Ídolo, Nei repercute grupo colorado na Libertadores

Campeão da América com o Inter em 2010, o ex-atleta Nei concedeu entrevista para a Rádio Colorada na tarde desta sexta-feira (09/04). Especial, o papo com o lateral-direito repercutiu o sorteio dos grupos da Libertadores 2021, que colocou o Clube do Povo na chave B, e rememorou os tempos do ídolo com a camisa vermelha, com direito a lembranças de bastidores de confrontos disputados na altitude. Confira a íntegra:

Sport Club Internacional · Rádio Colorada | Exclusiva com o ex-lateral direito Nei, campeão da Libertadores de 2010 | 09/04/21

Guadalajara colorada: há 10 anos, cidade mexicana virava o Beira-Rio

A caminhada não foi simples. Se em 2006 a campanha alvirrubra ficou marcada pela soberania com que o Colorado despachou um rival após o outro, o trajeto rumo ao Bi da América exigiu, através de suas sinuosas curvas, ainda mais sofrimento do povo vermelho. Definidas nos últimos instantes, as fases de oitavas, quartas e semifinais testaram o coração da Maior e Melhor Torcida do Rio Grande.

O aprendizado oferecido por tamanho drama, enfim, pôde ser atestado na partida de ida da decisão continental. Disputado há 11 anos, o confronto entre Inter e Chivas, em Guadalajara, até ofereceu grande susto, mas foi superado pelo gigantismo do dono do Beira-Rio.


A força do nosso povo


O Gigante fez a diferença para o Colorado na Libertadores de 2010. Nas seis partidas anteriores à finalíssima que disputou como mandante no torneio, o Clube do Povo conquistou 18 pontos, garantindo irretocável aproveitamento de 100%. Sempre empurrado por um Beira-Rio lotado, o Inter se mostrou capaz de superar qualquer adversário do continente. A partir da classificação para a final, todavia, a Maior e Melhor Torcida do Rio Grande tratou de aumentar o raio de seu apoio. Da Padre Cacique, partiu a contagiar todo o território de Porto Alegre.

Heroicos, os últimos 90 minutos das semifinais continentais ocorreram diante de um Morumbi lotado. Dono da casa, o São Paulo até deixou o campo vitorioso, placar de 2 a 1, mas o triunfo foi insuficiente para tirar a vaga das mãos alvirrubras. Apoiado no regulamento, o Inter, que massacrara os paulistas no Beira-Rio – onde conquistou magro 1 a 0 que em nada refletiu seu domínio sobre as ações do jogo -, avançou para a decisão. No desembarque em Porto Alegre, realizado em 6 de agosto, um dia após o jogo, centenas de colorados e coloradas criaram um clima de Beira-Rio na zona norte de Porto Alegre, região do Aeroporto Salgado Filho, endereço que teve seu saguão completamente tomado.

Dando continuidade à agitada maratona que sucedeu a classificação para a final da América, o elenco colorado, após aproveitar folga na tarde de sexta-feira, retomou os trabalhos, com vistas à decisão, no sábado dia 7 de agosto. Realizadas em dois turnos, as atividades consistiram, inicialmente, em exercícios físicos.

Depois, ocorreu treino com bola, realizado no gramado do Beira-Rio e aberto para a torcida. A consequência? Mais de duas mil pessoas presentes nas arquibancadas do Gigante, dispostas a superar o frio do inverno gaúcho para contagiar o grupo antes do embarque para o México.

“Falo por todos no grupo para agradecer o público que se fez presente aqui no Beira-Rio. Eles podem ficar tranquilos que nós faremos o melhor dentro de campo para atingir o sonho de todo colorado”

D’Alessandro, após o treino

O Inter embarcou rumo ao México na manhã do domingo 8 de agosto. Novamente local na zona norte, a torcida colorada demonstrou que o treino de sábado, com portões abertos, não havia sido suficiente. Ansiosos, cerca de 200 torcedores e torcedoras fizeram festa quando o ônibus alvirrubro apontou no Salgado Filho. O principal cântico entoado, é claro, misturava tons proféticos a outros eufóricos: “seremos campeões!”.

No trajeto até Guadalajara, o Inter ainda fez escala na cidade de São Paulo, onde treinou, durante a tarde de domingo, no corintiano Parque São Jorge. O relógio já passava das 22h45 quando o avião colorado finalmente partiu rumo à nação norte-americana. Na bagagem, junto das energias positivas irradiadas pela torcida, o técnico Celso Roth levava séria interrogação. Sem Tinga, suspenso após injusta expulsão diante do São Paulo, o comandante teria de escolher um único substituto entre Andrezinho, Giuliano e Wilson Mathias. A final estava cada vez mais próxima!

“Estamos concentrados para este confronto. O pensamento é de retornar para Porto Alegre com um resultado positivo. Todos aqui sabem da relevância que tem levantar uma taça como essa”

Renan, durante a viagem


Desafio sintético


Construir uma grande atuação na finalíssima não era tarefa simples. Embora as coincidências entre as campanhas de 2010 e 2006 servissem de alento, diversas novidades inusitadas perturbavam o sono da torcida colorada. No México, o Inter encararia, no Estádio Omnilife, o desafio de atuar em gramado sintético. Também por isso, o Clube do Povo obteve, junto à CBF, o adiamento de sua rodada do final de semana válida pelo Brasileirão. Assim, ganhava mais tempo para se adaptar às exigências do piso guadalajarense.

Verdade seja dita, afora o gramado o Inter não tinha motivos para reclamar do palco da partida. Moderno, aconchegante e muito bonito, o Estádio acabara de ser inaugurado. O duelo entre Colorado e Chivas, inclusive, seria apenas o segundo da história do Omnilife, sucedendo o inaugural amistoso disputado pelo time da casa contra o Manchester United. Ocorrido no dia 30 de julho, o festivo embate foi encerrado com triunfo local por 3 a 2.

O Inter teve seu primeiro contato com o tapete mexicano no dia 9 de agosto, data em que comemorava quatro anos da inesquecível vitória sobre o São Paulo, no Morumbi, conquistada na abertura da decisão da Libertadores de 2006. No Omnilife, Celso Roth comandou treino em campo reduzido, dividindo o grupo em três times. Um dia depois, o Clube do Povo encerrou a preparação para o duelo diante do Chivas com novas atividades realizadas no palco da final. Faltavam míseras 24 horas para o confronto.


Rival mobilizado


Hoje, a humanidade encara com braveza e mobilização a pandemia de Covid-19. Inimigo invisível, o novo coronavírus já vitimou mais de 730 mil vidas, uma centena de milhares apenas no Brasil. Sem precedentes na história recente da humanidade, a doença tem revolucionado o modo de vida das mais diversas sociedades. Há 11 anos, contudo, o México também encarava grave crise sanitária, esta causada por uma epidemia, localizada, mas também aterrorizante, de Febre Amarela.

Chivas na Libertadores de 2010/Foto: Divulgação, MedioTempo

O caos na saúde do país obrigou Chivas e San Luis, as equipes mexicanas presentes nas oitavas de final da Libertadores de 2009, a abandonarem o torneio. Como contrapartida, estas receberiam vaga para a mesma fase da competição no ano seguinte. Desta forma, o time de Guadalajara disputou apenas seis partidas continentais antes de chegar à decisão contra o Inter.

No caminho até a final, os comandados de José Luis Real superaram, respectivamente, Vélez Sarsfield, da argentina, Libertad, do Paraguai, e os chilenos da La U, comandada por Jorge Sampaoli. Assim, descansado e credenciado por breve – e brava – campanha, o adversário colorado chegava ao último capítulo de luta pela taça.

Federado à CONCACAF, o norte-americano Chivas Guadalajara sabia que, mesmo triunfo sobre o Inter, não garantiria vaga no Mundial de Clubes. Integrante da CONMEBOL, portanto, o Clube do Povo já tinha participação assegurada no maior torneio interclubes do planeta. A impossibilidade de disputar o certame internacional, todavia, em nada diminuía a empolgação dos mexicanos, que sonhavam dia e noite com a taça da Libertadores. No país, o adversário colorado contava com a simpatia da maioria dos rivais, assumindo-se, assim, enquanto representante de todo o México.

“O campo deixa a bola rápida e eles têm a velocidade como principal característica.”

Alecsandro, em Guadalajara

Dentro de campo, eram muitas as armas do adversário. Forte no contra-ataque, o Chivas estava invicto no segundo semestre de 2010, e contava com os ameaçadores Bautista e Omar Bravo na linha de frente. Vivendo bom momento, a equipe estaria apoiada por mais de 50 mil pessoas, multidão que prometia atordoar as tramas coloradas. Um duelo inesquecível, sem sombra de dúvidas, estava por começar.


Futebol solto para libertar a América


No gol, pela terceira vez consecutiva na Libertadores, Renan. Em frente ao arqueiro, Nei ocupava a faixa direita, Kléber a esquerda e Bolívar e Índio o centro. Abrindo o meio de campo, Sandro e Guiñazú, afinados como poucos volantes estiveram na história colorada, davam tranquilidade à defesa e, simultaneamente, sustentação ao ataque.

Pela direita da linha de três meio-campistas, D’Alessandro vestia a 10. No flanco esquerdo, Taison levava a 7. Por dentro, substituindo Tinga e dando fim ao mistério, Giuliano empunhou a 11. Completando o escrete escalado por Celso Roth, Alecsandro, com a 9, entrava em campo pela 100ª vez com o manto alvirrubro. O Inter estava pronto para a decisão!

Os 11 heróis de Guadalajara/Foto: Divulgação

O Inter começou a partida controlando a posse de bola. Quando não tinha controle sobre a redonda, a equipe colorada encurralava o Chivas, impedindo aos mandantes o direito de trocar mais de três passes. Visivelmente, os dois dias de trabalhos no gramado sintético surtiam efeito na mecânica do Clube do Povo, que não sofria com os distintos piques e velocidade tomados pela bola no piso do Omnilife.

Como de costume, D’Alessandro coordenava cada movimento da região nevrálgica colorada. Afinado com Giuliano, alternava entre o flanco direito e a zona central, construindo combinações tanto com o camisa 11 quanto com Nei. Pela esquerda, Taison e Kleber exibiam entrosamento cada vez maior. Veloz e dono de grande habilidade para o drible, o jovem atacante caía com frequência sobre a linha lateral, abrindo vazio perfeito para as infiltrações do construtor companheiro canhoto. Exatamente a partir de tabela da dupla, o Inter criou, aos 4, a primeira chance da noite. Lançado pelo 7, o lateral invadiu a área e finalizou aberto. A bola explodiu no poste e saiu pela linha de fundo!

“Realmente estou muito motivado. Foi muito bom ter chegado a um clube como o Internacional, que sempre está disputando títulos. Meu pensamento é de retribuir isso sagrando-se campeão contra o Chivas. Quero saber qual é o gosto de vencer uma Libertadores.”

Não existia porquê o Inter adotar postura descontrolada no ataque. Contando com jogadores de altíssimo quilate, o Clube do Povo podia se dar ao luxo de dominar a partida sem a necessidade de imprimir ritmo excessivamente intenso. Atuando em casa, o Chivas sabia da importância de largar em vantagem e, esperava-se, cederia espaços em busca de um gol. Assim, o Colorado tratava de cozinhar o jogo, não oferecendo qualquer espaço para os mexicanos, e aguardar pela escapa fatal, que quase chegou aos 28.

Taison, Alecsandro e Giuliano trocaram passes em velocidade para chegar às cercanias da área mexicana. Na altura da meia-lua, o camisa 7 recebeu do centroavante e driblou Reynoso, capitão do Chivas. A cria do Celeiro, porém, não conseguiu finalizar a jogada devido a carrinho do zagueiro rival.

Falta perigosa, foi cobrada, com grande precisão de parte do camisa 9, direto no travessão do goleiro Luis Michel. Perceptível no banco de reservas colorado, a lamentação ficou ainda maior depois que Alecsandro sentiu lesão muscular e precisou ser substituído. Em seu lugar, veio Everton a campo.

Alecsandro participou ativamente dos 30 minutos que disputou da partida/Foto: Divulgação

Inalterado o panorama da partida permaneceu até os minutos finais do primeiro tempo. Percebendo que o corredor esquerdo vinha rendendo grandes frutos ao Colorado, Giuliano passou a construir, pelo flanco, dobradinha tão insinuante quanto a que possuía ao lado de D’Ale. Aos 41, foi exatamente o camisa 11 quem, de calcanhar, acionou Kleber. Rente à linha de fundo, o lateral teve tempo para dominar, pensar e, passados bons segundos, cruzar bola açucarada para Taison, que chegou cabeceando. Batido no lance, o goleiro muito comemorou o corte providencial de seu zagueiro.

Pouco depois, aos 45, Bautista, até então sumido no jogo, anulado por excelente marcação individual de Sandro, recebeu cruzamento da direita e, por cobertura, marcou de cabeça. Criminosa injustiça, a bola na rede foi a única de um primeiro tempo marcado por supremacia total alvirrubra. Para a etapa final, seria necessário manter o controle da partida, é claro, mas revolucionar a postura na linha de frente. Mais do que ingrato, o revés era inaceitável.


Virada absoluta


O gol não abalou o Inter. De volta para o segundo tempo com os mesmos 11 nomes que encerraram a etapa inicial, o Clube do Povo finalizou pela primeira vez, com Giuliano, logo aos 50 segundos. Menos de cinco minutos depois, o talismã colorado na Libertadores de 2010 derivou do centro para a direita e, lançado por Nei, cruzou, já dentro da área, rasteiro. Antes de Everton, Luis Michel foi ao chão para defender.

Mais ofensivo, o Inter também passou a correr maiores riscos na defesa. Aos 9, por exemplo, Omar Bravo, jogador que marcou época na Seleção Mexicana, pegou a sobra de corte parcial e, de fora da área, chutou cruzado. A bola assustou Renan, mas saiu em tiro de meta. Taticamente, Roth inverteu Giuliano e D’Ale, acrescentando velocidade ao corredor direito e maestria à zona central. Responsável também pelas bolas paradas, o craque e camisa 10 colorado aplicou lindo La Boba, aos 12, e cruzou para o 11, que testou por cima. A dupla, ficava claro, começava a assumir, no lugar do flanco esquerdo, o protagonismo das tramas ofensivas alvirrubras.

O Chivas cresceu no jogo ao longo da segunda dezena de minutos da etapa final, aumentando seu percentual de posse de bola e, especialmente, a frequência com que ocupava a intermediária ofensiva. Maduro, o Inter respondeu com precisão milimétrica à simpatia dos mexicanos pelo jogo. Primeiro, aos 23, D’Ale mandou um canhotaço que tirou tinta do travessão rival. Depois, aos 26, Sobis entrou na vaga de Everton. A alteração, registre-se, aconteceu imediatamente após excelente cruzamento de Kleber passar reto pelo atacante, que mais cedo entrara na vaga de Alecsandro, e por Giuliano. A sorte, contudo, não voltaria a sorrir para os rivais daquela noite.

Rafael Sobis é um legítimo Senhor Libertadores. Revelado pelo Celeiro de Ases, o atacante conhece os atalhos da competição como poucos. Vestindo a camisa colorada, então, torna-se fatal especialista. Em sua primeira participação no confronto, o camisa 23, caindo pela direita, recebeu arremesso lateral de Nei. Genial, demonstrou a mesma sagacidade que exibira na primeira partida da decisão de 2006, contra o São Paulo, para matar dois marcadores com imprevisível corta luz.

Com espaço, o menino de Erechim avançou para as proximidades da grande área, cortou para dentro e, de trivela, inverteu jogo com o Guiñazú, livre. De Cholo ela seguiu até Kleber, que cruzou da altura da quina do retângulo mexicano. Açucarada, a bola encontrou a cabeça de Giuliano, posicionado exatamente sobre a marca do pênalti. Desta vez, ele não perdoou. Desta vez, o talismã artilheiro mandou testaço preciso para as redes guadalajarenses. Tudo igual no Omnilife!

Giuliano? Empatou/Imagens: Rede Globo

O empate devolveu ao Inter a tranquilidade exibida na etapa inicial. Somava-se agora, ao jogo de autoridade desempenhado pelo Colorado, o brilho de Sobis. Atuando como referência no ataque, mas tendo a costumeira liberdade para se movimentar e fazer combinações com Taison, o ídolo vermelho tabelou, aos 29 minutos, com outra divindade de nossa história. D’Alessandro, também centralizado, recebeu do parceiro e percebeu Giuliano na direita. O camisa 11 dominou, costurou, esperou e, na hora certa, soltou para Nei, que somente deixou de invadir a área por conta de puxão do lateral Fabián. Falta, quase pênalti, em favor do Clube do Povo.

Responsável pela cobrança, D’Ale, tirando proveito do ângulo ideal para uma batida fechada, tentou cobrar direto. Reboteada pela barreira, a posse retornou ao domínio do 10 colorado. Na quina da grande área, como também estivera Kleber mais cedo, mas agora pela direita, o craque, danado, usou do La Boba para ganhar espaço.

Com o drible, abusou da precisão de sua canhota. Aberto, o cruzamento encontrou Índio que, de cabeça, serviu Bolívar. Entre o retângulo menor e a marca do pênalti, o capitão alvirrubro, como se fora um centroavante, desferiu inesquecível peixinho. Afobado em sua saída de gol, o arqueiro nada pôde fazer. Picando, a bola beijou as redes do Chivas. Virávamos.

Bolívar, de sua parte, virou/Imagens: Rede Globo

A caminhada do Colorado como visitante na Libertadores de 2010 servia, até aquele momento, de antítese perfeita à impecável campanha construída pelo Clube do Povo no Beira-Rio. O Inter, nas seis jornadas que disputara longe do Gigante, ainda não conquistara triunfo algum. Motivo para nervosismo? Não ao calejado elenco alvirrubro, que, demonstrando péssimos modos, impediu qualquer novo sorriso dos donos da casa. Os 15 minutos finais correram rapidamente. Apenas as faltas cavadas pelo impiedoso D’Alessandro, ou a entrada de Wilson Mathias, na vaga de Taison, interromperam o correr da bola. Nervoso, o Chivas não conseguia assimilar a virada alvirrubra. Em um piscar de olhos, de vencedores passaram ao posto de vencidos.

“Tivemos muita disposição e qualidade. Mesmo jogando fora de casa, conseguimos criar muitas oportunidades. Agora vamos fazer um bom jogo no Beira-Rio para fechar a campanha com chave de ouro”

Bolívar, após a partida

O terceiro dos últimos três sopros de apito desferidos pelo argentino Héctor Baldassi chegou aos 47 minutos e 58 segundos. O estridente som, muito comemorado, oficializou mais uma coincidência entre as histórias de nossas conquistas continentais. De novo, vencíamos os primeiros 90 minutos da decisão. Uma vez mais, fora de casa. Novamente, por 2 a 1. Para encerrar a lista de encontros, restava, apenas, a taça. Ansiosas as noites que dormimos até a chegada dela. Em uma semana o Beira-Rio ergueria, uma vez mais, o principal troféu da América do Sul.

No horizonte colorado, despontava um Beira-Rio lotado e um continente por ser liberto/Foto: Ricardo Duarte

A segunda epopeia continental no Morumbi

O Inter é um gigante do futebol brasileiro. Como tal, exibe rica história em diversos estádios míticos de nosso país, não restringindo sua magnificência ao Gigante, templo que há 51 anos serve de casa ao Clube do Povo. Dentre os muitos palcos que já testemunharam epopeias coloradas, provavelmente o Cícero Pompeu de Toledo seja o mais habituado a reverenciar esquadrões alvirrubros. O apelido da cancha, que muitas vezes já virou Beira-Rio? Morumbi.

Em 1979, por exemplo, Falcão comandou atuação magistral do Time que Nunca Perdeu e, com dois gols, garantiu vitória de 3 a 2 na partida de ida das semifinais nacionais. Já no século XXI, o primeiro a brilhar Sobis, outra cria do Celeiro, responsável por costurar, no gramado paulista, as veias abertas do continente que estava prestes a libertar. Quatro anos depois, no mesmo endereço, o Inter viveu novo capítulo marcante de uma biografia bicampeã da América. No dia 5 de agosto de 2010, o Clube do Povo eliminava o São Paulo e avançava à decisão da Libertadores.


As vantagens coloradas


O Clube do Povo partiu para São Paulo em vantagem na briga por vaga na decisão da Libertadores. No dia 28 de julho, diante de um Beira-Rio lotado, o Colorado superara os visitantes por 1 a 0, gol de Giuliano. Embora positivo, o resultado não deixou de ser lamentado por parte da Maior e Melhor Torcida do Rio Grande. Afinal de contas, o Inter, dono do jogo, fizera por merecer escore ainda mais folgado.

De todo modo, a exemplo do que ocorrera na fase de quartas de final, diante do Estudiantes, o elenco alvirrubro partia para os últimos 90 minutos com a possibilidade de jogar pelo empate. Desta vez, esperava-se, apenas o sofrimento poderia ser menor. Contra os argentinos, o gol da classificação saiu aos 43 da etapa final, quando a torcida da casa já comemorava vitória por 2 a 0 e consequente classificação.

Entre os duelos de ida e volta contra o São Paulo, o Clube do Povo disputou, no Beira-Rio, Gre-Nal válido pelo Campeonato Brasileiro. Se a torcida já demonstrava grande simpatia pela superstição de, uma vez mais, encarar o tricolor paulista na caminhada rumo ao topo do continente, enfrentar o maior rival em meio a uma semifinal de Libertadores apenas aumentava a lista de coincidências entre a campanha de 2010 e a campeã em 2006.

Antes de encarar os últimos 90 minutos de duelo contra o Libertad, o Inter também havia enfrentado, há quatro anos, no Beira-Rio, seu maior rival. Igualmente válido pelo Nacional, o clássico, marcado por vexatório tumulto da torcida visitante, fora encerrado sem gols. Em 2010, o roteiro, dentro de campo, foi idêntico.

Encerrando os encontros de passado com presente, o povo colorado recebeu maravilhosa notícia no segundo dia do mês de agosto. Após uma verdadeira corrida contra o tempo, simbolizada em dias de intenso trabalho, o ídolo Tinga, completamente recuperado de edema na coxa direita, voltou aos treinamentos. À disposição, o meio-campista poderia reencontrar a vítima de seu único gol na Libertadores de 2006, tento que valeu o título para o Inter. Repatriado ainda no mês de maio, o agora camisa 16 havia esperado quase dois meses para ter sua situação regularizada e, assim, reestrear com o manto vermelho. Fulminante, logo construiu atuações de alto nível, suficientes para rapidamente torná-lo titular. Na última partida antes do confronto de ida da semifinal, contudo, sofreu a lesão. Sedento, ao retornar credenciava-se ao posto de arma secreta de Celso Roth.

“Sempre vão ter as comparações com 2006, mas a gente que está envolvido sabe que são situações diferentes. Agora é semifinal. Mudam os jogadores, e, também, as situações.”


Injusta etapa inicial


Foto: Mauro Horita/Site São Paulo

O Clube do Povo não alimentou mistério algum para o duelo frente aos paulistas. A escalação para o Morumbi, era certo, praticamente replicaria o escrete que atuou no Beira-Rio. A única mudança, é claro, ficava por conta de Tinga, titular na vaga de Andrezinho. O camisa 16 ocuparia a faixa central da trinca de meio-campistas que formavam o 4-2-3-1 colorado. Pela direita, teria a companhia de D’Ale. Na esquerda, Taison. O comando de ataque, uma vez mais, ficaria a cargo de Alecsandro, enquanto Sandro e Guiñazú garantiriam segurança na volância. Na retaguarda, o goleiro Renan contaria com a proteção dos laterais Nei e Kleber e dos zagueiros Índio e Bolívar.

A ausência de incertezas quanto à formação vermelha, todavia, passava longe de significar desmobilização para o duelo decisivo. Horas antes do confronto, que tinha início previsto para as 21h50, a logística colorada já marcava presença no vestiário paulista. Desta forma, quando os jogadores desembarcassem, encontrariam toda a parte de rouparia, massagem e relaxamento muscular a postos. Entre os responsáveis por preparar a estrutura estava o histórico roupeiro Gentil Passos, aniversariante do dia, que sonhava com uma vitória de presente.

“Nem vou ver o jogo, nunca saio do vestiário. Vou tentar sintonizar no radinho. Em 2006, olhei pela janelinha e só consegui ver a rede balançando no gol do Sobis!”

Foto: Divulgação

As mudanças verdadeiramente intensas aconteceram no time de Ricardo Gomes. Em um Morumbi lotado, o São Paulo foi a campo com Rogério Ceni; Jean, Alex Silva, Miranda e Júnior César; Rodrigo Souto, Cléber Santana, Hernanes e Fernandão; Dagoberto e Ricardo Oliveira. No lugar do 3-5-2 da partida de ida, esquema que facilmente se convertia em um compacto 5-4-1, o tricolor paulista apostava num losango de meio-campistas. Fernandão, ídolo colorado, ocupava o vértice superior, encostando na forte dupla de ataque.

Foto: Jefferson Bernardes

O confronto, vale destacar, carregava um incremento especial. Além de garantir vaga na decisão da Libertadores, quem avançasse entre Inter e São Paulo estaria, também, assegurado no Mundial de Clubes da FIFA. Isto porque o Chivas, já finalista, não poderia, enquanto time mexicano, representar a CONMEBOL no torneio. A vitória, portanto, tornava-se ainda mais cobiçada pelo time da casa, que tentou pressionar desde o primeiro apito. A principal aposta dos paulistas, como não poderia deixar de ser, residia nos lançamentos para Ricardo Oliveira e Fernandão, acreditando no pivô destes para a velocidade de Dagoberto, geralmente presente no corredor esquerdo.

Pressionar o Inter não era tarefa simples. Bem postado na defesa, o Colorado contava com um trio de grande estatura para lutar nas bolas alçadas. Índio, Bolívar e Sandro dominaram o jogo, garantindo segurança para a retaguarda vermelha. Com a bola no pé, D’Alessandro iniciou a partida extremamente tranquilo, e muito se aproximou de Tinga para garantir o maior tempo possível de posse de bola. A maturidade visitante irritou o São Paulo, que cometeu faltas em excesso ao longo dos minutos de abertura do confronto. A mais perigosa delas, aos oito, foi cobrada com veneno pelo camisa 10 alvirrubro, exigindo, de Ceni, a primeira defesa da noite.

Camisa 9 autor de gols fundamentais para o Inter ao longo da campanha, Alecsandro deu as caras pouco depois. Aos 14 minutos, o centroavante, posicionado na intermediária, ficou com a segunda bola de disputa entre Tinga e Miranda. Habilidoso, dominou com a parte externa do pé direito, de chaleira, ajeitou na coxa e, quando sentiu a aproximação de Cléber Santana, aplicou um chapéu. Livre, dominou adiantando a esférica e, apesar da distância, arriscou. Chute forte, no ângulo, foi defendido, em dois tempos, por Rogério.

O São Paulo chegou pela primeira vez aos 15, com Hernanes. Aberto na direita, o camisa 10 recebeu bom passe de Cléber Santana e, aproveitando o ângulo favorável ao chute de direita, testou. Sem direção, a bola saiu em tiro de meta para Renan. A resposta do Inter veio seis minutos depois, com Taison. O camisa 7 foi servido por linda escorada de Tinga, que tabelara com D’Alessandro, e, em velocidade, cortou da esquerda para o centro antes de finalizar forte, rasteiro. Ceni, mais uma vez, salvou, agora espalmando para o lado.

Com o passar do tempo, no duelo da imposição física paulista com o equilíbrio técnico e emocional colorado, o lado gaúcho começava a se sobressair. Aos 24, o nervosismo mandante afetou o próprio goleiro da casa, até então principal nome do duelo, que errou na saída de bola e ofereceu boa oportunidade para Tinga. A recuperação do arqueiro veio com novo milagre providencial. Recém-recuperado de lesão, o camisa 16 alvirrubro atuava, sem a bola, como um segundo atacante, enquanto D’Ale, em melhores condições físicas, era o responsável por fechar o corredor direito e estruturar duas linhas de quatro. Lotado, o Morumbi, quatro anos depois, voltava a silenciar diante da festa do povo vermelho.

De fato, o futebol é uma caixinha de surpresas. Ineficaz em suas repetitivas bolas alçadas para a área, o São Paulo parecia entregue na partida. Apenas um lance isolado poderia alterar o panorama do confronto. E ele aconteceu aos 30. De muito longe, Hernanes cobrou falta com força, nas mãos de Renan.

O goleiro colorado, que vinha construindo atuação segura no confronto, não conseguiu encaixar. A bola, então, espirrou para trás e sobrou, açucarada, com o zagueiro Alex Silva, que somente cabeceou em direção às desprotegidas redes do Inter. Por ora, o duelo seguiria aos pênaltis.


Reinício quase perfeito


Fora de campo, o gol tricolor alterou o som ambiente do Morumbi, que voltou a conviver com a cantoria paulista. Dentro das quatro linhas, porém, a fatalidade não abalou a excelente exibição do Clube do Povo, que quase empatou aos 40, em falta muito bem cobrada por D’Alessandro. O lance foi o último de perigo ocorrido na etapa inicial, encerrada com o 1 a 0 no placar. Breve foi o intervalo, sucedido por fulminante segundo tempo.

Foto: Jefferson Bernardes

Taison surgiu para o futebol carregando o DNA do Celeiro de Ases nas velozes pernas. Talhado para encarar momentos de pura tensão com a típica leveza dos craques, irritava marcadores inocentes que incompreendiam a hierarquia exercida pelo jovem camisa 7 dentro de campo. Como você dominaria, por exemplo, sob intensa vaia de 60 mil gargantas paulistas, lançamento espirrado pela defesa adversária? O pelotense colorado apostou na mesma inteligência que demonstrava nos gramados de sua cidade natal. Marcado pelo selecionável Miranda, chamou o beque para dançar. Primeiro, escapou conduzindo da perna direita para a esquerda. Ainda perseguido, girou para fora. Estonteado, o zagueiro atropelou o inquieto malabarista da bola. Falta boa, ainda melhor para um time que conta com Andrés Nicolás D’Alessandro.

“Na primeira falta que cobrei na partida, vi que o Rogério Ceni se movimentou para o lado antes de eu bater. Na segunda vez, resolvi chutar onde ele estava, para ver se o enganava. Mas é claro que o toque do Alecsandro foi fundamental

Existiam bons metros de distância entre D’Ale e o gol. A barreira, para se ter ideia, estava posicionada na altura da meia-lua, levemente deslocada para a esquerda. Dentro da área, quatro jogadores colorados e cinco paulistas atrapalhavam a visão de Ceni. Inteligente, o camisa 10 cobrou, com força, exatamente na direção deste bolo de atletas.

Intocável em sua trajetória até a marca do pênalti, a bola encontrou o artilheiro calcanhar do iluminado camisa 9 colorado. Em um ato de puro reflexo, mas também genialidade, Alecsandro desviou a trajetória da esférica, que fugiu do desesperado braço de Rogério Ceni. Desonesta, ela voou até a bochecha direita da meta tricolor. Tudo igual no Morumbi. Para perder a vaga, o Inter precisaria sofrer mais dois gols. Tranquilidade? Não na campanha da Libertadores de 2010.

Foto: Jefferson Bernardes

O empate do Clube do Povo saiu aos 6. Dois minutos depois, Ricardo Oliveira marcou o segundo dos paulistas. A vaga ainda era do Inter. O difícil? Aguentar mais 40 minutos abraçado a ela. Era hora de fazer história, e o Clube do Povo partiu rumo à eternidade com os pontas invertidos. Na esquerda, passou a atuar D’Ale. Em velocidade, quem atacava a direita era Taison. Pelo meio, Sandro, Guiña e Tinga não deixavam o São Paulo criar expectativas. Os minutos que sucederam o tento dos donos da casa, inclusive, comprovam.


Teste para cardíaco


Aos 18, D’Alessandro lançou magistralmente Sandro. Dentro da área, o camisa 8 rolou para trás e encontrou Tinga, de frente para o gol aberto. Entre ele e as redes, apenas Jean. Com a canhota, o camisa 16 carimbou a mão do rival. Que chance desperdiçada; que pênalti ignorado! No minuto seguinte, Hernanes foi acionado por Dagoberto, cortou para a esquerda, dela para a direita e soltou o canudo. Por cima, por pouco. A cada volta do cronômetro, a tensão aumentava. Os erros, também. Quando o relógio marcava 32 minutos, Fernandão recebeu cruzamento milimétrico, mas falhou na hora de executar o testaço. De leve, triscou na bola e viu ela atravessar toda a extensão da meta alvirrubra sem encontrar desvio em mais ninguém. Logo depois, Tinga derrubou Júnior César e recebeu o amarelo, seu segundo no jogo. Era expulso, como em 2006. Incrédulo, apenas pediu desculpas para a torcida, que apoiou o ídolo, mais uma vez injustiçado diante de paulistas.

Apesar da expulsão, Roth não mudou o time. O comandante, que acabara de alçar Giuliano no lugar de D’Ale, conseguiu organizar a equipe sem promover nova alteração. A segunda linha de quatro, formada pelos meio-campistas, agora contava com o talismã camisa 11 pela esquerda e o incansável Taison na direita. Internamente, Sandro seguia equiparando o vigor físico de Fernandão e Ricardo Oliveira, enquanto Guiñazú converteu-se em um leão. O gringo, habituado a correr por dois, aumentou ainda mais de intensidade. Rei nos desarmes, não hesitou em compensar a ausência de Tinga ocupando espaço no campo ofensivo. Com a bola, construiu importantes tabelas junto de Alecsandro, que cavava faltas preciosas para o Inter e irritantes ao São Paulo.

A segunda troca no Inter ocorreu apenas aos 44 minutos. Segundos antes, Fernandinho havia cruzado perigosa bola rasteira que Ricardo Oliveira desviou, na pequena área, de letra. O lance, bloqueado por Índio, cobrou reação do técnico vermelho, que colocou Wilson Mathias na vaga de Taison. Àquela altura, o São Paulo já contava com Marlos, Marcelinho Paraíba e Fernandinho, novidades que substituíram, respectivamente, Cléber Santana, Rodrigo Souto e Dagoberto.

Foto: Jefferson Bernardes

Experiente, o camisa 7 colorado deixou o campo abraçado em Carlos Amarilla, árbitro que até tentou apressar o jovem atacante, mas acabou cedendo à simpatia do craque. A última chance paulista aconteceu já nos acréscimos, quase aos 47. Neste instante, Hernanes cruzou para corte difícil de Renan, que mandou pela linha de fundo. Na cobrança do escanteio, Rogério Ceni cometeu falta no arqueiro vermelho. Finalmente, a Maior e Melhor Torcida do Rio Grande respirava. Cobrada a irregularidade, o jogo estava encerrado.

“É muito empolgante! Todos aqui merecem, essa equipe batalhou muito durante o primeiro semestre. Perdemos o estadual, mas sabíamos que esse título é o importante. Rumo ao México, rumo ao título. Este é o nosso grande objetivo.

Encerrada a partida, a festa, iniciada no campo e na arquibancada, prosseguiu nos vestiários do Morumbi. Classificado para o Mundial, o Inter estava a duas partidas de reconquistar a América. Em 14 dias poderíamos colorir, uma vez mais, o continente com a cor que melhor lhe veste. Faltava pouco para um elenco calejado em superação e sofrimento ser campeão. Eram vários os heróis que mereciam a taça. Naquele dia 5 de agosto, contudo, o principal nome da noite não havia entrado em campo.

O grupo colorado dedicou a vitória, de maneira unânime, para um ídolo dos bastidores alvirrubros. Completando 54 anos de vida na data, dos quais 36 haviam sido dedicados ao Clube do Povo, Gentil Passos foi o homenageado pelos atletas. Arremessado para o alto, teve seu nome ovacionado por toda a delegação vermelha e, assim, pôde comemorar os últimos segundos de seu dia como o herói que é para todos que vivem o Inter. Há 10 anos, o aniversariante digeria, como toda a torcida, a mais doce de nossas derrotas. Há 10 anos, seguíamos caminhando rumo ao título.

Vantagem de fogo: com show da torcida, há 10 anos Inter vencia o São Paulo nas semis da Libertadores

Dono de um elenco formado por jogadores selecionáveis e abrilhantado por nosso Eterno Capitão, o adversário era tido como favorito. Responsável por construir a segunda melhor campanha da fase de grupos, ele teria a vantagem de decidir em seus domínios a vaga para a final. Cenário, para muitos, completamente adverso. Para o Inter, motivador. Apostando na força de nossa casa, explorando a qualidade de um grupo sedento pela América e abusando das superstições, largamos na frente no caminho rumo à decisão. Há 10 anos, Clube do Povo e São Paulo abriam as semifinais da Libertadores!


A Campanha colorada


O Colorado construiu campanha segura nos grupos da América. Invicto, conquistou três vitórias sob o comando de Jorge Fossati, além de empatar as rodadas que disputou fora de casa. Com 12 pontos, avançou para as oitavas, quando sofreu o primeiro baque – duro.

O Inter abriu a fase eliminatória encarando o Banfield, fora de casa. No alçapão Florencio Sola, os mandantes, beneficiados por seguidos erros de arbitragem, marcaram três vezes, mas Kleber, que depois seria injustamente expulso, anotou valioso gol para o Colorado. Assim, embora retornasse a Porto Alegre na obrigação de triunfar, o Clube do Povo poderia garantir a vaga com uma nem tão improvável vitória por 2 a 0 – exatamente o que aconteceu. Regido por D’Alessandro, o Beira-Rio explodiu com Alecsandro, no primeiro tempo, e Walter, no início da etapa final, para comemorar, em êxtase, a classificação para as quartas.

A luta por vaga entre as quatro melhores equipes do continente foi aberta no Beira-Rio. De um lado, o Inter, embalado pela recente classificação. Do outro, o Estudiantes, atual campeão da América. Reedição da final da Sul-Americana de 2008, torneio vencido pelo Clube do Povo, o confronto foi encerrado, em seus 90 primeiros minutos, com triunfo alvirrubro. Já nos instantes finais, Sorondo marcou, de cabeça, o único gol da noite gaúcha.

Na semana seguinte, o Estádio Centenário, em Quilmes, recebeu a partida de volta. Incendiado por sua torcida, o Estudiantes adotou postura agressiva desde o apito inicial e, liderado por Verón, conseguiu abrir 2 a 0 antes dos 25 minutos de jogo. O resultado foi mantido, mais uma vez, até os últimos instantes, iludindo a torcida da casa, que com sinalizadores festejava a iminente classificação. Para a infelicidade destes, porém, Walter, após dominar lançamento de Abbondanzieri, aguardou a chegada de um segundo marcador para lançar Andrezinho. Inteligente, o meia se livrou de adversário e ganhou espaço para pensar, ao mesmo tempo em que Giuliano se projetou sobre a retaguarda rival. Percebido, o talismã recebeu a assistência e, no meio da neblina de fogos de artifício, iluminou o caminho colorado rumo ao topo da América. Gol do Inter, vaga também!


Novo semestre, velhos conhecidos


Em virtude da disputa da Copa do Mundo da África do Sul, a Libertadores foi paralisada após o encerramento da fase de quartas de final, ocorrido ainda em maio. A retomada da competição, principal do continente, levaria mais de dois meses para acontecer. Antes do Mundial, cinco rodadas do Brasileirão ainda seriam jogadas, sequência que, nos arredores do Beira-Rio, era tida como fundamental para dar continuidade ao embalo do elenco alvirrubro. As expectativas, todavia, foram frustradas e, como consequência, Jorge Fossatti deixou o comando do Clube do Povo. Em seu lugar, assumiria Celso Roth.

O novo comandante foi oficialmente anunciado em 12 de junho, apenas seis dias após a disputa da rodada anterior à Copa do Mundo. Pouco depois, no dia 18, o elenco colorado se reapresentou para dar início à intertemporada. Entre os atletas, três reforços chamavam a atenção: Oscar, promessa vinda do São Paulo, e os velhos conhecidos Renan, goleiro, e Tinga, meio-campista. Oxigenado, o grupo ainda receberia, no mês de julho, outro jogador que já ostentava linda história no Clube do Povo. Rafael Sobis, grande herói da vitória por 2 a 1 sobre o São Paulo, na abertura da decisão da Libertadores de 2006, retornou ao Inter ansioso para conquistar o Bicampeonato.

Encorpado por Sobis e Tinga, o Inter passava a contar com praticamente todos os atletas que haviam marcado na decisão de quatro anos antes. Restava “apenas” Fernandão, atacante que também iria a campo nas semifinais continentais. Desta vez, para enfrentar o Colorado, integrando o poderoso elenco do São Paulo. Ao seu lado estavam nomes como Dagoberto, Marlos, Hernanes, Richarlyson, Miranda, Cicinho, Rogério Ceni, Alex Silva, Jorge Wagner e Ricardo Oliveira.

O Tricolor paulista gozava de grande prestígio junto à crítica nacional. Após encerrar a fase de grupos com a segunda melhor campanha da Libertadores, somando 13 pontos de 18 possíveis, a equipe do Morumbi eliminou, nas oitavas, o Universitário-PER, embate decidido nas penalidades. A vítima seguinte foi o Cruzeiro, que sucumbiu tanto no Mineirão, quanto na capital paulista, ambos confrontos finalizados em 2 a 0 para o São Paulo. Um grande duelo, portanto, despontava no horizonte.


Julho otimista


O Inter voltou aos gramados em grande estilo. Antes de entrar em campo pela Libertadores, o Clube do Povo, que durante a intertemporada conquistara, sobre o Peñarol, a Taça Fronteira da Paz, encarrilhou quatro vitórias consecutivas no Campeonato Nacional. A primeira vítima foi o Guarani, seguido por Ceará, Atlético Mineiro e, enfim, Flamengo. Dos triunfos, dois aconteceram no Beira-Rio, enquanto Galo e Bugre foram derrotados em seus domínios.

Os resultados positivos consagraram as alterações realizadas na equipe titular, motivando os jogadores a acreditarem no novo trabalho. A variação de esquemas, por exemplo, antes regra, foi abandonada. No lugar da alternância entre três zagueiros, fora de casa, e duas linhas de quatro, no Beira-Rio, o Inter se aproximou de uma grande tendência que começava a surgir no futebol do início dos anos 2010: o 4-2-3-1. Taison, que após um 2009 de altíssimo nível vinha figurando no banco de reservas, ganhou nova chance entre os 11 iniciais, agora atuando pela esquerda. Na função, foi eleito o melhor jogador contra Guarani e Flamengo, partidas nas quais também balançou as redes.

Tinga também ganhou minutos na região central, valiosos para estabelecer entrosamento com D’Alessandro, o maestro do time, encarregado de circular entre o meio e, principalmente, a direita, seu corredor preferido. Na frente, Alecsandro foi mantido, enquanto Índio, na zaga, ganhou, em definitivo, o lugar de Sorondo, lesionado. Por fim, Renan garantiu, no final de semana anterior à jornada continental, a titularidade da meta colorada.

Tradicionais na história alvirrubra, as peças pregadas pelo destino se fizeram presentes antes da abertura das semifinais da América. Arrasador, Tinga parecia ser o titular necessário para o Clube do Povo encarar o São Paulo. A 10 minutos do fim do duelo contra o Flamengo, contudo, o meio-campista precisou ser substituído com dores na perna direita. Constatado edema na coxa, virou desfalque para o embate continental. As atenções, assim, voltavam-se ao trio Giuliano, Wilson Mathias e Andrezinho. Afinal de contas, quem iniciaria a jornada diante dos paulistas?


As Ruas de Fogo


Porto Alegre jamais havia presenciado festa igual à organizada pela torcida colorada naquele mágico 28 de julho. Decidido a jogar com o Inter desde muito antes do primeiro apito, o povo vermelho queria fazer a diferença. Durante os 90 minutos, sabia-se, gramado e cimento teriam de estar perfeitamente sincronizados, em matrimônio. Nada melhor, portanto, do que selar a união ainda no asfalto da Padre Cacique.

Quem pôde, abriu mão de viver naquela tarde de quarta-feira. Toda ela foi encarada como prólogo de uma épica batalha, que teria seu primeiro capítulo disputado em gigante templo. Nos arredores do Estádio, muito mais intenso do que o passar dos minutos era o caminhar da multidão, que não parava de crescer. Praticamente todo colorado e toda colorada partiram para o Beira-Rio vestindo vermelho, carregando uma bandeira e munidos de sinalizadores.

Nos dias que antecederam a partida, a torcida se programara para recepcionar de maneira inédita o ônibus colorado, criando o evento ‘Ruas de Fogo’. A partir dele, seria organizado, da entrada do pátio do Beira-Rio até a porta dos vestiários, um túnel vermelho, de artefatos pirotécnicos e fogos de artifício, responsável por acender o caldeirão alvirrubro. Em chamas nossa casa abraçaria seus heróis, aquecendo cada um dos escalados para o duelo da noite.

Por mais audaciosos que fossem, os planos do povo alvirrubro se provaram humildes quando comparados ao ambiente criado para o desembarque da delegação do Inter. A partir da chegada do ônibus ao pátio do Gigante, nada mais pôde ser visto. Incendiária, a Avenida Padre Cacique se converteu em um portal, transportando atletas e torcedores para um ambiente sagrado. Da cidade, partiram em direção a um verdadeiro um oásis, que de miragem não tinha nada. Nos braços de sua gente, o Colorado foi conduzido até os portões do paraíso. Faltava pouco para adentrarem, juntos, na eternidade.

Na 12, Bandeirão desfraldado. O mais afinado sopro de metais soando na Fico. Rubros sinalizadores emoldurando a Nação, e bandeiradas incessantes da Força Feminina. Na curva do sul da Popular, delírio total. Em cada canto ocupado pelas 48.166 pessoas presentes no estádio, euforia. Sem parar de cantar, o Beira-Rio viveu a entrada do Clube do Povo, seu melhor amigo, em campo. Fora das quatro linhas, a vantagem era grande, e vinha sendo honrada há algumas horas. Agora, chegava o momento de ser presenciada também no gramado verde do Gigante. Era noite de Libertadores, de semifinal de Copa. Era noite de Inter. Dale, Colorado!


Atuação de gala


Renan; Nei, Bolívar, Índio e Kleber; Sandro, Guiñazú, Andrezinho, D’Alessandro e Taison; Alecsandro. Estes foram os 11 escolhidos por Celso Roth para representar o sonho de milhões de colorados e coloradas espalhados pelo planeta. Um a um, tiveram seus nomes ovacionados pelo Estádio, que trepidou com especial sinergia durante os inesquecíveis cantos de Guiñazú e D’Alessandro. Do outro lado, Ricardo Gomes escalou Ceni; Alex Silva, Miranda e Richarlyson; Jean, Rodrigo Souto, Hernanes, Marlos e Júnior César; Dagoberto e Fernandão.

Confira especial da Rádio Colorada sobre a partida:

Empurrado por sua gente, que implorava pelo Campeonato e por ele afirmava estar disposta a dar a vida, o Inter tentou encurralar os paulistas desde cedo. Para tanto, contava com a agressividade de Taison, pela esquerda, e a genialidade de D’Alessandro, aberto na direita. No meio, Andrezinho percorria toda a intermediária, ajudando na transição ofensiva.

De modo a confundir a defesa adversária, André e D’Ale, sempre próximos na região central, trocavam constantemente de posição. Acompanhando a dupla estava, de longe, Nei, encarregado de oferecer amplitude, permanecendo em cima da linha lateral. Na esquerda, era Taison quem jogava aberto, explorando o flanco como um legítimo ponteiro, enquanto Kleber tinha liberdade para se aproximar dos armadores e apoiar na construção de jogadas.

Por sua vez, o São Paulo, completamente retraído no campo de defesa, variava, a partir dos recuos de Jean e Júnior, da ala para a lateral, e de Dagoberto para a meia-direita, do 3-5-2 para o 5-4-1. Na frente, um isolado Fernandão era constantemente acionado a cada falta, lateral ou mesmo tiro de meta, mas sofria para fazer o pivô em meio aos amigos Bolívar e Índio, conhecedores da genialidade do atacante.

O jogo de ataque contra defesa funcionou para os visitantes ao longo do primeiro terço de partida. Embora inexistente no campo ofensivo, o São Paulo dificultou as tramas da linha de frente colorada, colhendo frutos com seu ferrolho. Madura, porém, a equipe alvirrubra soube se adaptar às circunstâncias do embate, e passou a apostar em cruzamentos e arremates de longa distância, armas que garantiram as primeiras boas chegadas do Inter. Das arquibancadas, simultaneamente, a torcida fazia questão de tranquilizar seus atletas, afirmando que, haja o que houver, seguiria fiel no apoio, independente do que passasse.

Toda a imprevisibilidade que faltara ao Inter nos instantes de abertura da partida, e que começara a surgir a partir dos 15 minutos, aflorou na segunda metade da primeira etapa. O responsável, como não poderia deixar de ser, foi o grande craque daquela Libertadores: Andrés Nicolás D’Alessandro. Gênio, ídolo, amor ou divindade, trate-o como quiser, o argentino, um dos maiores de nossa história, assumiu o papel de protagonista que dele se esperava. Travesso, convidou os marcadores para o dramático bailar do tango, e passou a percorrer toda a extensão do campo, causando um alvoroço nos desorientados beques que, atordoados, deram espaços aos outros craques vermelhos.

Consicente da necessidade da vitória, o Clube do Povo seguiu martelando até o apito final, que encerrou um primeiro tempo de placar em branco no Beira-Rio. Resultado que passava longe do ideal, o empate não conseguiu retratar, na frieza de seus números, a superioridade alvirrubra, mas nem por isso foi lamentado.

O Colorado partiu para os vestiários ainda mais preparado para buscar o triunfo, como comprovou o primeiro minuto sucessor ao intervalo. Embalado por estridente ‘Vamo, Vamo, Inter’, Andrezinho pegou a sobra de tabela entre Taison e Kleber e, da esquerda, bateu colocado, com curva, exigindo milagre de Ceni.

Torcida deu espetáculo nas arquibancadas do Beira-Rio/Foto: Divulgação

Definitivamente, Taison viveu uma noite inspirada contra os paulistas. O camisa 7, que seria escolhido pela torcida o melhor em campo, não se satisfez com a boa exibição que construira na etapa inicial e retornou a campo ainda mais inquieto. Aos cinco, o atacante serviu Kleber, que invadiu a área e finalizou abafado por Rogério, grande nome dos visitantes. No lance seguinte, Alex Silva pareceu se inspirar no arqueiro e bloqueou, com a mão, cabeceio de Bolívar. Pênalti claro, ignorado pela arbitragem. O erro colocou ainda mais pólvora no caldeirão da beira do Guaíba, que pedia, uníssono, por uma vitória capaz de honrar a briosa tradição do Rio Grande, e também nosso louco amor colorado.

Tentando oferecer ao flanco direito fôlego equiparável ao visto no corredor oposto, Roth sacou, aos 18 do segundo tempo, Andrezinho. Aplaudido, o meio-campista deu lugar a Giuliano, grande herói da classificação colorada às semifinais. Com o talismã, esperava-se, D’Alessandro voltaria a construir grandes combinações no lado que sempre lhe serviu de melhor morada – e assim aconteceu.

Cheio de gás e iluminado pela mítica camisa 11 que levava às costas, Giuliano conseguiu, logo de cara, injetar novo ânimo na armação colorada. Buscando a bola entre os zagueiros, passou a abrir espaços na zona central de um paredão tricolor que, apostando em encaixes individuais, mostrava-se hesitante para acompanhar a movimentação do substituto. Aos 22, a consequência das dúvidas paulistas foi fatal. Após receber bom passe vertical de Bolívar, o meio-campista abriu o jogo com Nei e fingiu disparar para a ponta. Segundos depois, esbanjou grande agilidade para fintar com o corpo e retornar em direção à intermediária, livre. Novamente acionado, costurou para o meio e tentou servir Sandro. Rebatida pela marcação, a bola sobrou para D’Ale.

El Cabezón é um jogador diferente, não se pode questionar. Capaz de antever inúmeras situações, raramente recebe a bola sem ter certeza de seu próximo movimento. O camisa 10 é um daqueles atletas que transforma segundos em eternidade, centímetros em hectare. Sagaz, o argentino sequer dominou a espirrada sobra da defesa são-paulina e, com a canhota, serviu Alecsandro. Centroavante clássico, especialista no jogo aéreo e dono de grande pivô, o 9 alvirrubro superou a marcação com o corpo, deixando para Giuliano. Como um segundo atacante, o camisa 11 lembrou Sobis para entortar o zagueiro. Perdido no giro do jovem colorado, Miranda por pouco não assistiu, deitado, ao arremate do artilheiro, que, milésimos depois de dominar, soltou a bomba de pé direito. Cruzada, a finalização primeiro beijou o poste de Ceni para, enfim, morrer nas redes paulistas. Inter na frente!

Talismã Giuliano/Imagens: Rede Globo

Em dívida no escore, o São Paulo precisou mudar – e o fez em dobro. Na vaga de Richarlyson, entrou Cleber Santana, reestruturando a equipe em duas linhas de quatro. Já na frente, Dagoberto deu lugar a Ricardo Oliveira. As alterações na nominata, contudo, em nada afetaram o roteiro da partida. Aos 27, D’Alessandro, gozando da mesma liberdade que tivera em seus melhores momentos na etapa inicial, caiu pela ponta-esquerda e aplicou La Boba perfeito para superar a marcação, inclusive colocando a bola entre as pernas de Rodrigo Souto. Com espaço, cruzou forte, fechado. Rogério espalmou, e a sobra foi de Kleber que, embora diante do gol aberto, precisou arrematar com a direita, tirando tinta do travessão. (D’ALE 2)

Como joga, D’Alessandro, por favor!/Imagens: Rede Globo

Embebedada de alegria, a torcida colorada rememorava os inesquecíveis dias vividos ao lado do Inter quando, aos 33, Renan fez sua primeira defesa no jogo, impedindo que chute de Ricardo Oliveira, travado por Bolívar, saísse em escanteio. Minutos depois, com o Gigante em festa e o povo completamente ‘doidão’, Taison desconcertou Alex Silva, invadiu a área e, a centímetros do pequeno retângulo, chutou de direita. Com o pé, Ceni operou mais uma defesa salvadora.

Muito mais do que um vício ou amor, o Rolo Compressor seguiu alucinante. D’Ale aprontou nova La Boba aos 38, desta vez pela direita, e cruzou, de imediatado, buscando a segunda trave. Soberano, Alecsandro subiu muito mais do que Jean e, pisando na pequena área, testou forte, por cima. Logo depois, Fernandinho entrou no lugar de Marlos, enquanto Rafael Sobis, extremamente festejado pelo público que lotava as arquibancadas do Beira-Rio, veio a campo no lugar de Taison. Exaurido, o camisa 7 deixou o gramado de maca, e também recebeu o devido reconhecimento. Já nos acréscimos, Hernanes desferiu o primeiro chute a gol do São Paulo no jogo, seguramente defendido por Renan. Os paulistas ainda desperdiçaram, antes dos 48, instante do apito final, um escanteio, igualmente encaixado pelo goleiro alvirrubro.

Barato para os vistantes, surpreendente para os críticos e festejado pela torcida, o 1 a 0 garantiu importante vantagem para o jogo de volta. É bem verdade que a atuação magistral, somada ao apoio do povo vermelho, mereciam mais, mas a vitória, sem nenhum gol sofrido, mantinha muito vivo o sonho da reconquista continental. No Morumbi, caberia ao Inter fazer, mais uma vez, história contra 70 mil. Felizmente, não existe time mais lapidado para encarar caldeirões do que o Clube do Povo, dono do temido Gigante da Beira-Rio.

A vitoriosa trajetória de Guiñazú pelo Inter

Estádio Defensores del Chaco, 27 de julho de 2006, duelo de ida das semifinais da Libertadores. Transcorridos 34 minutos da etapa inicial, Índio corta cruzamento perigoso do adversário, mas a bola sobra, na entrada da meia-lua, com o camisa 17 do Libertad, que domina no peito e, já dentro da área, chuta com a canhota. Rasteiro, o arremate beija a trave de Clemer e cruza a extensão da meta. Os donos da casa ficam com o rebote e criam nova oportunidade, defendida pelo goleiro colorado. Perigo, definitivamente, afastado. Assim foi o primeiro capítulo da marcante história entre Inter e Guiñazú, o quase algoz vermelho.


A chegada ao Clube do Povo

Alguns meses depois, no dia 14 de junho do ano seguinte, há exatos 13 anos, Clube e atleta tornaram a se cruzar. Desta vez, em episódio feliz para ambos: a apresentação de Pablo Horacio Guiñazú como jogador do Sport Club Internacional. Aos 28 anos, o volante não escondeu a ansiedade em sua primeira fala à imprensa, destacando a vontade de retribuir, o quanto antes, toda a expectativa da torcida para com seu futebol e estrutura disponibilizada a ele pelo Colorado.

Um breve hiato, no entanto, retardou o primeiro ato oficial do novo casamento. Contratado do exterior, Guiñazú só poderia estrear com a camisa do Inter a partir de agosto, quando seria aberta a janela para transferências internacionais. Desta forma, restou ao atleta se preparar para, assim que legalizado, estrear – e como El Cholo se preparou, a ponto de logo adotar Porto Alegre não apenas como residência, mas também lar!

“Estou me sentindo em casa.

Fui muito bem recebido!

O pessoal na rua me reconhece

por causa da minha careca!”

Guiñazú, antes mesmo de estrear pelo inter

“Ele é muito dedicado. Algumas vezes temos até que pedir que pegue um pouco mais leve na intensidade, para que não acabe sofrendo uma lesão. É um atleta exemplar.” Com estas palavras, Flávio Soares, auxiliar de preparação física do Clube do Povo, definiu a intensidade dos treinos do argentino. Guiñazú, inclusive, não era o único sedento por ir a campo, e tinha sua angústia compartilhada pelos igualmente recém-contratados Magrão e Jorge Luís, lateral-esquerdo.

O esperado momento de estreia chegou no dia 5 de agosto, em duelo contra o Cruzeiro, fora de casa. De grande exibição, o argentino, vestindo a 11, sobressaiu-se na região central do campo, mas nem mesmo seu ímpeto foi capaz de conter os mandantes, que atuavam diante de um Mineirão cheio. Escore final, um injusto 3 a 2.

Guiñazú seguiu encantando a torcida ao longo de todo o semestre final de 2007, especialmente a partir da chegada de Abel Braga, no mês de agosto. Treinado pelo comandante vencedor de América e mundo na temporada anterior, El Cholo se provou extremamente polivalente, muitas vezes atuando na ala esquerda do 3-5-2, assim repetindo, com Alex, dobradinha similar à que o ídolo dos chutes precisos fizera, em 2006, com Jorge Wagner. Incansável, caiu como uma luva em engrenagem já existente, assim fascinando o povo vermelho, também por sua indescritível vibração e aguçada qualidade na afiada canhota.

Novos reforços, a exemplo de Nilmar e Sorondo, foram apresentados no Beira-Rio nas semanas seguintes à chegada de Guina, assim encorpando o elenco que se preparava para alcançar grandes feitos em 2008. O ano de estreia de Cholo chegou ao fim com o Inter classificado à Sul-Americana e Pablo Horacio conquistando, de vez, a paixão dos colorados.


A pré-temporada inaugural

Embora sonhasse em colher alegrias, dificilmente Guiñazú imaginava ser tão feliz quanto foi com a camisa do Clube do Povo. Apresentando exatos sete dias após a conquista da Tríplice Coroa, não demorou para levantar sua primeira taça com a camisa colorada. Pelo contrário, o troféu chegou ainda na primeira semana de 2008.

Estou encantado pelo Inter, de coração!

Quero retribuir todo o carinho.

Tenho certeza que ainda serei muito

feliz aqui!

GUIÑAZÚ, EM ENTREVISTA CONCEDIDA NO FINAL DE 2007

Internacionalmente reconhecido e admirado, o Colorado foi convidado para participar, no mês de janeiro, da Dubai Cup, torneio disputado por instituições de grande tradição que integrou a pré-temporada alvirrubra. O período de treinos foi iniciado ainda em 2007, no dia 26 de dezembro, uma semana antes do desembarque nos Emirados Árabes, realizado após viagem de grande estilo, como a imagem abaixo comprova.

A estreia na Copa aconteceu no dia 5 de janeiro, diante do Stuttgart-ALE, e foi encerrada com vitória por 1 a 0, gol de Alex. Apenas 48 horas depois, o Clube do Povo voltou a campo para, contra a Internazionale-ITA, disputar a finalíssima, também vencida pelo Alvirrubro, agora por 2 a 1, golaços de Fernandão e Nilmar. De sua parte, mesmo tendo deixado o campo lesionado, Guiñazú foi eleito, em enquete no site do Inter, o melhor da finalíssima, dando o tom do protagonismo que exerceria no ano que estava por vir.


O primeiro título estadual

Capaz de afastar o motorzinho colorado dos gramados, a contusão não pôde se considerar vencedora na luta contra o abissal preparo físico do argentino. Após breves semanas entregue aos cuidados do departamento médico, Guiñazú retornou à ativa antes do previsto e com sangue nos olhos. Sua primeira exbição depois da injúria, ocorrida no dia 10 de fevereiro, deixava claro o tamanho do problema que aguardava os adversários colorados. Impecável, atuou por 80 minutos na ala-esquerda e foi um dos destaques na goleada alvirrubra por 5 a 0 sobre o Brasil, em Pelotas.

Titular absoluto, Guina voltou aos gramados com a mesma competência que apresentara nos meses anteriores, oferecendo grande contribuição à notória campanha alvirrubra na primeira fase do Gauchão, encerrada com 32 pontos conquistados através de 10 vitórias, duas derrotas e mais um empate. Além do tradicional brilho nos desarmes e passes, contudo, o argentino também tratou de inaugurar, nas primeiras semanas de 2008, um raro instante artilheiro em sua carreira. Ainda em fevereiro, anotou uma pintura de perna direita na goleada de 4 a 0 do Clube do Povo sobre o Nacional-PB, na fase inicial da Copa do Brasil. Já em março, o tento, marcado em um irônico carrinho, teve como vítima o Canoas, em partida de abertura das quartas de final do Estadual.

O alto nível de exibições, é bom lembrar, não ficou restrito a Guiñazú, que teve seu brilho acompanhado por diversos companheiros, fato comprovado nas goleadas aplicadas sobre Paraná, por 5 a 1, na partida de volta das oitavas da Copa do Brasil, e Juventude, derrotado na finalíssima gaúcha por acachapante escore de 8 a 1. Para a decisão contra o Papo, inclusive, Cholo deu nova demonstração de sua obstinação ao ir e campo e atuar durante os 90 minutos somente duas semanas após ser submetido a uma artroscopia! A recompensa para tamanha garra, sempre acompanhada de grande qualidade, foi a inquestionável vaga na seleção do Campeonato. Aos poucos, o que poderia ser uma corriqueira paixão platônica tomava contornos de idolatria.


A mágica formação campeã continental

Um início de Brasileirão claudicante, seguido das saídas de líderes como Fernandão, Iarley e Abel Braga, ameaçou um ano que, desde seu alvorecer, prometia grandes feitos à torcida. Foi então que o Clube do Povo se reforçou, como que anunciando, para quem quisesse ouvir, que o recente campeão de América e mundo seguia buscando taças. Desta vez, com novos nomes. Entre eles, Guiñazú, que tinha seu desempenho reconhecido, inclusive, no principal escalão do futebol mundial.

Estou muito bem no Clube,

todos me tratam maravilhosamente.

Não troco grana nenhuma por isso,

estou muito à vontade e aqui vou ficar!

Guiñazú, ao anunciar sua permanência no inter

No início do segundo semestre, o argentino recebeu propostas do futebol árabe, sedutoras pelos altos valores envolvidos, mas prontamente rechaçadas pelo atleta, que se mostrava decidido a fazer história no Inter. Na mesma época, Guiñazú virou matéria no site da FIFA, sendo definido como ‘a alma do time colorado’. Denominação, diga-se, nada exagerada para o meio-campista, um carregador de piano, como diriam os antigos, mas que exibia qualidade rara para os que costumam ocupar a faixa de campo que lhe servia de casa.

Foi exatamente contando com este aguerrido pulmão argentino que Tite construiu, para o quarto e último trimestre de 2008, um dos maiores esquadrões do Inter neste século. Verdadeira seleção alvirrubra, era escalada com um losango no meio de campo, e encontrava no camisa 5, bem como no parceiro Magrão, alicerce perfeito para o trio ofensivo formado por Alex, D’Alessandro e Nilmar. À leveza dos avantes, o argentino respondia com a dose ideal de imposição física. Era, também, a experiência internacional necessária para um reformulado grupo, bem como o responsável por caprichosos desarmes que protegiam a forte defesa estruturada por Bolívar, Índio, Álvaro e Marcão. Em outras palavras, Guiñazú correspondia a um ingrediente chave na receita da Academia do Povo campeã da Sul-Americana.

No intervalo, vimos que o Guiñazú

estava muito desanimado pela expulsão.

Então, combinamos de dar algo a mais

para vencer por ele!

NILMAR, APÓS A PARTIDA DE IDA DA DECISÃO DA SUL-AMERICANA

Eleito o melhor jogador no Gre-Nal que serviu de estreia para o Colorado no torneio, ‘El Cholo’ esteve praticamente imparável ao longo da competição. Deixou de atuar apenas na partida de ida das oitavas, preservado, e na abertura das quartas de final, lesionado para enfrentar o Boca, no Beira-Rio. Além disso, o volante, que chegou a sofrer uma luxação no cotovelo durante a Sul-Americana, também foi desfalque para a finalíssima, consequência de injusta expulsão que sofrera durante a vitória colorada por 1 a 0 sobre o Estudiantes-ARG, em La Plata. A ausência, entretanto, em nada abalou a paixão da torcida pelo craque, que teve seu nome ovacionado antes do embate que consagrou o Inter campeão.


O capitão do centenário

Mais do que campeão, Guiñazú abriu 2009 como capitão. Posto histórico, em se tratando do ano de centenário do Internacional, que foi assumido pelo infatigável volante com naturalidade, soando como simples desdobramento na caminhada que vinha trilhando desde sua chegada a Porto Alegre, marcada por liderança e exemplo. Mais do que na braçadeira, a imagem de referência exercida pelo argentino podia ser atestada na capa de chuva que usava em todos os treinos realizados no verão, vestida com o único objetivo de aumentar sua resistência física.

Se em 2007 o encaixe entre Inter e Guiñazú fora quase instantâneo, de maneira ainda mais rápida aconteceu a consagração do ídolo como capitão. Quatro meses após empunhar a faixa, levantou a taça do Gauchão, título conquistado de maneira invicta e abrilhantado por gol do argentino na final, disputada contra o Caxias. Cholo anotou o quinto dos oito marcados pelo Clube do Povo, que sofreu apenas um para reeditar o escore da decisão da temporada anterior. Excepcional ao longo do torneio como de costume, foi escolhido, ao lado de outros seis companheiros, para a seleção do Estadual.

O troféu do Rio Grande foi o primeiro dos dois que Guiñazú ergueu na temporada – o outro foi da Copa Suruga. Formando, com Sandro, nova dupla na abertura do meio de campo colorado, encontrou rápido entrosamento com a jovem promessa, e assim foi escolhido o melhor volante do Brasileirão, prova do destaque que alcançou nas campanhas vice-campeãs nacionais em 2009. No campeonato de pontos corridos, ainda marcou, contra o Goiás, seu quarto (e último) gol pelo Clube do Povo.


Campeão da América

Prestes a disputar sua primeira Libertadores com a camisa colorada, Guiñazú iniciou o ano de 2010 sonhando, é claro, mas, principalmente, suando. Na formação de Fossati, o capitão cansou de se sacrificar pela equipe, atuando em diversas funções do meio de campo em decorrência das variações do comandante, que gostava de alternar a formação entre o 4-4-2, quando local, e o 3-6-1, nas partidas disputadas longe do Gigante.

“Sonho todos os dias em

levantar a taça da Libertadores,

mas agora é hora de trabalho.”

GUIÑAZÚ, NA PRÉ-TEMPORADA DE 2010

Classificado para a fase eliminatória do torneio sul-americano na liderança de sua chave, o Inter perdeu a invencibilidade que ostentara ao longo dos grupos logo no primeiro duelo de mata-mata. Dolorido, o revés por 3 a 1 para o Banfield foi respondido, por Guiñazú, com convocação à Maior e Melhor Torcida do Rio Grande, multidão tida pelo ídolo como capaz de, com sua energia, contaminar os atletas em campo. Ao todo, mais de 35 mil pessoas atenderam ao convite do argentino, lotaram o Beira-Rio e garantiram a vaga nas quartas da América!

A tranquilidade no caminhar de um capitão que objetivava apenas o triunfo

Contra o Estudiantes, Guiñazú teve exibição de luxo no gramado do Beira-Rio, sendo um dos grandes responsáveis pela vitória conquistada já nos minutos finais. Na Argentina, contagiou o elenco com seu espírito imbatível, áurea que foi fundamental para a classificação rumo às semis, conquistada nos minutos derradeiros através do esfumaçado arremate de perna direita desferido por Giuliano.

Se é verdade que o argentino chegou a ceder a faixa de capitão para Bolívar após a Copa do Mundo de 2010, também não se pode contestar o empenho do ídolo, que seguiu entregando tudo de si dentro de campo. Titular nas 14 partidas da campanha campeã, Guiñazú superou até mesmo as expectativas mais otimistas para continuar brilhando nas semis, contra São Paulo, e final, diante do Chivas. No seu melhor estilo de jogador incansável, disputou todas as 14 jornadas do Inter na competição, correndo mais de uma centena de quilômetros em campo, geralmente na luta por cada palmo do gramado, para se converter em um dos principais rostos do elenco bicampeão da América.


Novo ano, nova taça

Temporada na qual completou 200 jogos pelo Inter, 2011 também foi, para Guiñazú, um ano marcado por taças. Multicampeão, o argentino parecia não conceber a mínima possibilidade de passar 365 dias consecutivos sem levantar troféus. Logo em maio, vestiu a faixa de vencedor gaúcho, participando da última volta olímpica do Estádio Olímpico, tradicional casa de nosso rival.

O último time campeão no Estádio Olímpico

Foi em agosto, contudo, que o grande momento da temporada chegou. Lesionado, Guiñazú não disputou a primeira partida da Recopa, realizada no dia 10 de agosto, no Estádio Libertadores da América, contra o Independiente-ARG. Duas semanas depois, entretanto, o ídolo fardou sua camisa 5 e ajudou o Inter a virar o placar, aplicando 3 a 1 no ‘Rojo’ e garantindo o bicampeonato no torneio.

Elenco vencedor da Recopa Sul-Americana

No último trimestre da temporada, Cholo ainda formou, com Tinga, grande dupla de volantes, importante na boa campanha colorada no Brasileirão. Foi a partir deste momento, inclusive, que o argentino se consolidou como responsável pela abertura do meio de campo alvirrubro, exercendo a função de primeiro homem, no passado recente desempenhada por nomes como Edinho, Sandro e Wilson Mathias. Lado a lado, os motorzinhos da Libertadores de 2006 e 2010 garantiram vaga na competição continental da temporada seguinte, finalizando em grande estilo mais um capítulo vitorioso para o Clube do Povo.


O capítulo final

O último ano de ‘Cholo’ no Inter foi marcado por nova conquista, o Gauchão, seu quarto no Clube do Povo. Além disso, líder como sempre, o argentino também ajudou o Colorado a construir campanhas livres de maiores percalços ao longo de período no qual o Beira-Rio passou a acumular cada vez mais setores interditados, fruto da reforma com vistas para a Copa do Mundo do Brasil.

Igualmente em 2012, o ídolo superou a casa dos 250 jogos, aumentando e enriquecendo ainda mais sua vasta biografia com a camisa vermelha. As convocações para a Seleção, já presentes no passado recente, foram multiplicadas a ponto de, no final da temporada, Guina ser indicado, pela primeira vez em sua carreira, ao prêmio ‘Rei das América’. Craque!

Agora o Inter ganha

mais quatro torcedores:

eu, meus filhos e minha esposa!

GUIÑAZÚ, NA COLETIVA DE DESPEDIDA

A trajetória de Pablo Horacio ‘el Cholo’ Guiñazu nas cercanias da Padre Cacique foi encerrada no dia 5 de janeiro de 2013, antes mesmo do início da pré-temporada alvirrubra. Encarando problemas particulares, o ídolo teve seu pedido de desligamento do Clube prontamente atendido, em demonstração de gratidão do Colorado para com seu craque. Icônico camisa 5, o volante finalizou sua história no Inter concedendo emocionante entrevista no CT Parque Gigante.

O momento mais marcante de sua despedida, todavia, aconteceu longe dos microfones, quando foi ovacionado por centenas de colorados e coloradas que o aguardavam para um justo até logo. Somando 282 partidas disputadas, incontáveis milhões de gotas de sangue e suor despejadas, além, é claro, de uma cadeira cativa e perpétua no coração da Maior e Melhor Torcida do Rio Grande conquistada, Guina, Cholo ou ídolo, chame como quiser, foi preciso ao definir a eterna relação que levará junto ao Clube do Povo por toda sua vida. Paixão, esta, recíproca, compartilhada com uma multidão que jura amor eterno ao argentino que tanto honrou o manto alvirrubro. Salve, Guiñazú!

A neblina de Quilmes

Diferente do que a invicta conquista colorada possa sugerir, a edição da Sul-Americana de 2008 não foi nada fácil. Pelo contrário, raras foram as ocasiões em que o torneio reuniu tantas equipes tradicionais brigando pelo título. Entre os semifinalistas, por exemplo, além do Inter estiveram River Plate, campeão do Torneo Clausura da época, Estudiantes de La Plata, que viria a conquistar a Libertadores no ano seguinte, e o gigante mexicano Chivas Guadalajara. O alto nível dos clubes, inclusive, tornava no mínimo provável que estes voltassem a se encontrar em um futuro não muito distante, brigando por outros títulos continentais.

Quis o destino que os argentinos do Estudiantes fossem os primeiros conhecidos a voltar a cruzar o caminho do Clube do Povo, desta vez nas quartas-de-final da Libertadores de 2010. E se o confronto de duas temporadas antes fora emocionante, se estendendo para além dos tradicionais 180 minutos para ser decidido apenas no segundo tempo da prorrogação, após Nilmar marcar o gol do título do Inter, o duelo disputado há exatos 10 anos, no dia 20 de maio, não ficou para trás.


Os truncados 90 minutos iniciais

O Inter chegou entre os oito melhores do continente depois de eliminar, nas oitavas de final, o Banfield-ARG, em confronto que teve seus últimos 90 minutos disputados no Beira-Rio. A emocionante classificação vermelha motivou a crítica esportiva a apontar o Colorado como um time em franca ascensão no principal torneio do continente. Para chegar às semifinais, contudo, seria necessário superar equipe tida como a melhor das Américas. Mais do que isso, o duelo de volta aconteceria na Argentina. Fazer o resultado no Beira-Rio, portanto, era uma obrigação, apesar do alto nível rival.

Diante de mais de 40 mil colorados e coloradas, Jorge Fossati mandou a campo, na noite de 13 de maio, o que tinha de melhor à disposição. Habituado a alterar a formação de jogos como mandante para partidas longe de casa, o uruguaio escalou o Inter no 4-4-2. Abrindo o escrete estava Abbondanzieri, contratado no início do ano com a responsabilidade de conferir experiência ao time que sonhava com o bicampeonato. Nei, Bolívar, Sorondo e Kleber compunham a defesa, sempre protegida pelos volantes Guiñazú e Sandro, entrosados desde a temporada passada. Na frente, D’Alessandro e Andrezinho tinham a missão de furar a linha de 5 defensores argentinos e municiar a dupla de atacantes formada por Walter e Alecsandro.

Duríssimo, o confronto se desenrolou marcado pela escassez de espaços. Rondando constantemente a área argentina, o Inter sofria para criar chances reais, ficando entregue a chutes de longa distância e bolas alçadas na área. Do outro lado, o Estudiantes apostava todas suas fichas em um possível contra-ataque letal armado pela genialidade de Verón, que também não era encaixado. O cenário emaranhado persistiu até os 20 da etapa final, quando Taison, endiabrado, entrou na vaga de Walter e deu novo ímpeto à linha de frente alvirrubra. A partir de então, durante 20 minutos Orión operou milagres, a arbitragem ignorou lances duvidosos e, ainda, Alecsandro balançou as redes, mas teve impedimento assinalado. O empate sem gols parecia inevitável, até que o centroavante colorado cavou falta na intermediária.

O relógio indicava exatos 46 minutos e 26 segundos quando Andrezinho levantou bola perigosa na área visitante. Açucarada, a redonda viajou precisa até a cabeça de Sorondo, que se atirou em obstinado peixinho na direção do pequeno retângulo platense. Fatal, o desvio do zagueiro impediu qualquer reação do arqueiro argentino, que, de joelhos, assistiu ao tento colorado. Inter 1 a 0, e a vantagem era nossa!


A epopeia em território hermano

O jogo de volta foi disputado no Estádio Centenário, localizado na cidade de Quilmes, uma vez que a casa do Estudiantes, em La Plata, passava por reformas. Enfrentando o atual campeão da América, o Inter sabia que, para triunfar contra um adversário temido por quase todo o continente, seria necessário pôr à prova a tradicional mística colorada. Exatamente por isso, quando os onze titulares de Jorge Fossati entraram em campo, a torcida pôde acreditar que aquela seria uma noite especial.

Volante Sandro, sinônimo de segurança na faixa central

Por ironia do destino, como o Estudiantes tinha no vermelho a cor predominante de seu uniforme, o Inter não teve alternativa senão ir a campo todo de branco, assim como na decisão do Mundial. A sorte parecia abraçar a equipe gaúcha, fazendo sorrir a Maior e Melhor Torcida do Rio Grande, que lembrava dos feitos de Fernandão, Iarley, Gabiru e companhia. Ficava claro que, se os argentinos mereciam respeito e atenção, não menos importante era a história multicampeã do Inter. Se o acanhado estádio lotado e a camisa adversária assustavam, também aterrorizados os locais deveriam se sentir enfrentando o Clube do Povo do Rio Grande do Sul, que iniciou o duelo com Abbondanzieri; Bolívar, Sorondo e Fabiano Eller; Nei, Sandro, Guiñazú, Andrezinho, D’Alessandro e Kleber; e Alecsandro.

“Há de se enaltecer o elenco.

O Internacional cresce

em decisões!”

ANDREZINHO, DEPOIS DO APITO FINAL

Os primeiros minutos de partida, todavia, obrigaram a torcida colorada a abandonar a nostalgia das boas lembranças do passado, dando lugar ao nervosismo. O Estudiantes, incendiado por sua torcida, desde o início do jogo adotou postura agressiva e, regido por Verón, conseguiu abrir 2 a 0 antes dos vinte e cinco minutos do primeiro tempo. Como o resultado já garantia a classificação do time da casa, os argentinos passaram a cozinhar o jogo, seguindo à risca a cartilha ‘matreira’ que faz parecer que os hermanos nasceram prontos para jogar a Libertadores.

Mesmo com as mudanças do técnico Jorge Fossati, que deixaram o Inter mais ofensivo, o panorama da partida não foi alterado no segundo tempo. Os minutos passavam, a tensão crescia, e a classificação parecia cada vez mais distante. À exceção de falta cobrada por Andrezinho e de bom chute de Walter, que substituira Nei, o Colorado tinha dificuldades em chegar ao ataque.

O caldeirão de Quilmes fervilhava com a festa da torcida da casa, comemorando vaga que já parecia garantida. Os próprios jogadores do Estudiantes inflavam seus torcedores, que retribuíam acendendo cada vez mais sinalizadores. O goleiro Orión mal podia ser visto em meio à espessa nuvem de fumaça que partia da multidão localizada atrás de seu gol. Enquanto isso, Verón prendia a bola, cavando faltas e laterais, deixando o tempo passar. Aos 43 minutos, entretanto, La Brujita errou.

Talismã, Giuliano foi alçado a campo na vaga de D’Alessandro

Embora fosse uma lenda viva, o capitão do Estudiantes não conseguiu superar a força da tradição colorada, que não deixaria passar impune sua disparate tentativa de imitar o que Iarley e Rubens Cardoso haviam feito com maestria no Japão quando, vestindo o mesmo branco que o Inter usava em Quilmes, prenderam o Barcelona em seu campo de defesa entre faltas, laterais e escanteios. Assim, restando menos de dois minutos para o fim do tempo regulamentar, a bola retornou à posse gaúcha, que tinha tiro de meta para Abbondanzieri cobrar.

O multicampeão goleiro lançou Walter, na esquerda da intermediária de ataque colorada. O centroavante matou a bola no peito e protegeu com o seu pé direito, esperando a aproximação de um segundo defensor adversário para, então, acionar Andrezinho. Com um giro perfeito, o meio-campista se livrou do primeiro marcador, ganhando espaço para pensar. Ao mesmo tempo, Giuliano percebeu uma lacuna na fechada defesa argentina e se projetou. Esbanjando talento, André deu assistência genial para o jovem camisa onze colorado. Neste instante, o tempo parou.

Eram cerca de 700 os colorados e coloradas presentes nas arquibancadas do Estádio Centenário. Outros milhões espalhados pelo mundo. Em comum, nenhum destes conseguia enxergar o que se passava graças à fumaça dos sinalizadores, que prejudicou a visão tanto dos que estavam na Argentina, concentrados atrás do gol oposto ao que Giuliano se preparava para fuzilar, quanto dos que acompanhavam pela TV, sofrendo com a prejudicada imagem das transmissões. Felizmente, a cegueira não afetou o jovem goleador colorado que, com o pé direito, chutou rasteiro. Como pôde, Orión tentou – e quase conseguiu – operar um milagre, mas não existia catimba ou bruxaria alguma que os argentinos pudessem fazer. De mansinho, chorosa, a bola entrou no canto. Gol do Inter, e o Centenário se transformava no Beira-Rio.

Na fumaceira de Quilmes, em 2010, o Colorado acreditou até o final para sair classificado! Reviva esse momento inesquecível nas vozes de Leonardo Fister e Ernani Campelo, narradores da Rádio Colorada. #AcreditarAtéOFinal

Posted by Sport Club Internacional on Thursday, February 28, 2019

O apito final veio após três minutos de acréscimos que em nada alteraram o resultado da partida. Assim que o jogo foi encerrado, D’Alessandro e Walter dispararam em direção à torcida gaúcha, subindo no alambrado para comemorar junto às centenas de enlouquecidos. Desgostosos e irritados com a desclassificação, os atletas da casa provocaram uma briga generalizada no gramado, confusão que em nada diminuiu a alegria dos classificados, que transformaram o vestiário de Quilmes em um verdadeiro carnaval, festejando e cantando sem parar.

Quatro anos depois, o Inter retornava a uma semifinal de Libertadores. A exemplo do que ocorrera na fase de quartas de final, o novo adversário também não teria nada de inédito na história colorada. Agora, vinha o São Paulo, derrotado na final de 2006, prestes a ser novamente superado pelo Clube do Povo. Na decisão encontraríamos mais um velho conhecido, o Chivas, que em 2008 fora o rival na luta por vaga na final da Sul-Americana. Nenhum reencontro, contudo, teria acontecido não fosse o gol na nebulosa Quilmes. Nenhuma taça seria conquistada não fosse o peso da camisa vermelha – e branca -, respeitada em qualquer canto do continente.

Tinga, teu Clube, do Povo, te ama!

Há exatos 10 anos, no dia 14 de maio de 2010, Paulo César, o Tinga, era oficialmente apresentado em seu retorno ao Sport Club Internacional. Vencedor na primeira passagem, o já veterano meio-campista voltava ao clube do coração disposto a seguir escrevendo rica história com o manto colorado após um hiato de quase quatro anos. Missão difícil, considerando o que escrevera na trajetória anterior, mas atingida com sucesso. Relembre, abaixo, a carreira do ídolo no Beira-Rio!

Tinga: colorado e campeão

Um craque nascido em berço colorado

Tinga chegou ao Inter com 26 anos de idade, já carregando o apelido em referência à Restinga. Tradicional bairro da zona sul da capital gaúcha, serviu-lhe de morada até o início da vida adulta, e, curiosamente, exibe muitas coincidências, em sua biografia, com o Clube do Povo. Afinal de contas, a região foi criada para servir de destino aos moradores da Ilhota, berço colorado, palco do Ground da Rua Arlindo – primeiro campo da história alvirrubra -, e área localizada na altura onde, atualmente, a Avenida Érico Veríssimo se encontra com a Praça Garibaldi e a Avenida Ipiranga.

No início da segunda metade do século XX, políticas higienistas expulsaram da Ilhota a população humilde, operária e boêmia que vivia no bairro, entendendo que, por sua localização central, a região poderia despertar grande interesse das classes mais abastadas de nossa sociedade. Desta forma, os legítimos habitantes da área, descendentes de Tesourinha, Sylvio Pirillo, Escurinho e outros, acabaram empurrados para a zona sul, onde ergueram a Restinga. Anos depois, no encerramento de 2004, mais um filho deste DNA efervescente e popular desembarcou no Beira-Rio.


Casamento iniciado com taça

Chegando credenciado por passagem pelo Sporting-POR, Tinga declarou, logo em sua primeira entrevista como atleta do Clube do Povo, o sentimento de gratidão pelo empenho do Colorado em recrutá-lo. “Eu quero jogar à altura do interesse do Clube, que há um ano tentava me contratar.” Mal sabia o meio-campista que os dois próximos anos seriam intensos, dramáticos e vitoriosos a tal ponto que, quando deixasse os arredores da Padre Cacique, já estaria eternizado como um ídolo alvirrubro.

Titular na campanha do título gaúcho de 2005, Tinga teve participação destacada na decisão do certame estadual. Na partida de ida, o meio-campista marcou o segundo gol do Inter, pegando rebote de bola que Elder Granja mandara no travessão tentando encobrir o goleiro. Decisivo, o tento foi o quarto do camisa sete no Campeonato, seu sexto no ano, garantindo ao atleta a vice-artilharia da temporada colorada até então.

Na finalíssima, disputada fora de casa, foi Tinga quem, com magistral cruzamento, serviu Souza para que o centroavante fizesse o segundo do Inter na prorrogação, encaminhando a vitória, por 2 a 1, e o título, quarto seguido no Gauchão. Tamanho protagonismo do atleta foi reconhecido com vaga na seleção do Campeonato, em premiação organizada pela Federação Gaúcha de Futebol (FGF).


A injustiça nacional

Tinga seguiu como um dos principais nomes colorados na campanha que levaria o Inter ao quarto título brasileiro não fosse o escândalo da ‘Máfia do Apito’. Integrante do ‘quarteto goleador’ do time de Muricy ao lado de Sobis, Fernandão e Jorge Wagner, o meio-campista viveu a temporada mais artilheira de sua carreira, muito por conta das cobranças dos colegas de elenco, como brincou em outubro daquele ano. “Fui me aperfeiçoando ao longo da carreira. Meu chute não é forte, por isso procuro colocar a bola, tirando do alcance do goleiro. Os companheiros até brincam que precisam assoprar lá de trás para a bola passar a linha do gol”

Capaz de tirar o sorriso do rosto do meio-campista apenas os prejuízos impostos por celeradas arbitragens ao Clube do Povo. Tinga, inclusive, foi símbolo do escândalo que teve no Inter sua maior vítima quando, na antepenúltima rodada, já ocorrida a anulação de jogos conduzida por Luiz Zveiter, o Colorado gaúcho, ainda com chances reais de título, foi até São Paulo enfrentar o líder Corinthians, no Pacaembu.

Aos 28 minutos do segundo tempo, com o escore indicando igualdade de um gol para cado lado, o camisa sete foi lançado na área em profundidade. Como sempre genial em suas infiltrações, adiantou-se aos zagueiros adversários e, logo no primeiro toque na bola, dominou fintando o goleiro Fábio Costa. Descarrilhado, o arqueiro corintiano atropelou o meio-campista com um violento carrinho. Pênalti claro, que o árbitro Márcio Rezende de Freitas não apenas deixou de assinalar, como também interpretou como simulação de Tinga, assim apresentando ao atleta o seu segundo amarelo no jogo, encerrado com o 1 a 1 no escore.


O brilho nos grupos, o drama nas eliminatórias

A segunda colocação no campeonato deu contornos negativos ao grande ano do Clube que, dentro de campo, fizera por merecer o título nacional e, também, escrevera bonita campanha na Sul-Americana, tornando-se a primeira equipe estrangeira a superar o Rosário Central, na Argentina, em partidas continentais, e sendo eliminado apenas para o Boca Juniors, futuro vencedor do torneio, nas quartas de final, encerradas com agregado de 4 a 2. Para a surpresa daqueles que esperavam que o abatimento fosse tomar conta do elenco colorado, contudo, a temporada de 2006 comprovou que aquele era um grupo formado por vencedores. Toda indignação e frustração foram convertidas em motivação por conquistas maiores. Referência entre os atletas tanto por sua liderança quanto pelo alto nível de futebol que apresentava, Tinga, escolhido o melhor segundo volante do Brasileirão, continuou protagonista mesmo após a chegada de Abel, que assumiu o comando da casamata alvirrubra no lugar de Muricy Ramalho.

Titular no vice-campeonato gaúcho, o meio-campista sobrou na fase de grupos da Libertadores, brilhando na histórica virada sobre o Pumas, armando a jogada do gol de empate após desarme magistral. Infelizmente, seu embalo foi contido por lesão sofrida em confronto contra o Maracaibo, válido pela última rodada do chaveamento. Grave, a injúria afastou Tinga dos gramados por mais de um mês entre abril e maio, assim tornando o atleta um desfalque para as oitavas-de-final e, também, a primeira partida das quartas, contra a LDU. Dramática, a situação foi agravada quando, no início do segundo tempo do duelo de volta frente aos equatorianos, o camisa sete voltou a se machucar. As consequências? Mais duas semanas de afastamento e ausência nas semifinais.


A decisão de Tinga

Pela primeira vez em 26 anos, a segunda em seus 97 de existência, o Inter confirmou, nos últimos instantes do dia 3 de agosto, sua classificação à final da Libertadores. Sedento por minutos em campo após ser desfalque em praticamente toda a fase de eliminatórias, Tinga voltou a ficar à disposição para os confrontos da decisão. Diferenciado por sua técnica, provou-se, na final, também um verdadeiro talismã, ocupando posição de destaque nos dois confrontos.

Se a primeira partida foi de Rafael Sobis, vale destacar que o segundo gol marcado pelo menino de Erechim surgiu após rebote de bola dividida entre Tinga e Júnior, espirrada na direção do travessão. O meio-campista colorado, colocando sua especialidade à prova, invadiu a área adversária em velocidade e recebeu excelente escorada de Fernandão. Por centímetros não bateu Rogério Ceni, mas, graças ao oportunismo do colorado e gaúcho artilheiro da noite, a oportunidade passou longe de ser lamentada.

A mesma chance criada a partir de assistência de Fernandão que parou na trave na primeira partida, balançou o barbante da goleira defendida por Ceni na finalíssima. O Eterno Capitão colorado pegou rebote de cabeceio por ele mesmo desferido, milagrosamente defendido pelo goleiro, e, da ponta esquerda da pequena área girou e cruzou bola baixa para Tinga, que precisou se abaixar e contorcer antes de empurrar para a meta. Gol. O segundo do Inter, comemorado de maneira tão efusiva que o meio-campista chegou a levantar sua camisa vermelha para revelar mensagem religiosa que carregava por baixo do uniforme. Advertido pelo árbitro, levou o segundo amarelo no jogo.

Coube ao Inter segurar os 30 minutos finais de partida com um a menos. Correndo por eles e por Tinga, os jogadores se defenderam com a tradicional alma colorada. O camisa sete, enquanto isso, rezava e chorava no vestiário vermelho. Seu sofrimento só acabou quando os massagistas Banha e Juarez, juntos do roupeiro Gentil, foram buscá-lo anunciando o final do jogo. Pela primeira vez em quase cem anos de história, o Inter era campeão da América, e Tinga tinha marcado o gol do título. Era herói, como merecia ser depois do absurdo vivido em novembro anterior, no Pacaembu.

“A festa está completa. Ganhamos o mais importante. Para mim, só faltava a Libertadores. O Inter é o time que eu torço, que meus amigos todos torcem. Sofri muito quando cheguei, pois fui formado no Grêmio. Mas sou torcedor do Internacional desde criança. Este sofrimento serviu de incentivo e, agora, nosso trabalho foi coroado com este título”, declarou o então campeão da América. O troféu erguido no Beira-Rio também serviu de ponto final para a primeira passagem do atleta no clube, visto que Tinga seguiu para o Borussia Dortmund após a inesquecível e infindável noite de 16 de agosto.

Tinga comemora o gol do título da Libertadores/Foto: Jefferson Bernardes/VipComm

Voltou para casa e foi campeão

Após quase quatro anos vestindo a camisa do clube alemão, suficientes para, passados 85 jogos e catorze gols, alçar Tinga ao posto de ídolo local, o meio-campista voltou para casa. Eufórica, a torcida colorada respondeu ao anúncio da contratação com grande entusiasmo, fanatismo que pôde ser percebido logo no desembarque do atleta no Aeroporto Internacional Salgado Filho, quando centenas receberam o velho conhecido com festa digna do craque que chegava.

Por se tratar de uma contratação internacional, Tinga necessitava esperar pela abertura da janela de transferências para jogadores vindos do exterior para ter sua situação regularizada e, assim, reestrear com a camisa vermelha. Os bons ventos sopraram na direção da Padre Cacique, com o prazo de inscrições antecipado para julho. Novidade cirúrgica, uma vez que possibilitou que o meio-campista entrasse na lista de atletas colorados que disputavam a Libertadores, competição que já vivia sua fase de semifinais.

Vestindo a camisa 16, Tinga atuou na segunda partida da fase semifinal e na finalíssima. Nesta, começou a jogada do primeiro gol colorado e quase se antecipou a Sobis para concluir cruzamento feito por Kleber. Mais uma vez, uma chance criada pelo meio-campista era aproveitada com muito oportunismo pelo atacante gaúcho. Novamente, o Inter era campeão. E Tinga, também.


Novo ano, novo troféu

As lesões se tornaram mais frequentes para o ídolo na temporada de 2011. A primeira aconteceu ainda em fevereiro, durante partida contra o Pelotas, no Beira-Rio, e afastou Tinga dos gramados por dois meses, período que englobou praticamente toda a fase de grupos da Libertadores e boa parte do Gauchão. Seu retorno aconteceu na semifinal da Taça Farroupilha, contra o Juventude, em partida na qual a estrela de ídolo colorado voltou a se fazer presente. De cabeça, o meio-campista marcou o gol da classificação para a final, completando cruzamento feito por Leandro Damião em jogada que contou com magistral lambreta do centroavante alvirrubro.

Tinga ainda atuou na final do turno e no primeiro jogo da decisão do Campeonato, apenas ficando de fora da finalíssima por suspensão devido ao terceiro cartão amarelo. Diferente do que o espetacular retorno poderia sugerir, entretanto, o ano seguiu repleto de percalços para o jogador, que perdeu boa parte do Nacional lesionado. Seu momento de maior destaque no Brasileirão aconteceu nas últimas e decisivas rodadas, quando passou a atuar mais recuado, abrindo a meia-cancha colorada ao lado de Guiñazú. Por ali, foi peça importante na conquista da vaga à Libertadores seguinte.

A temporada também reservou um título inédito ao ídolo: a Recopa Sul-Americana. Tinga enfrentou o Independiente, fora de casa, na primeira partida da decisão que consagrou o Clube do Povo bicampeão do certame continental. Além disso, ainda em 2011 o atleta participou da campanha do Inter na Copa Audi, torneio encerrado com o bronze para o Colorado.


O fim que repetiu o começo

Após lesão na pré-temporada, Tinga surgiu como elemento surpresa na escalação colorada para a partida de volta da pré-Libertadores de 2012, disputada contra o Once Caldas. Como de costume, marcou gol importante, virando o jogo para o Inter após completar excelente cruzamento de D’Alessandro. A partida acabaria empatada em 2 a 2, com classificação gaúcha, e o tento seria o último do camisa sete pelo Clube do Povo.

No Gauchão, o meio-campista foi peça frequente no segundo turno e atuou nas partidas de ida e volta da decisão, contra o Caxias. Com o título, o atleta se tornou tricampeão do torneio. A finalíssima, inclusive, foi partida final de Tinga com a camisa alvirrubra. Na semana seguinte, o ídolo rescindiu amigavelmente seu contrato e seguiu para o Cruzeiro.

Em Minas Gerais, Tinga conquistou o bicampeonato brasileiro. Também por lá, aos 37 anos, o craque encerrou, em maio de 2015, sua vitoriosa carreira. Confira a ficha técnica:

Posição: Meio-campo
Nascimento: 13/01/1978
Naturalidade: Porto Alegre (RS)

Clubes:
1997 – 1999: Grêmio – RS
1999: Kawasaki Frontale (JAP)
2000: Botafogo – RJ
2001 – 2003: Grêmio – RS
2003 – 2005: Sporting (POR)
2005 – 2006: Internacional
2006 – 2010: Borussia Dortmund (ALE)
2010 – 2012: Internacional
2012 – 2015: Cruzeiro

Títulos pelo Inter:
Libertadores da América: 2006 e 2010
Recopa Sul-Americana: 2011
Campeonato Gaúcho: 2005, 2011 e 2012.

Rumo ao Bi, há 10 anos virávamos sobre o Banfield

A Libertadores tem um ritmo diferente. Soa, aos ouvidos do apaixonado por futebol, como a mais harmônica mistura da cumbia com o tango, passando pelo samba e o reggaeton. Envolvente disputa, consegue impor a uma equipe, durante breves 90 minutos, emoções que variam da alegria ao drama, do sofrimento à explosão. Aquele que deseja a Copa deve superar, com maestria, um caminho feito para lhe causar percalços. A melhor maneira ser bem-sucedido na empreitada? Contando com a força de uma casa que esteja à altura da mística do torneio.

Em 2010 tropeçamos, é inegável. Não por fraqueza, e sim devido às armadilhas que visitaram nossa campanha. Diante de acanhado alçapão hermano, enfrentando hostil arbitragem charrua, com direito a pênalti sonegado e expulsão polêmica forçada, sucumbimos para o Banfield, apesar da belíssima pintura de nosso lateral – pouco depois sacado de campo pelo homem do apito.

Golaço de Kleber acabou se provando fundamental para o Inter. Imagens: SporTV

Para avançar às quartas, portanto, o Inter dependia de vitória por placar superior aos de vantagem mínima. A alternativa, única, residia em fazer a diferença no Beira-Rio. Afinal de contas, por mais que a esperança parecesse dançar na corda bamba de sombrinha, em nossa casa não seria justo que nos machucássemos.

“A energia que vem da

arquibancada faz a diferença.

Ela contamina todo

mundo em campo.”

GUIÑAZÚ – semana anterior ao confronto

O crepúsculo da quinta-feira 6 de maio foi mais rubro do que de costume. Mobilizados para o duelo das 19h30, 35 mil colorados e coloradas migraram cegamente à Padre Cacique, certos de que, naquela data, apenas para o Gigante os caminhos poderiam convergir. Iniciado o confronto, se é verdade que as arquibancadas ainda não estavam tomadas, fruto do caótico trânsito de final da tarde na capital gaúcha, já eram numerosos os que cantavam nas arquibancadas do Beira-Rio.

Tão intenso quanto o movimento de chegada ao Estádio, por óbvio, era a cantoria que dele emanava. Irretocável no Beira-Rio até então, acumulando três vitórias no torneio continental, o Inter pisou em campo sabendo que, por mais dura que fosse, a missão nada tinha de impossível. Ideia comprada pela torcida, convencida pelos comentários do gigante Guiñazú.

Em perfeita sintonia, grama e cimento sufocaram os argentinos, não permitindo um mísero segundo de descanso. Conduzidos – time e torcida – por um endemoniado D’Alessandro, os colorados lamentaram chances perdidas por Andrezinho e Walter, criadas pelo camisa 10, e também finalização do argentino que explodira no travessão. Conforme a chegada do intervalo se aproximava, o medo começava a crescer entre os mais pessimistas. Neste instante, contudo, o regente Andrés voltou a dar as caras.

Com passe milimétrico, D’Alessandro deixou Andrezinho de frente para o goleiro. Genial, o anjo das cobranças de falta serviu Alecsandro que, com a meta aberta, teve o simples trabalho de completar. Agora, faltava um.

Abençoado momento dos vestiários, permitiu ao Gigante descansar. Pulsando intensamente, o quarentão Beira-Rio precisava de um respiro. Breve, é claro, pois poucas são as construções tão habituadas ao delírio das massas quanto o templo colorado. A importância do quarto de hora de relaxamento foi comprovada logo cedo, com D’Alessandro, mais uma vez ele, lançando Eller.

Imagens: SporTV
Imagens: SporTV

Cobrindo a lateral-esquerda, o zagueiro vencedor de América e mundo em 2006 avançou e suspendeu. Na cabeça de Walter. Testaço para as redes! Virávamos. Juntos.

Encaminhada a vaga, o escrete colorado não cessou. Como poderia, se finalmente percebia os primeiros ares de classificação despontando no horizonte? As chances perdidas até motivaram um suspiro ou outro de nervosismo, mas a expulsão de James Rodríguez, jovem craque do rival, e o sucessor apito final libertaram, de uma vez por todas, o otimismo alvirrubro. Estávamos nas oitavas, graças à determinação de um Estádio que não cansou de jogar.

Escolha o seu gol preferido da história colorada!

O Clube do Povo sempre escreveu suas glórias através de precisas finalizações de cabeça, canhota ou pé direito. Pensando nisso, lançamos a nossa torcida o desafio de escolher o melhor gol, entre os selecionados, da história colorada. Os critérios são os mais subjetivos possíveis: você pode decidir pelo mais bonito, o mais importante, o mais improvável, o mais marcante, ou o que preferir! Disponível em nossas redes sociais, a enquete, organizada em formato de chaveamentos eliminatórios (imagem abaixo), conta com tentos anotados em diferentes décadas, por vários ídolos. Confira-os a seguir:

Falcão x Atlético-MG

Válido pelas semifinais do Brasileirão de 1976, o confronto entre Inter e Atlético-MG brindou o público que lotou o Beira-Rio com duelo do mais alto nível. Após encerrar o primeiro tempo atrás no marcador, o Clube do Povo buscou a igualdade com Batista, aos 33, e passou a pressionar em busca do gol da virada, que saiu aos 46, após tabela inacreditável entre Falcão, Dario e Escurinho. Verdadeira obra de arte, à altura de seu autor e de uma equipe campeã!

Figueroa x Cruzeiro

Coube ao Inter, dono de DNA desbravador e pioneiro, estabelecer o nome do futebol gaúcho em território nacional. Em 1975, o Clube do Povo chegou à decisão do Brasileirão após campanha magnífica, com direito à vitória sobre a ‘Máquina Tricolor’, no Rio, nas semifinais. Disputada contra o Cruzeiro, a finalíssima encontrou em Figueroa, o zagueiro craque, seu único artilheiro, capaz de vencer não apenas a defesa mineira, mas também o céu nublado, para abrir o placar para o Colorado.

Valdomiro x Corinthians

O segundo título nacional do Inter veio na temporada seguinte ao primeiro. Em 1976, o Colorado enfrentou o Corinthians, no Beira-Rio, na final do Brasileirão. A taça, já habituada ao número 891 da Padre Cacique, foi conquistada graças a dois lances de bola parada. No primeiro, Valdomiro acertou a barreira, mas Dadá não perdoou no rebote. Depois, o camisa 7 e ídolo colorado executou mais uma de suas muitas cobranças magistrais. Esta explodiu no travessão antes de vencer a linha fatal e, de uma vez por todas, consagrar o Clube do Povo bicampeão!

Nilson x Grêmio

A maior edição do principal clássico do Brasil aconteceu em fevereiro de 1989. Confronto de volta da semifinal do Brasileirão de 1988, o Gre-Nal do Século foi antecedido por empate sem gols no Olímpico, e exibiu roteiro capaz de invejar qualquer cineasta premiado. Na primeira etapa, vitória parcial dos visitantes e expulsão do lado vermelho. No segundo tempo, dois gols de Nilson, o primeiro de cabeça, e Inter, com um a menos, vitorioso e classificado. Que tarde!

Iarley x Vasco

O gol de bicicleta é uma paixão planetária. O nível de dificuldade exigido para executá-lo, provavelmente, encontra equivalência apenas na plasticidade do lance. Em 2006, poucas semanas após a conquista da América, Iarley começava a dar mostras do protagonismo que exerceria na reta final da temporada anotando pintura rara, inclusive, entre as do estilo. O domínio no peito e a distância da meta vascaína não deixam dúvidas.

Fernandão x Coritiba

Eterno Capitão! As palavras que faltam para definir a importância de Fernandão no Inter também são escassas na tentativa de descrever esta pintura. Pouco mais de um mês depois de estrear pelo Colorado marcando o Gol Mil dos Gre-Nais, o centroavante, inquieto em escrever história, foi autor de mais um feito inesquecível. Sortudo o Beira-Rio por servir de tela à obra de arte do cabeludo artilheiro.

Giuliano x Estudiantes

Atual campeão da América, o Estudiantes julgou estar com a vaga garantida nas semifinais da Libertadores antes do apito final. Em 2010, o ídolo e capitão pincharatta, nos minutos de encerramento, convocou a torcida para festejar com seus sinalizadores. Na fumaça da festa precoce, Giuliano, lançado por Andrezinho, brilhou, e instalou na cancha portenha silêncio sepulcral, quebrado apenas pelo estrondoso celebrar do povo colorado.

Sobis x LDU

A espera foi angustiante. Mais de dois meses entre o revés no Equador, único na campanha, e a volta em Porto Alegre. Para piorar, a etapa inicial em nada diminuiu a tensão. Pelo contrário, truncado, o jogo foi tomando contornos desesperadores até os seis minutos do segundo tempo, quando Rafael Sobis abriu o placar em uma verdadeira pintura. Depois deste, Renteria faria o segundo, e a vaga nas semis estaria garantida.

Tinga x São Paulo

A libertação da América. Numa infindável noite de alegria, 16 de agosto de 2006, Tinga marcou gol inesquecível, o último de nossa campanha campeã continental. O título, depois de 97 aos de espera, era nosso. Vamos, Colorado!

Damião x Chivas

Final de Libertadores. Decisão do principal torneio de clubes do continente. Beira-Rio. Cenário perfeito para um jovem começar sua história de idolatria com a camisa vermelha. Matador, Damião interceptou passe na altura do meio de campo e, em velocidade, marcou o segundo do Inter, garantindo, de uma vez por todas, a reconquista da América.

Claudiomiro x Benfica

Lotado por mais de 100 mil pessoas, o Beira-Rio foi oficialmente inaugurado no dia 6 de abril de 1969, em partida amistosa que envolveu Inter e Benfica. Para estrear a história das redes da casa colorada, obviamente, seria necessária a ação de um legítimo alvirrubro. Ninguém melhor do que o jovem Claudiomiro. Com um testaço, o centroavante abriu o placar, completando grande trama do ataque vermelho.

Gabiru x Barcelona

Pregador de peças, o irônico destino armou a maior das suas no dia 17 de dezembro de 2006. Em Yokohama, o Mundial de Clubes era decidido entre Inter e Barcelona. Combalido, o aplicado capitão Fernandão, com cãibras, deixou o campo para a entrada do contestado Adriano Gabiru. Vestindo a 16, o substituto recebeu de Iarley passe açucarado e finalizou não para o barbante, e sim para a história.

Nilmar x Estudiantes

Para nos sagrarmos o primeiro time brasileiro campeão da Sul-Americana, tivemos de superar caminho turbulento – e o fizemos com excelência. Não bastasse a caminhada repleta de adversários de alto quilate, também nossa decisão foi sofrida, disputada até a prorrogação. No segundo tempo desta, Nilmar, cria do Celeiro, marcou, com um bico salvador, o gol do título.

Alex x Boca

De tão difícil, nas quartas de final a campanha do Inter na Sul-Americana encontrou o atual campeão da América. Derrotado com autoridade no Beira-Rio, também na Bombonera o Boca Juniors precisou se curvar à inesquecível escalação colorada de 2008. Servido por D’Alessandro, Alex marcou, na etapa final, o segundo do Clube do Povo, último da vitória por 2 a 1. Ao eliminar os xeneizes em sua casa, o Alvirrubro repetiu feito até então exclusivo, entre os brasileiros, ao Santos de Pelé.

D’Alessandro x Atlético-MG

Como joga, por favor! Nas oitavas da Libertadores de 2015, o gringo pegou a sobra de bola espirrada pela defesa adversária e, com sua canhota, anotou mais um belo capítulo em sua linda história no Inter. No ângulo, sem chances de defesa, preciso, perfeito. Andrés Nicolás D’Alessandro!

Renteria x Nacional

O mais colombiano dos sacis internacionalizou sua história também no Uruguai. Para exorcizar um fantasma do passado, usou do lençol, não como fantasia, mas artimanha. Com ele, e um arremate fulminante, garantiu vitória importante nas oitavas da Libertadores de 2006. É nós, Renteria. Tipo Colômbia!

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