entrevista na semana seguinte à estreia

Exuberante, a atuação diante do São Paulo garantiu a Iarley vaga no time titular, mantida para a rodada de número 15 apesar dos retornos de Gustavo e Michel, atacante que também estava entregue aos cuidados do Departamento Médico. À oportunidade, o atacante respondeu mantendo o ritmo elevado, fundamental para o triunfo colorado, por 2 a 1, sobre o São Caetano, no Beira-Rio. Na ocasião, mesmo debaixo de intensa chuva, quase 20 mil pessoas tomaram as arquibancadas do Gigante para apoiar o Inter, que abriu o placar aos 27.

Fernandão lançou Alex, que surpreendeu a marcação caindo pela direita. O jovem foi até o fundo, em velocidade, e cruzou, com o pé ruim, na medida para curioso cabeceio de Iarley, que mandou para as redes, marcando seu primeiro gol no Beira-Rio, segundo pelo Inter. Menos de cinco minutos depois, Granja serviu Tinga, que de canhota marcou o segundo do Clube do Povo. Dimba, para os visitante, até descontou na etapa final, mas nada que ameaçasse o triunfo alvirrubro, capaz de alçar o Colorado à terceira posição no Nacional.

O primeiro tento no Beira-Rio

Também escolhido o craque em sua partida de estreia no Beira-Rio, Iarley foi mantido entre os 11 iniciais para o duelo contra o Vasco, no Rio de Janeiro. Aparentemente esperada, a titularidade comprovou a grande fase do atacante, que deixou Rafael Sobis, de volta após conquistar a medalha de bronze com o Brasil na Copa do Mudo Sub-20, no banco.

Vitorioso em São Januário por 4 a 2, o Clube do Povo se manteve na terceira colocação, a apenas um ponto dos líderes Ponte Preta e Fluminense. A vice-liderança chegou na partida seguinte, encerrada com goleada de 5 a 2 sobre o Juventude, no Gigante. Ao lado de Sobis, Iarley formou dupla de ataque municiada por Fernandão, e abriu o placar, logo aos 10, em um golaço de perna direita.

Pintura para abrir o placar contra o rival gaúcho

Terceiro do atacante em quatro partidas, o tento diante do Juventude foi acompanhado, três dias depois, pelo quarto em sua trajetória no Inter, este marcado sobre o Goiás. De peixinho, contudo, o gol não impediu a derrota, por 3 a 2, no Beira-Rio. Pior ainda, Iarley precisou deixar o duelo mais cedo, consequência de luxação no ombro esquerdo. Incialmente, a injúria afastou o atleta dos gramados por quatro jornadas, mas, após sentir dores nos dois jogos seguintes que disputou, o cearense teve de ser submetido a cirurgia, que estendeu o tempo de afastamento.

“Os médicos disseram que

a operação foi um sucesso.

Agora, é repouso absoluto e, depois,

volto com tudo para retornar ainda

no Brasileirão.”

Iarley, após a cirúrgia

Contrariando a previsão dos médicos, que estipulavam o tempo de parada do atleta entre três e quatro meses, Iarley voltou aos gramados durante partida da 35ª rodada do Brasileirão, disputada em 31 de outubro, pouco mais de 60 dias após a cirurgia. Fora da lista de inscritos do Clube do Povo na Sul-Americana, não pôde disputar o confronto de volta das quartas continentais, contra o Boca, na Bombonera. No Nacional, seguiu como peça frequente no ataque alvirrubro, e teve o alto nível de suas atuações recompensado, já em 2006, com a renovação de contrato até o final de 2008.


2006 de brilho fora…

Titular no início da temporada de 2006, autor de quatro gols no Gauchão, Iarley seguiu conquistando, no novo ano, o respeito de todos no Beira-Rio. Naturalmente, o atacante se tornou uma das principais referências do time, chegando a formar, junto de Clemer e Fernandão, o trio de líderes do vestiário colorado. Em entrevista concedida para a Mídia do Inter em 2014, o ídolo, inclusive, comentou o perfil da trinca, destacando as diferentes características de cada um.

Nosso capitão, o cara que liderava mesmo, até pela inteligência que tinha, era o Fernandão. O Clemer era mais explosivo, até na hora de tomar à frente, dar uma dura. Eu, mais tranquilo, apaziguador, ia lá e analisava a situação, dava opinião, contornava.

Simbolizando o protagonismo que exercera nos meses inaugurais de 2006, Iarley teve o privilégio de ser inscrito na Libertadores da América com a mítica camisa de número 10 do Internacional. Capitão nos primeiros cinco jogos do Clube do Povo na competição, demonstrou o porquê de ser uma das lideranças do grupo quando, com os retornos de Rafael Sobis e Jorge Wagner aos gramados, recuperados de lesão, foi para o banco de reservas.

Iarley não apenas aceitou a condição, como se tornou um verdadeiro assistente do técnico Abel Braga, ajudando o comandante a gerir o elenco do Inter ao longo da fase eliminatória. Para além do papel fundamental que desempenhou no vestiário, o atacante também foi a campo oito vezes na campanha do título, oferecendo, ainda, duas assistências, umas delas na histórica virada sobre o Pumas, no Beira-Rio.


… e dentro de campo!

Após as saídas da dupla Sobis e Jorge Wagner para o futebol espanhol, sacramentadas poucos dias após a conquista da América, Iarley, que já vinha se destacando na formação que construía grande campanha para o Inter no Brasileirão, assumiu com maestria a lacuna deixada no ataque titular do Colorado. Ao lado de Fernandão, alcançou grande entrosamento, e encerrou o Nacional como um dos destaques do Clube do Povo vice-campeão, marcando 10 gols na competição.

Atuações maiúsculas como no Gre-Nal do Olímpico, quando marcou o gol da vitória, e no triunfo sobre o Fluminense, por 2 a 0, no Beira-Rio, além de golaços a exemplo da inesquecível bicicleta contra o Vasco, ou da letra diante do São Caetano, ambas no Gigante, valeram ao atacante uma merecida indicação ao prêmio Craque do Brasileirão. Curiosamente, Iarley acabou preterido na premiação, que não foi a única a injustiçá-lo em dezembro de 2006.


Um gigante no caminho do Barcelona

A delegação do Inter chegou ao Japão para a disputa do Mundial no dia 7 de dezembro de 2006. Antes disso, ainda no trajeto, Iarley já havia demonstrado a importância que sua liderança exerceria na caminhada rumo ao maior título de clubes do planeta.

Quando um contratempo em São Paulo atrasou o voo colorado, fazendo com que o grupo perdesse a conexão entre Paris e Tóquio, assim precisando passar uma tarde em hotel da capital francesa, foi o ídolo quem, em atitude extremamente solidária, dispôs-se a permanecer na sala de embarque do aeroporto parisiense junto dos companheiros Vargas e Hidalgo, os quais não tinham visto para entrar no país. Ali ficaram os três, conversando e descansando enquanto esperavam pelo prosseguimento da viagem.

Esse tá bonito, mas vamos colocar outro,

ainda maior, no lugar, escrito

Campeão do Mundo!

Iarley, ao se deparar com painel do time campeão da américa

Uma vez em terras nipônicas, Iarley, como sempre vestindo a 10, teve atuação segura na semifinal, contra os egípcios do Al-Ahly. Foi na decisão do Mundial, porém, que a estrela do ídolo reluziu como nunca.


No maior dos jogos, a melhor atuação

Os campeões do mundo/Foto: Jefferson Bernardes

A missão era espinhosa. No jogo mais importante da história do Inter, superar o poderoso e badalado Barcelona, de Ronaldinho Gaúcho, Deco, Iniesta, Xavi e companhia. Para isso, é claro, foi preciso traçar uma estratégia especial.

Foto: Ricardo Duarte

A gente sabia que o Barcelona viria com tudo pra cima, e começamos a visualizar o contra-ataque. Mentalizei que poderíamos ganhar o jogo assim, porque era isso ou os pênaltis. Tanto que, quando eu pego a bola na jogada do gol, já estava preparado para aquele momento!

Extremamente disputada, com boas chances para os dois lados, a finalíssima do Mundial de Clubes impôs duro baque à Maior e Melhor Torcida do Rio Grande quando, aos 30 da segunda etapa, Fernandão, extenuado e com cãibras, precisou ser substituído. Com o coração na mão, milhões de colorados e coloradas responderam à alteração depositando boa parte de suas esperanças em Iarley, que assumiu a braçadeira após a saída de nosso capitão, responsabilidade que assumiu com tranquilidade, atestada seis minutos depois.

Foto: Ricardo Duarte

Na hora, só tinha o Luiz Adriano. Esperei pra ver se ele se movimentava, porque estava muito aberto. Dali, só conseguiria um cruzamento ou chute cruzado. Fiquei observando o Puyol. Depois do corte, ele ficou me dando um lado. Segurei e vi um vulto de branco passando. Era o Gabiru. Consegui fazer um passe pressão, milimétrico!

Esbanjando frieza, o ídolo recebeu escorada de Luiz Adriano para, primeiro com o pé direito, dominar a bola. Sagaz, no toque seguinte colocou a redonda entre as pernas de Puyol. O restante da jogada, é claro, todos lembram. Iluminado, Gabiru, substituto de Fernandão, desferiu o mais preciso dos arremates, matando o goleiro Victor Valdez e fazendo o planeta, cada vez mais vermelho, tremer com a festa da torcida colorada.

Olhugol, olhugol, olhugol!

Apesar da empolgação com a vitória parcial, ainda faltavam 10 minutos para o jogo acabar. Mais do que isso, pela frente restava um Barcelona cada vez mais ofensivo em busca do empate. Foi então que Iarley levou seu 1,70 m de altura a atingir a estatura do Beira-Rio quando, junto de Rubens Cardoso, prendeu a bola na ponta esquerda do ataque colorado por praticamente três minutos. Três minutos ao longo dos quais uma história quase centenária passou diante dos olhos do povo alvirrubro, e que serviram para esfriar a pressão dos espanhóis, tranquilizando o time gaúcho.

Foto: Ricardo Duarte

Minha base foi no futsal, eu era pivô. Quando a gente precisava segurar um resultado, eu já fazia isso. Então, naquele momento do jogo, depois do nosso gol, quando o Barcelona veio com tudo pra cima, eu senti que precisava dar uma esfriada, deixar o tempo passar.

Gigantes, Iarley e Rubens Cardoso acumularam faltas, escanteios e laterais

O atacante cearense somente parou de lutar quando o árbitro marcou falta sua, a pouco mais de um minuto do final do jogo. Neste curto intervalo de tempo, todavia, nem mesmo a genialidade de Ronaldinho foi suficiente para segurar o Inter. Exatos 70 segundos após assinalar irregularidade de Iarley, o árbitro Carlos Batres voltou a levar o apito à boca. Desta vez, para encerrar a partida e oficializar que o mundo, finalmente, era vermelho.

Inter, és campeão mundial…/Foto: Jefferson Bernardes

Após o jogo, Iarley recebeu, erroneamente, a Bola de Prata, distinção oferecida ao segundo melhor jogador do Mundial. Premiação, é claro, injusta, pois a colocação não condizia com o nível das atuações do atacante, mas corrigida, dois dias depois, na chegada do time campeão a Porto Alegre.

Mais de 500 mil colorados e coloradas receberam, no dia 19 de dezembro, a delegação campeã mundial. Entre os atletas, Iarley foi, com justiça, um dos mais festejados pela multidão. Em meio ao mar vermelho que coloriu a Região Metropolitana de nossa capital, alguns apaixonados chegavam a bradar que o camisa dez merecia “metade da taça”, como dissera Galvão Bueno na narração do gol do título. Poucos sabiam, contudo, que o título tinha um gosto especial para o ídolo, que, com a taça, cumpria previsão que fizera ao se deparar, ainda em agosto, no vestiário do Inter, com um painel do time vencedor da Libertadores.

Assim, Iarley terminou 2006 atendendo não somente ao pedido do grupo de torcedores que o recebera quando de seu desembarque em Porto Alegre, como também cumprindo promessa feita dentro do sagrado vestiário do Beira-Rio e, é claro, consagrado no seleto rol de ídolos eternos alvirrubros. Uma temporada, definitivamente, irretocável.


A coroa americana

O início da temporada de 2007 não afetou a titularidade de Iarley. No primeiro semestre do ano, o ídolo seguiu formando, com Pato e Fernandão, o trio de ataque colorado, sempre municiado por um Alex cada vez mais regular e participativo na região central do campo. Após insucessos em Libertadores e Gauchão, o Clube do Povo conquistou, no dia 7 de junho, a Recopa Sul-Americana, taça que garantiu a Tríplice Coroa. Capitão na finalíssima, o camisa 10 levantou a taça junto das outras duas lideranças do grupo, Clemer e Fernandão.

Nos meses de encerramento do ano, atacante foi importante para a conquista de vaga na Sul-Americana de 2008. Marcada por grande reformulação no elenco, a temporada de 2007 chegou ao fim com Iarley, Fernandão e Nilmar, repatriado, formando um novo poderoso trio ofensivo para o Inter.

Ao mesmo tempo, Alex seguia brilhando na região central, agora apoiado pelos recém-chegados Guiñazú e Magrão. Na defesa, nomes como Marcão, Sorondo e Orozco foram contratados, trio que, junto do jovem Sidnei e do experiente Índio, renovava as esperanças do povo vermelho. Exatos 12 meses após chegar ao auge, portanto, o Inter demonstrava estar pronto para retornar ao topo, e contava com seu camisa 10 para isso.


Um campeão, até o fim

Titular ao lado de Alex e Fernandão em novo trio de ataque estrelado que formou ao longo de sua passagem pelo Inter, Iarley viveu momento goleador no Gauchão de 2008. Ao todo, balançou as redes em sete ocasiões, ocupando a vice-artilharia colorada na competição, atrás apenas de Alex. A partir das quartas de final, com o retorno de Nilmar, até então lesionado, o camisa 10 passou a revezar a titularidade com o veloz companheiro, assim diminuindo sua frequência dentro de campo.

Na finalíssima do torneio, contra o Juventude, coube a Iarley, junto de Clemer e Fernandão, como ocorrera na Recopa de 2007, erguer o troféu de campeão gaúcho. Primeiro estadual que venceu pelo Inter, 38º da história do Clube do Povo, o título foi, também, o segundo do Colorado no ano, sucedendo, em poucos meses, a conquista da Copa Dubai, ocorrida durante a pré-temporada.

“Achei que eu era forte,

mas mal consigo falar agora.”

IARLEY, em sua entrevista de DESPEDIDA

No dia 5 de junho, após selar transferência para o Goiás, Iarley deixou o Inter. Tomado pela emoção, o atacante praticamente não conseguiu conceder sua coletiva de despedida, admitindo não ter forças para falar. As lágrimas que corriam de seus olhos, obviamente, também tomaram as faces dos colorados e coloradas espalhados pelo mundo, multidão que ainda hoje procura por palavras capazes de agradecer ao gigante camisa 10 por todos os feitos que conquistou vestindo alvirrubro. Viva, I-AR-LEY!

No clima do Mundial: entrevista com ex-zagueiro Ediglê

Ex-zagueiro colorado, campeão da Libertadores e do Mundial em 2006, o defensor Ediglê concedeu, na início da noite da última sexta-feira (05/06), entrevista exclusiva para o Programa do Inter, da Rádio Colorada. A íntegra da conversa, que revelou diversos bastidores de uma das maiores gerações da história do Internacional, pode ser conferida tanto abaixo quanto nos perfis do Clube do Povo em Soundcloud e Spotify!

Sport Club Internacional · Rádio Colorada | Entrevista com ex-zagueiro Ediglê

De segunda a sexta, a partir das 18h, a Rádio Colorada apresenta o ‘Programa do Inter’, exibição que traz todas as atualizações sobre o dia a dia do Clube do Povo. Feito de torcedor(a) para torcedor(a), o Programa pode ser acompanhado através do APP oficial do Clube do Povo.

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