Título brasileiro invicto completa 41 anos

Inter contra Vasco. Academia do Povo diante do Cruz-Maltino. Maracanã e Beira-Rio. A decisão do Campeonato Brasileiro de 1979 contou com todos os atrativos necessários. Duelo que colocou frente a frente duas torcidas apaixonadas, encerrou com chave de ouro os anos 70 no futebol de nosso país. Felizes os colorados e coloradas, que, há 41 anos, deleitaram-se no doce festejo destinado aos campeões.

Confira especial produzido pela Rádio Colorada sobre o Tri:

Sport Club Internacional · Especial 'Invictos' – 40 Anos Do Tricampeonato Brasileiro

Ênio Andrade, de branco, e Gilberto Tim, de vermelho: comissão em 1979

O Clube do Povo chegou em vantagem para a finalíssima de 23 de dezembro de 1979. Três dias antes, os comandados de Ênio Andrade haviam superado o Maracanã, a chuva, 60 mil pessoas e os desfalques de Falcão e Valdomiro. À ausência dos craques, curiosamente, o Inter tratou de marcar um gol para cada, ambos anotados por Chico Spina, substituto na ponta-direita, um deles com assistência de Valdir Lima, alternativa no meio de campo.

Empolgada com a vantagem obtida na partida de ida e eufórica pela grande campanha que o Clube do Povo vinha construindo, a Maior e Melhor Torcida do Rio Grande lotou o Beira-Rio, gigante palco que naquela temporada completava 10 anos de história. Até então, nas 22 partidas que disputara pelo Nacional, o Inter somava 15 vitórias e sete empates, tendo anotado 38 gols e sofrido apenas 12. Mais do que o título, portanto, os colorados e coloradas queriam os louros da conquista invicta.

Do outro lado, um adversário extremamente ofensivo, disposto a estragar a festa, exigia respeito. Comandante vascaíno, Oto Glória declarara, na véspera da partida, que entendia a missão carioca como difícil, mas não impossível. Em busca da taça, o técnico cruz-maltino tratou de escalar equipe bastante ofensiva, centrada nas ações do atacante Roberto Dinamite. Não contavam os visitantes, porém, que a postura resultaria em espaços excessivos para um meio de campo histórico.

O Inter de 1979 ajudou a revolucionar o futebol brasileiro. Enquanto a geração bicampeã atuava num claro 4-3-3, esquema pensado para maximizar as ações de Valdomiro e Lula, respectivos pontas pela direita e esquerda, o Time que Nunca Perdeu variava com enorme facilidade das duas linhas de três para um meio de campo formado por quatro jogadores. O grande coringa da equipe era Mário Sérgio, sucessor de Lula na posição, mas responsável por desempenhar função completamente diferente.

O vesgo, como ficou conhecido por sua rara habilidade de dar passes em uma direção enquanto olhava para outra, constantemente descia do trio de ataque para a região central do campo. Aproximava-se, assim, de Falcão, formando dupla capaz de superar qualquer ferrolho defensivo. A movimentação de Mário ainda confundia zagueiros e laterais rivais que, arrastados pelo movimento do camisa 11 colorado, abandonavam a linha defensiva, oferecendo espaços para elementos surpresa do lado alvirrubro. O maior deles, sem dúvidas, era Jair.

Os termômetros marcavam 28º quando o time colorado deixou os vestiários e subiu ao campo do Beira-Rio. Com todos atletas à disposição, Ênio escalou seus 11 ideais. No gol, esteve Benítez. João Carlos, Mauro Galvão, Mauro Pastor e Cláudio Mineiro ocuparam a defesa, enquanto Falcão, Batista e Jair foram os escolhidos para a meia. O ataque, por fim, contava com Valdomiro, Bira e Mário Sérgio. De sua parte, o Vasco atuou com Leão; Orlando, Gaúcho, Ivan e Paulo César; Zé Mário, Paulo Roberto e Paulinho; Catinha, Roberto e Wilsinho.

João Carlos, Benítez, Mauro Pastor, Falcão, Mauro Galvão, Cláudio Mineiro; Valdomiro, Jair, Bira, Batista e Mário Sérgio

Apoiado por um Beira-Rio explosivo, o Inter empilhou chances na etapa inicial. Cedo na partida, Jair serviu lançamento primoroso para Bira, que ganhou da zaga na velocidade e, da altura da meia-lua, percebeu Leão adiantado. O centroavante tentou de cobertura, mas o goleiro exibiu excelente poder de recuperação para espalmar em escanteio. Quase o primeiro!

Definitivamente, sobravam craques na meia-cancha colorada. Também esplendoroso, Batista exibiu grande forma na finalíssima – a exemplo do que fizera no Campeonato inteiro. Ainda na primeira metade da etapa inicial, o camisa 10 emendou um balaço da intermediária ofensiva após corte parcial da defesa vascaína. Leão, de novo, brilhou.

O arqueiro vascaíno não tinha seu nível acompanhado pelos companheiros de ataque, que apenas assustaram Benítez quando Wilsinho, lançado por Roberto, tentou tirar proveito do montinho artilheiro para surpreender. Seguro, o paraguaio paredão colorado espalmou sem maiores problemas.

Inevitável, o primeiro gol do Inter saiu aos 41, e ele teve a cara do time de Ênio. Com a bola em suas mãos, Benítez percebeu que Mário Sérgio recuara até a intermediária defensiva e acionou o companheiro. Postado com linhas baixas, marcando praticamente da linha central para trás, o time visitante não apertou a marcação. Genial, o camisa 11 então percebeu que, enquanto Bira prendia a dupla de zaga, Jair atacava o vazio que o próprio vesgo deixara no corredor esquerdo do ataque, e lançou o camisa 9.

Que centroavante era Bira! Referendado à época de sua contratação pelo também matador Dadá Maravilha, o centroavante do Time que Nunca Perdeu tinha consciência de todos os movimentos que o cercavam. Assim, apenas escorou, de casquinha, para trás. Livre, quem recebeu a assistência foi Jair, que, em disparada, precisou de somente dois toques para marcar. No primeiro, fintou Leão. Depois, dentro da grande área, finalizou rasteiro em direção às desprotegidas redes. Catarse coletiva no Gigante.

O gol destruiu de vez o psicológico da equipe vascaína. Antes do intervalo, Bira e Falcão construíram excelente tabela, que o Rei finalizou, da pequena área, de letra. Por sorte, Leão salvou com o tornozelo. Já no início do intervalo, quem brilhou foi a trave esquerda da goleira do Gigantinho. Não fosse por ela, Valdomiro decidiria, mais uma vez, um título através de suas cobranças de falta. O destino, porém, já havia escolhido seu herói, e ele atendia pelo nome de Paulo Roberto.

Mauro Galvão (E) e Falcão (D) minutos antes da decisão

Mário Sérgio, de novo ele, retornou até o campo de defesa na casa dos 13 minutos. Desta vez, quem atacou o espaço deixado pelo vesgo foi Cláudio Mineiro, devidamente lançado pelo companheiro de corredor. Preciso, o passe sequer cobrou domínio do lateral-esquerdo colorado, que da quina da grande área cruzou rasteiro para a entrada do retângulo pequeno, onde Bira chegava em desabalada carreira.

Antes do centroavante, Leão apareceu para espirrar a bola até a marca do pênalti. Para azar do goleiro, apenas mais três vascaínos ocupavam da grande área visitante. Do lado do Inter, eram quatro. A bola, simpática aos craques, escolheu o cinco, que emendou chute forte, rasteiro, rasante. No canto direito, a encouraçada explodiu nas redes e, tamanha sua violência, reboteou de volta para o campo. Quando retornou, todavia, sequer foi percebida. Mais de 70 mil comemoravam o segundo gol do Clube do Povo.

Histórico, o carnaval formado nas arquibancadas do Beira-Rio sequer lamentou a oportunidade desperdiçada por Chico Spina, após assistência de Mário Sérgio, ou vociferou contra o gol de Wilsinho, que para os visitantes descontou aos 39. O povo já havia coroado o Inter campeão, e o apito de José Favile Neto não passou de mera formalidade. Pela terceira vez na história, o Brasil era alvirrubro. Desta vez, depois de campanha inédita, única e inigualável. Campanha invicta. Campanha, legitimamente, colorada.

Raio-X: as informações da jornada contra o Vasco

Vice-líder nacional, o Inter busca, neste domingo (17/10), a quarta vitória consecutiva no Brasileirão. Confronto da 17ª rodada do torneio, o duelo entre Clube do Povo e Vasco da Gama ocorre a partir das 18h15, no Beira-Rio. Para ficar por dentro de tudo sobre a partida, confira, abaixo, o nosso Raio-X!


Pra cima deles, Colorado!

O Inter encerrou neste sábado os preparativos para o duelo diante do Vasco. No CT Parque Gigante, Eduardo Coudet aproveitou o lindo dia de sol para realizar exercícios técnicos e táticos que ajustaram os últimos detalhes da equipe que entrará em campo no Beira-Rio. Contra os cariocas, o comandante colorado contará com o retorno de D’Alessandro, que cumpriu suspensão na rodada passada.

Falar de retornos exige valorizar Rodrigo Dourado. Após 15 meses entregue ao Departamento Médio, o camisa 13 do Clube do Povo voltou aos gramados na última quarta-feira (14/10). Alçado a campo no lugar de Rodrigo Lindoso aos 24 minutos da etapa final, o volante construiu segura atuação na vitória colorada sobre o Sport, fora de casa. Feliz, o atleta conversou de maneira exclusiva com a Mídia do Inter sobre seu retorno, papo no qual fez questão de ressaltar seu coração de torcedor do Inter. Confira:

Dando continuidade à preparação para a partida deste domingo, Patrick participou de entrevista coletiva virtual na última sexta-feira (16/10). Em grande fase, o Pantera, autor de dois gols na vitória sobre o Sport, foi titular nos três triunfos consecutivos que o Inter soma. “Independente da forma com que eles vierem fazer o jogo, nós temos que nos preparar para fazer uma grande partida. É importantíssimo fazer o dever de casa para seguir forte no objetivo.”

Por fim, quem falou neste sábado foi o meia-atacante Marcos Guilherme. Titular nas últimas duas partidas, o Relâmpago, como é carinhosamente chamado pela Maior e Melhor Torcida do Rio Grande, projetou o duelo diante do Vasco. “Um desafio muito difícil. Mas nós almejamos a liderança, precisamos vencer, ainda mais em casa, onde somos muito fortes. Estamos nos preparando bem para manter essa sequência positiva”.


Projeções de tabela

Vice-líder do Brasileirão com 31 pontos, o Clube do Povo conta com a segunda melhor defesa e o segundo melhor ataque do torneio, além do artilheiro Thiago Galhardo, que já balançou as redes em 13 ocasiões. Embalados, os comandados de Coudet vêm de três vitórias seguidas no Campeonato, contra Bragantino, fora, Athletico, em casa, e Sport, na Ilha do Retiro. Diante do Vasco, portanto, o Colorado busca o quarto triunfo em quatro jogos, resultado que pode garantir a primeira colocação para o Inter.

Empatado em pontos com Atlético-MG, líder, e Flamengo, terceiro, o Clube do Povo entra em campo pouco depois do time carioca, que também neste domingo visita o Corinthians. O duelo ocorre a partir das 16h. De sua parte, o Galo atua apenas na próxima segunda-feira (19/10), quando enfrenta o Bahia, no Pituaçu. Por ter uma vitória a mais do que Colorado e Urubu, o Alvinegro garante a manutenção da ponta em caso de triunfo sobre o Tricolor. Se empatar, porém, o atual primeiro colocado pode ser superado por seus perseguidores.

À frente do Flamengo devido ao saldo, superior em seis gols, o Clube do Povo precisa, para encerrar a rodada no topo, vencer o Vasco e torcer, além de por tropeço mineiro, para que os cariocas não apliquem goleada histórica no Corinthians. Em caso de empate, o Inter também pode chegar à liderança. Para tanto, o Galo teria de perder e o Urubu não poderia ganhar. Se for derrotado, o Colorado fica ao alcance apenas dos rubro-negros.


Arbitragem catarinense

Braulio da Silva Machado apita, auxiliado por Kleber Lucio Gil e Alex dos Santos. VAR: Rodrigo Dalonso Ferreira. Quarteto de Santa Catarina.


O rival

Vasco, de Talles Magno, perdeu para o Flamengo no sábado passado/Foto: Rafael Ribeiro, Vasco

O Vasco da Gama vive sequência negativa no Brasileirão. Após iniciar o Campeonato na luta pelo topo da tabela, com direito a aproveitamento de 100% nas três primeiras rodadas que disputou, o time carioca já encara mais de um mês sem triunfos no torneio. A má fase custou o emprego do técnico Ramon Menezes, demitido após revés para o Bahia. Em seu lugar assumiu o interino Alexandre Grasseli, derrotado, na última vez em que o Alvinegro foi a campo, pelo Flamengo, em São Januário.

A atual temporada, verdade seja dita, ofereceu poucos momentos de tranquilidade para a torcida do Vasco da Gama. Iniciado com Abel Braga na casamata, o ano de 2020 contou com eliminação precoce nas duas fases de grupo do Campeonato Carioca. Logo depois da primeira queda no Estadual, a diretoria demitiu o técnico e efetivou Ramon, treinador da equipe já durante a interrupção do calendário futebolístico brasileiro.

Ramon Menezes, ex-comandante do Vasco/Foto: Rafael Ribeiro, Vasco

Apoiado na excelente fase dos argentinos Benítez e Cano, o Vasco, normalmente armado no sistema 4-3-3, conquistou cinco vitórias (suas únicas no Campeonato) nas primeiras nove partidas que disputou. O último triunfo, obtido em clássico contra o Botafogo, na 10ª rodada, ocorreu em 17 de setembro. Desde então, a equipe sofreu quatro reveses e somou um único ponto, contra o Red Bull Bragantino.

Benítez e Cano, dupla vascaína/Foto: Rafael Ribeiro, Vasco

Os números provam que a recente má fase do Vasco não se limita ao placar final das partidas. O saldo de gols, por exemplo, que após o duelo contra o Botafogo era seis, fruto de 15 tentos marcados e nove sofridos, hoje indica negativos dois, consequência das atuais 20 ocasiões em que a equipe foi vazada.

Livre para o Vasco, a semana passada contou com muitas novidades em São Januário. Rival do Cruz-Maltino na 16ª rodada do Brasileirão, o Fortaleza disputou, contra o São Paulo, partida antecipada das oitavas de final da Copa do Brasil. Por consequência, o time carioca não entra em campo desde o sábado retrasado (10/10). Neste intervalo, os rivais colorados deste domingo anunciaram as contratações de Ricardo Sá Pinto, novo treinador, e Leonardo Gil, volante.

A dupla, porém, ainda não estará disponível para o confronto contra o Inter. Sob o comando de Alexandre Grasseli, a provável escalação do Vasco para este domingo conta com Fernando Miguel; Yago Pikachu, Miranda, Leandro Castan e Henrique; Benítez, Marcos Júnior, Andrey e Carlinhos; Talles Magno e Cano.

Alexandre Grasseli/Foto: Rafael Ribeiro, Vasco

Transmissão tri!

Dia de Inter é dia de sintonizar na Rádio Colorada! A transmissão mais vermelha da web e do FM ocorre a partir das 17h deste dia 18 de outubro. O horário marca a abertura do ‘Portões Abertos’, pré-jogo legitimamente alvirrubro que contará com participação especial de Mauro Galvão, ex-zagueiro e ídolo vermelho, campeão invicto do Brasileirão de 1979.

Na sequência, às 18h, chega a jornada esportiva do duelo entre Inter e Vasco, a qual se estende até o soar do último apito, quando terá início o ‘Vestiário Vermelho’. Com entrevistas exclusivas e também coletivas, a atração repercute todos os detalhes de mais um embate nacional do Clube do Povo. Acompanhe a transmissão através do FM 95,5 ou via Site e App do Inter!

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As redes sociais do Clube do Povo (@scinternacional no TwitterInstagram Facebook) , você já sabe, apresentam o mais completo minuto a minuto da internet. Neste domingo, não será diferente, com diversas imagens, compartilhadas de maneira instantânea, enriquecendo a cobertura. Na TV, o Premiere anuncia transmissão.


Retrospecto vermelho

É rica a história de encontros entre Clube do Povo e Cruz-Maltino. Ao todo, as equipes já se encontraram em 70 ocasiões, das quais 28 foram encerradas com triunfo colorado, duas a mais do que as finalizadas com vitória carioca. Ocorreram, também, 16 igualdades, em retrospecto que registra 100 gols para cada lado.


Na semana do Rei, um confronto pela realeza

Maior meio-campista da história do futebol brasileiro, o Rei Falcão completou, na última sexta-feira (16/10), 67 anos de idade. Ídolo que figura entre os maiores da biografia colorada, o eterno camisa cinco alvirrubro exibe, exatamente contra o Vasco, um dos capítulos mais lindos de sua trajetória no Beira-Rio.

Falcão comemora o gol marcado sobre o Vasco/Foto: Zero Hora, Divulgação

Bola de Ouro do Brasileirão de 1979, o protagonista do Time que Nunca Perdeu foi o responsável por, diante de um Gigante abarrotado, marcar o gol do Tricampeonato vermelho. Segundo do Inter na finalíssima, o gol do Rei sucedeu tento marcado pelo Príncipe Jajá, e foi o último do Clube do Povo no torneio – mas não do duelo, que ainda contaria com tento de Wilsinho para os visitantes. Colorado, uma vez mais, dono do Brasil!


Ídolos de cá e lá

Atração mais do que especial do pré-jogo da Rádio Colorada, Mauro Galvão não é ídolo apenas do Inter. Revelado, aos 17 anos, pelo Clube do Povo, o ex-defensor conquistou o Brasil logo em sua primeira temporada como profissional. Duas décadas depois, Mauro, dono de carreira extremamente vitoriosa, dominaria a América, desta vez vestindo as cores do Vasco.

Antes mesmo do nascimento de Galvão, porém, Inter e Vasco já contavam com lindas coincidências. Figura que também ocupa posto elevado no panteão de lendas coloradas, Osmar Fortes Barcellos, o Tesourinha, atuou, depois de 10 multicampeãs temporadas consecutivas nos Eucaliptos, com as cores do Vasco. Em São Januário, o ponta conquistaria o Rio de Janeiro e seguiria convocado para a Seleção Brasileira. Com a Canarinho, o imparável driblador venceria, ainda, a Copa América.

“Jogador sozinho não ganha campeonato, mas o Falcão de 79 seria vice!”

O título desta matéria não contém exagero algum. Icônica, a frase, proferida por um gênio, retrata com grande precisão a magnificência de outro. De Veríssimo, Luís Fernando, para Falcão, Paulo Roberto. O Inter tricampeão do Brasil jamais foi repetido. Protagonismo igual ao de nosso camisa cinco? Nunca mais visto. Marcada por superações coletivas e pessoais, a história do craque do ‘Time que Nunca Perdeu’ é única, e merece, no dia do aniversário do Rei, ter seu principal capítulo rememorado. Conheça detalhes da mágica temporada vivida por Falcão em 1979!

Falcão exibe o cobiçado troféu para o povo colorado/Foto: Divulgação

Idolatria afirmada


No futebol, a história da camisa cinco tem um antes e depois. Falcão a divide. Gênio da bola, o revolucionário meio-campista revelado pelo Celeiro de Ases construiu carreira meteórica no Clube do Povo. Lançado aos profissionais em 1973, por Dino Sani, no ano seguinte já seria pilar da máquina de Minelli.

Bicampeão nacional sob o comando Rubens, ainda atingiria, treinado por Cláudio Duarte, o seu quinto título estadual. Idolatrado e figurando no principal degrau do panteão colorado o craque chegou ao fim da década de 70. Ninguém poderia imaginar, portanto, que Paulo conseguiria abrir os anos 80 ainda mais amado.

Ficha de inscrição de 1968 do atleta Paulo Roberto Falcão/Foto: Arquivo histórico do S.C. Internacional

Falcão precisou de pouco mais de dois anos como profissional para ser escolhido o melhor meia do Brasil. Brilhante na conquista do Brasileirão de 1975, o jovem integrou a seleção do campeonato. Aos 22 anos (recém-completados), foi fundamental, por exemplo, diante do Fluminense, na semifinal do torneio, quando em um Maracanã lotado serviu linda assistência para a pintura de Lula, primeira da jornada em solo carioca.

No ano seguinte, o Inter bicampeão do Brasil voltou a contar com a magia de seu camisa cinco, uma vez mais decisivo para a classificação alvirrubra à decisão nacional. Contra o Atlético-MG, desta vez no Beira-Rio, o craque marcou, no último minuto do tempo regulamentar, um dos gols mais bonitos da história do futebol, segundo da virada alvirrubra por 2 a 1. Construído em belíssima tabelinha de cabeça com Escurinho, o tento classificou o Clube do Povo para o duelo diante do Corinthians, encerrado com vitória vermelha, no Gigante, por 2 a 0.

Após insucessos estaduais e nacionais em 1977, o Inter voltou a ser protagonista na temporada de 1978. Terceiro do Brasil, o Clube do Povo conquistou o título gaúcho no Olímpico, antiga casa gremista, após vitória por 2 a 1. Falcão, ao lado de Jair e Valdomiro, foi um dos destaques do feito, inclusive marcando gol em Gre-Nal do primeiro turno.

No Brasileirão, o Colorado sucumbiu, nas semifinais, para o forte time do Palmeiras. A ausência na decisão, todavia, não impediu a escolha do catarinense de Abelardo Luz para o prêmio de melhor do Campeonato. Bola de ouro, o camisa cinco chegava a 1979 sonhando com repetir o brilho individual e elevar o desempenho coletivo.

Os campeões do Rio Grande em 1978. Falcão, em pé, ao centro/Foto: Divulgação

Novos problemas, novas companhias


Primeiro campeonato do ano, o Gauchão de 1979 acendeu importante alerta no Beira-Rio. Os primeiros sinais de oscilação chegaram ainda nos turnos de abertura do torneio, encerrados com tropeços diante de adversários inferiores ao Colorado. Na sequência, Cláudio Duarte, comandante alvirrubro desde 1978, precisou deixar a casamata – embora tenha continuado a ocupar cargo na comissão técnica.

Com a missão de reverter o quadro negativo e construir campanha campeã no octogonal final, desembarcou, então, Zé Duarte, treinador de boas passagens pelo interior paulista, em especial a campineira dupla Guarani e Ponte Preta. Zé, contudo, não apenas falhou em injetar novo ânimo no Inter, como também viu intensificar o clima conturbado nos arredores da Padre Cacique.

“A maior motivação

foram as críticas e a

humilhação que sofremos

durante o Estadual”

Mário Sérgio

Para além de resultados inesperados, caso dos reveses consecutivos para São Paulo de Rio Grande e Novo Hamburgo, o condicionamento dos atletas também se tornou um problema. Pilares da equipe, os ídolos Falcão e Valdomiro sofreram lesões graves, assim como o excelente zagueiro Larry. Reforços, ficava evidente, eram necessários, e eles foram encontrados tanto no mercado, à época inflacionado, quanto no Clube, tradicional formador de estrelas.

Mauro Galvão e Falcão no Beira-Rio em 1979/Foto: Divulgação

A demora para encontrar uma nova formação, porém, custou o Estadual, encerrado no simplório terceiro lugar, posição que cobrou nova mudança na comissão técnica. No lugar de Duarte, chegou Ênio Andrade, então comandante do Coritiba. Com ele, veio também Gilberto Tim, mestre da preparação física e bicampeão nacional pelo Inter ao lado de Rubens. O Brasileirão batia à porta, e o Colorado seguia desencontrado.

Dentro de campo, o Inter acumulou, ao longo dos meses de disputa do Gauchão, novidades em todos os setores. Contratado em 1977, o goleiro Benítez, emprestado para o Palmeiras em 1978, retornou ao Beira-Rio e logo conquistou a titularidade. Na defesa, Mauro Pastor se consolidava como zagueiro, enquanto o lado esquerdo começava a ser desbravado por Cláudio Mineiro. Completando o miolo estava o jovem Mauro Galvão, que, aos 17 anos, já encantava o Brasil.

João Carlos, cria da casa, fazia o corredor direito, faixa de campo ocupada, no meio de campo, por Jair. O Príncipe tinha as magníficas companhias de Batista, mais recuado, e Falcão, trio responsável por ditar o ritmo do Alvirrubro. Mais tarde, para o ataque, chegou Bira, contratado junto ao Remo e com o aval de Dario Maravilha, camisa 9 do título de 1976. Os dois centroavantes travavam, em Belém do Pará, intenso duelo pela artilharia paraense, com Dadá vestindo a camisa do Paysandu.

Montagem do ‘Time que Nunca Perdeu’ não foi simples

Falcão e Jair, estrelas benquistas pela torcida, também desejavam um ponta-esquerda, e tinham em mente o nome ideal: Mário Sérgio Pontes de Paiva. Pesava contra o ‘Vesgo’ seu temperamento intempestivo, que gerava desconfiança na diretoria colorada. As estrelas do meio de campo alvirrubro, entretanto, bateram pé, e prometeram se responsabilizar pelo futuro companheiro. Com ele, argumentaram, conquistariam taças. Mário, então, foi contratado – e logo caiu como uma luva no corredor canhoto.

Disciplinado taticamente, o camisa 11 atuava como um legítimo construtor, armando constantes aproximações ao trio de meias, assim criando quadrado mágico no time de Ênio Andrade. Menos agudo do que Lula, seu predecessor na ponta, o carioca permitia a Falcão presença ainda maior no terço final do campo. Uma geração inesquecível, enfim, tomava forma. Restava azeitar as engrenagens.


Segurança nas fases iniciais


Integrante do Grupo G, o Inter abriu o Brasileirão como visitante. No Couto Pereira, o Clube do Povo enfrentou o Athletico Paranaense, partida disputada em 23 de setembro e encerrada com o placar inalterado. Coube a Bira, três dias depois, marcar o primeiro gol colorado no Brasileirão. Acompanhado por Adilson na súmula de artilheiros alvirrubros, o centroavante foi fundamental na vitória por 2 a 1 sobre o Santa Cruz, em Recife.

“O Inter torna-se grande

quando ninguém acredita nele.

É um time que cresce quando

tudo fica difícil!”

Paulo Roberto Falcão

Na mesma partida, entretanto, o camisa 9 fraturou o braço e, ao lado de Batista, com uma distensão, tornou-se desfalque para as rodadas seguintes. Desconfianças retornavam, embora Jair as tenha parcialmente dissipado na terceira rodada, quando marcou, no Beira-Rio, o tento da vitória sobre o Figueirense.

A quarta rodada reservou ao Inter o primeiro clássico daquela edição do Brasileiro. Em um Beira-Rio lotado, Jair e Falcão apostaram na bola parada e, através de jogada ensaiada que contou com toque do futuro Rei e arremate do Príncipe, venceram o ex-companheiro Manga, então goleiro gremista. Colorado 1 a 0, e a campanha nacional tomava corpo, bem como o psicológico alvirrubro, renovado após o primeiro triunfo em Gre-Nais no ano. Nas jornadas seguintes, dois por 3 a 0, sobre Sport e Coritiba, encaminharam a classificação.

Na reta final da primeira fase, o Inter ainda empatou com América-RJ, por 1 a 1, antes de superar, na oitava rodada, o Rio Branco-ES, por 5 a 1. Diante dos capixabas, Falcão anotou uma pintura para abrir o placar. O camisa cinco emendou de primeira, da entrada da área, cobrança aberta de escanteio feita por Mário Sérgio, pela esquerda. O gol, marcado na goleira do Gigantinho, foi o primeiro do craque no Campeonato, sucedido, na mesma partida, pelo de número dois, quinto da jornada, que saiu em lindo testaço. Depois da goleada, o Clube do Povo encerraria o grupo empatando, no Gigante, com o Operário-MS, placar de 2 a 2.

Se na fase inicial oito equipes avançaram de um grupo com 10, o segundo momento do Brasileirão de 1979 começou a afunilar os participantes do torneio. Disputado por 94 times, o Campeonato daquele ano contou, na fase de número dois, com sete chaves formadas por oito instituições. Destas, apenas duas avançariam. Líder no formato anterior, o Inter sabia que os tropeços precisariam se tornar cada vez mais escassos.

Assim, o Colorado venceu, na primeira rodada, o Goytacaz, do Rio de Janeiro, por 1 a 0, gol de Mauro Pastor. Na semana seguinte, o Gigante sediou novo duelo da Academia do Povo, este perante os gaúchos do São Paulo de Rio Grande. Jair, cobrando pênalti sofrido por Falcão, abriu o escore. Bira, precisamente servido pelo Rei, aumentou, e Mário Sérgio, já na etapa final, fez o terceiro do triunfo por 3 a 1.

Três empates consecutivos, contra Caldense-MG, Anapolina-GO e Atlético-PR, representaram o momento mais delicado do Inter no torneio. Seguro defensivamente, o Colorado custava para deslanchar na linha de frente, muito pela ausência de Valdomiro, com volta aos gramados prevista apenas para o ano seguinte. Até mesmo Falcão chegou a atuar como centroavante em uma das tentativas de Ênio para bagunçar zagas rivais. Foi então que Valdo, como sempre sedento por quebrar paradigmas e recordes, retornou ainda no final do mês de novembro. Mais precisamente, no dia 25.

A reestreia do ídolo ocorreu diante da Desportiva, do Espírito Santo, e foi coroada, logo cedo, com assistência para Bira. Depois, no segundo tempo, o Rei também quis ser garçom, e ofereceu passe maravilhoso para Batista marcar o segundo. O centroavante alvirrubro, que de burro não tinha nada, faria mais dois, o último após lançamento genial de um Falcão cada vez mais à vontade dentro de campo, visivelmente decidido a conquistar o país como protagonista. O duelo, encerrado com o triunfo por 4 a 0, até hoje é lembrado pela infeliz lesão de Zé Rios, lateral do time visitante.

Valdomiro fechou com gol a segunda fase do Brasileirão. O tento, inclusive, foi o único na vitória por 1 a 0 sobre a Inter de Limeira, em São Paulo. Líder de seu grupo, o Colorado gaúcho avançava para o quadrangular antecessor dos mata-matas. Enfrentaria, na Chave C, Atlético-MG, Goiás e Cruzeiro. Do quarteto, apenas um avançaria às semis.

Reforçada na linha de frente, a Academia do Povo finalmente encontrava o equilíbrio que lhe serviria de principal característica. Entre a intransponível retaguarda e o avassalador setor ofensivo, um meio de campo minuciosamente afinado orquestrava o time. Harmônico, o setor contava com os graves de Jair e o apoio de Batista, maximizadores da sinfonia de Falcão, craque já reluzente nas semanas anteriores, mas prestes a se tornar herói nos dias que estavam por vir.

Falcão, o Bola de Ouro do Brasileirão 79/Foto: Revista Placar, Divulgação

Mococa ou Falcão?


Três jogos para chegar às semis. O primeiro, contra o Goiás, ocorreria no Beira. Vencer era imperativo. Dezenas de milhares nas arquibancadas, unidas no mesmo pensamento, apoiaram o time de Ênio Andrade. O jovem Gigante, que acabara de completar 10 anos de vida, queria subordinar o país inteiro de novo. Para isso, jogou junto.

Com Bira, no encerramento da primeira etapa, o Estádio lançou. Ao lado de Cláudio Mineiro, no fundo, pela esquerda, cruzou. Dissimulado, com Falcão fintou a zaga e abriu vazio na área alviverde. Lacuna criada pelo Rei, foi aproveitada pela grande aposta do Monarca: Mário Sérgio, que para as redes arrematou. Gol, da importante vitória por 1 a 0!

Completando a rodada de abertura, o empate entre Atlético e Cruzeiro tornava decisivo o confronto de Inter e Raposa. No Mineirão, os donos da casa precisariam vencer para seguir sonhando com o Brasil. De sua parte, o Clube do Povo sabia que, em caso de triunfo, praticamente garantiria classificação às semifinais. Determinado a vencer o clássico, que envolveu duas das maiores equipes da década de 70, Ênio Andrade escalou uma equipe que estava no limite. Lesionados, Falcão e Valdomiro iniciaram o jogo, mesmo caso de Batista.

“A gente aceitou que

alguns jogassem no sacrifício

porque estamos numa guerra.

E na guerra, meu velho,

cada um usa o que tem de melhor”

Gilberto Tim

Quem estivesse inteiro precisaria, indubitavelmente, jogar por dois. Como jogaram Jair e João Carlos, donos da direita, flanco pelo qual o Príncipe progrediu antes de, aos 25 da etapa inicial, cruzar rasteiro. Na entrada da área, o rei dos voleios não perdoou. Inter, dos pés de seu camisa cinco, na frente. Pouco depois, Joãozinho até igualou, mas a majestade catarinense, que atuava gemendo de dores na clavícula, estava incontrolável. Tamanho sacrífico, bradava, não aconteceria em vão.

Lançado por Valdomiro, Falcão dominou com a canhota, investiu contra Marquinhos, superou o marcador e, da meia-lua do retângulo maior, mandou rasteiro, com a direita. Luis Antonio salvou, mas o rebote foi de Bira, que se atirou em violento carrinho na direção da bola. Chorado, brigado, o tento era colorado. Nos instantes antecessores do intervalo, o corredor direito valeu ao Inter novo gol.

Após corte parcial da zaga, Valdo pegou a sobra, ajeito para a canhota e, a centímetros da risca da grande área, mandou com a canhota, de trivela. Na bochecha da rede rival a esférica morreu. Inter 3 a 1, triunfo até diminuído, no escore, por Alexandre, mas não impedido. Vitória da Academia do Povo, resultado que, somado ao W.O. do Atlético-MG, que entrou em discordância com a CBD, valeu a classificação para as semis.

O Cruzeiro foi uma das muitas vítimas de Falcão no Inter

O adversário colorado nas semifinais seria o Palmeiras, algoz na temporada passada, quando ficou com o vice-campeonato brasileiro. Na final, os palestrinos sucumbiram para o Guarani de Zé Carlos, Careca, Zenon e Capitão. Indigesto, o gosto da prata, esperavam os alviverdes, seria superado em 1979. Terceiro no Nacional anterior, no entanto, o Inter também queria a taça, e entraria em campo sedento por vingança.

Foto: Jornal da Tarde, 13 de dezembro de 1979

Falcão, é claro!


Badalado, o duelo de 180 minutos entre o escrete de Telê e os eleitos de Ênio foi inaugurado no dia 13 de dezembro, no Morumbi. Empolgada com a boa fase alviverde, que superara com 100% de aproveitamento o quadrangular anterior, disputado perante a Flamengo, São Bento-SP e Comercial-Sp, a crônica paulista não hesitou em amplificar o choque que estava por vir.

O periódico Jornal da Tarde, porém, exagerou. Deleitado com as recentes exibições do jovem Mococa, valente marcador que anulara Zico, o noticiário criou um embate particular para o confronto eliminatório, e se permitiu questionar, em manchete garrafal, quem levaria a melhor: o valente meia bandeirante ou o deífico Falcão. Delírio!

As escalações que entraram em campo no Morumbi

A heresia da imprensa sudestina encontrou coro nos 45 minutos que serviram de abertura ao prélio. Superior nas ações do campo, o Palmeiras retornou para os vestiários em vantagem, mínima, no placar. Encurralado pelos locais na maior parte do tempo, o Clube do Povo sofreu muito com as arrancadas de Jorge Mendonça e Rosemiro, donos da direita do ataque palestrino. Apesar do triunfo parcial, todavia, a torcida da casa não encarou com grande euforia o intervalo da peleja. Também pudera, pois Falcão, a instantes do apito paralisador, quase marcou de bicicleta após estonteante tabela com Mário Sérgio. O Inter, afirmavam os alviverdes, entrara no jogo – e não havia Mococa capaz de contê-lo.

Reiniciado o confronto, o Clube do Povo precisou de apenas cinco minutos para empatar. Polivalente, Mário Sérgio foi mais ponta do que meia para arrastar a marcação até a linha lateral do campo. Espaçada, a zaga rival ofereceu espaço para Jair, que não titubeou. Livre, o camisa oito foi percebido pelo companheiro, que serviu rasteira. Fulminante como sempre, Jajá dominou engatilhando e, da intermediária, testou Gilmar, que foi reprovado pelo montinho artilheiro. O roteiro da semifinal, contudo, não seria tão simples ao Clube do Povo, que voltou a ficar no prejuízo aos 10, quando Jorge Mendonça marcou uma pintura.

Falcão e Pedrinho, antes do jogo/Foto: Divulgação

A desvantagem não abalou o Inter, que seguiu martelando. Inteligente, o time colorado percebeu que o chão não seria amigo naquela noite, e tratou de pressionar por cima. Quem mais levou o caminho a sério foi Falcão, que seguiria, até o fim do torneio, convivendo com intensas dores no ombro. Aos 19, o craque atingiu as alturas para completar, em fulminante cabeceio, cruzamento vindo da direita. Por pouco tempo, novo empate era denunciado pelo marcador. Desgostoso com a igualdade, o Rei, que já acumulava felizes súditos no sul, decidiu impor sua nobreza a azarados paulistas virentes.

“Não perdemos

para um time.

Perdemos para o

maior jogador do mundo.

Diretor palmeirense

O relógio indicava 25 minutos quando Mário Sérgio recebeu na esquerda. Com espaço para progredir, o camisa 11 fez o facão e acionou Cláudio Mineiro, que corria rente à linha esquerda da grande área palestrina. Embora travado, o cruzamento do lateral teve direção, e encontrou a cabeça de Bira. Também espirrado, o centroavante escorou para trás, onde estava Valdomiro, mais um que lutava por espaço. Espanada, a bola esbarrou no pé de Mendonça e tomou altura. Desequilibrado, o 10 do Palmeiras tentou afastar. Antes dele, a bola foi chicoteada. Por quem? Falcão, é claro.

Foto: Jornal da Tarde, 14 de dezembro de 1979

De bate-pronto, o arremate do camisa cinco esgaçou os barbantes da cidadela bandeirante. Mágico, o tento só não foi visto pelo artilheiro da noite, que, de modo a não acertar o rival, precisou recolher a perna com violência equiparável à da finalização, assim permanecendo de costas para a meta durante valiosos segundos. Último do jogo, o golaço valeu ao Inter vantagem especial para as pretensões coloradas. Sublime, o feito carrega, até hoje, assinatura das mais fidedignas de Falcão por misturar talento à classe, genialidade e simplicidade, precisão com protagonismo. Obra rara, digna de seu autor.

Disputado diante de um Beira-Rio completamente lotado, o confronto de volta consagrou, de uma vez por todas, a zona nevrálgica do time colorado. Incansáveis, Rei e Príncipe se sacrificaram pelo time, apoiando na mesma medida que fecharam espaços na defesa. Para Jair, a recompensa de tanto empenho chegou na abertura da etapa final. Após cruzamento de Cláudio Mineiro, Bira ajeitou para Adilson, que fez pivô perfeito. Jajá, é claro, não perdoou, e tirou o zero do placar. Irônico, o destino permitiu a Mococa o tento de empate. Placar final, 1 a 1. A luta de todos, enfim, justificada: Inter na decisão. Ao ritmo, óbvio, de Falcão.


Invicto, inédito e jamais igualado


Não bastasse a reviravolta que transformou um ano iniciado de maneira claudicante em finalista do Brasil, o roteiro de 1979 reservava mais emboscadas para a Maior e Melhor Torcida do Rio Grande. Classificado depois de eliminar o Coritiba, o Vasco seria o adversário colorado na decisão. Os primeiros 90 minutos reservavam o Maracanã, como palco, e Roberto Dinamite, como possível algoz.

Missão difícil, largar em vantagem pareceu se tornar impossível quando a escalação alvirrubra foi revelada sem Falcão e Valdomiro. Combalida, a dupla, que há muito vinha no sacrifício, precisou dar lugar a Valdir Lima, contratado junto ao São Paulo de Rio Grande, e Chico Spina, ponta muito contestado nas fases de abertura do Brasileirão. O empate, para os mais pessimistas, virava obsessão. Tolos eles.

“Poucos esperavam que o Inter derrotasse

o Vasco quando o empate bastava.

Acontece que nosso time

não sabe jogar na retranca.”

Ênio Andrade

O primeiro apito da final soou às 21h15 do chuvoso 20 de dezembro. Instável, o clima afastou parcela do público, mas não evitou que mais de 60 mil pessoas tomassem as arquibancadas do eterno Maior do Mundo. Confiante, o Colorado não se abalou no mítico estádio para fazer, do limão, uma limonada. Substituto de Valdomiro, Chico Spina marcou dois. Reserva de Falcão, Valdir deu assistência para o primeiro. Impecável como estivera desde setembro, a defesa não vazou. De 2 a 0, a vantagem permitia, de uma vez por todas, maior respiro ao povo vermelho. Restavam míseros 90 minutos.

Os campeões invictos

Benítez, a muralha. João Carlos, incansável, Mauro Pastor, xerife, Mauro Galvão, fenômeno, e Cláudio Mineiro, guerreiro. Batista, gênio, Jair, artilheiro, e Falcão, divindade. Valdomiro, ídolo, Bira, matador e Mário Sérgio, craque. Escalado, o Inter entrou, como de costume, correndo no gramado do Beira-Rio. O Gigante, que fervilhava naquela antevéspera de Natal, respondeu com estremecedor tremular de bandeiras. A confiança do povo atingia escala comparável ao palco do duelo. A exibição colorada também, apesar de Leão, que muito retardou a abertura do placar. Inevitável, porém, o gol primeiro saiu, e teve a cara do time de Ênio Andrade.

Jamais derrotado, o goleiro Benítez repôs com Mário Sérgio, que recuara até a intermediária defensiva para receber. Pela esquerda, o Vesgo percebeu que Bira tomava a frente de seu marcador. Preciso, lançou o nove, que escorou, poucos metros depois do centro do campo, de casquinha. Perspicaz, Jair apareceu nas costas da adiantada defesa rival para, no primeiro toque, fintar Leão. No segundo, finalizou na direção da desprotegida goleira. Aos 41 minutos, o Beira-Rio aumentava os já ensurdecedores decibéis de festejo.

Quatro voltas do ponteiro depois, Falcão quase ampliou. Completo, o Rei lançou Bira, que driblou o arqueiro mas perdeu ângulo. Pela direita da área, o centroavante cruzou rasteiro. Ágil, ali já estava seu garçom, que tentou de letra. Por sorte dos cariocas, o goleiro impediu gol que faria justiça à magnífica campanha construída pelo camisa cinco vermelho. Decisivo em todas as fases, o ídolo dispensou estrelismos em nome dos objetivos. Na decisão, em momento algum foi individualista. Pelo contrário, seguiu ditando o ritmo de seus 10 companheiros, ora desfilando passes açucarados para os avantes, ora retendo a posse e esfriando o time visitante.

Fiel ao estilo de jogo que lhe fizera atingir a melhor forma de sua carreira, o camisa cinco não perdoaria, por óbvio, espaços na retaguarda rival. Espaços como os oferecidos a 13 minutos da segunda etapa, quando Mário Sérgio, de novo ele, lançou da defesa, desta vez para Cláudio Mineiro, que cruzou rasteiro, na direção de Bira. O centroavante finalizou, mas abafado por Falcão, que operou milagre. Abandonado por seus companheiros, o goleiro mal levantara do chão quando surgiu Falcão.

“Nós oferecemos este título

para aqueles que não

acreditavam no time”

Rei Falcão

Um, dois, três passos. Pé de apoio, perna direita no ar, chuteira na bola. Por um instante, corpo completamente fora do chão. O herói era elevado, ficava acima de seus rivais. Superior, como seu futebol. O Rei finalizou, com a seriedade dos grandes, a caminhada da maior equipe da história do principal desporto brasileiro.

Wilsinho até descontaria, é verdade, mas o gol de honra em nada ameaçou o Tri. Título único, posse exclusiva do Time que Nunca Perdeu, escalação inesquecível capitaneada pelo melhor meio-campista que nosso país já viu. O Rei de Roma. O Deus do Beira-Rio. O aniversariante desta sexta-feira (16/10). Parabéns, Falcão!

Falcão comemora o gol do Tri

O primeiro voo de Falcão: no dia do aniversário do ídolo, relembre a estreia do craque pelo Inter

As derrotas não são parte da rotina colorada. Por mais raras que sejam, no entanto, elas não só já ocorreram, como, por vezes, eternizaram-se em nossa história. Algumas, por exemplo, foram comemoradas como verdadeiras vitórias, vide a nebulosa jornada de Quilmes, em 2010. Outras, por não significarem um obstáculo nas caminhadas do Clube do Povo rumo a suas conquistas, acabaram ficando marcadas não pelo tropeço que representaram, e sim pelos aspectos positivos que legaram como aprendizado. Este último é o caso de revés que marcou a estreia oficial do aniversariante desta sexta-feira (16/10), Paulo Roberto Falcão, que comemora 67 anos de idade.


O Clube do Povo levou mais de quatro anos para perder a invencibilidade contra times do interior gaúcho no Beira-Rio. O adversário capaz de quebrar a série colorada foi o Esportivo, comandado por Ênio Andrade e vitorioso, em 15 de abril de 1973, por 2 a 1. Afora o resultado negativo, porém, atualmente a partida traz boas lembranças à torcida vermelha. Naquele domingo de outono, o Gigante presenciou a estreia oficial de cabeludo meio-campista de 19 anos tratado como uma promessa do futebol. Seu nome? Paulo Roberto Falcão.

Falcão, em pé no canto direito, nos tempos de Celeiro

O futuro camisa 5 do Inter já gozava de grande prestígio junto ao povo vermelho, consequência do alto nível apresentado em suas exibições nas categorias de base, sobretudo nas preliminares promovidas no Gigante. Sua proeminência em meio aos mais jovens era tamanha que, mesmo sem ter disputado uma única partida como profissional, fora convocado para os Jogos Olímpicos de 1972, disputados em Munique.

Para o Inter, a derrota em casa não se desdobrou em maiores problemas. O revés, ressalte-se, foi o único sofrido na espetacular campanha dos comandados de Dino Sani no Campeonato Gaúcho de 1973. O Clube do Povo, assim como seu maior rival, disputou apenas a fase final do Estadual, realizada entre doze equipes. Para além da partida contra o Esportivo, o Colorado, praticamente impecável, acumulou 17 vitórias e quatro empates, com 43 gols marcados e 10 sofridos, campanha vencedora dos dois turnos e, portanto, campeã. O título foi o quinto seguido na caminhada rumo ao inédito e jamais igualado Octa!

Clube do Povo seria Octa gaúcho na década de 70. Na foto, Falcão está ao centro, junto de Rubens Minelli

É provável que o excelente aproveitamento no Campeonato tenha contribuído para o esquecimento dos aspectos negativos que resultaram do confronto do dia 15 de abril. Sobre o jogo, inclusive, quem roubou a cena, apesar do ilustre estreante, foi Décio, autor dos dois gols visitantes. Para o Colorado, quem marcou foi Dejair. A escalação do Clube do Povo para a partida contou com Schneider no gol; Arceu, Figueroa, Bibiano Pontes e Jorge Andrade na defesa; João Ribeiro, Carbone, depois Falcão, e Carpegiani no meio; além de Valdomiro, Claudiomiro e Dejair, depois Escurinho, no ataque.

Falcão treina observado por Dino Sani/Foto: Revista Placar, Divulgação

Consta que, no dia seguinte ao prélio, durante treinamento no Beira-Rio, Sani questionou a Paulo César Carpegiani o que ele achara da breve exibição do outro Paulo, o Roberto. Carpegiani, que poucos anos depois comandaria o Flamengo na vitória sobre o Liverpool, no Japão, comprovou o olhar diferenciado que tinha para o futebol ao pedir para o técnico do Inter que escalasse Falcão ao seu lado, pois, juntos, seriam capazes de dominar qualquer partida, independente do adversário.

A conversa com Carpegiani pareceu convencer o comandante colorado, que, aos poucos, deu mais oportunidades para o jovem. Em breve, a aposta se provaria extremamente acertada. Se é verdade que não foi um dos protagonistas na caminhada do pentacampeonato estadual, o futuro Rei de Roma soube cavar sua vaga entre os titulares do Inter. Tanto que, no ano seguinte, quando o Clube do Povo conquistou o Hexa, Falcão já estava consolidado entre os 11 iniciais da equipe vermelha, posição que seguiria ocupando ao longo de toda a década. E que década!

Maior camisa 5 da história do futebol brasileiro, entre os principais meio-campistas da história do esporte, três vezes dono do país para na sequência ser coroado monarca na Itália. Jogador cerebral e moderno, à frente de seu tempo, que ao longo da carreira esbanjou dribles, assistências e gols magistrais. Este foi – e é – Falcão.

Nem o mais criativo romancista, porém, poderia elaborar a história deste ídolo nacional, e, principalmente, do Inter, iniciada por uma derrota. Um revés que serviu de abertura para uma narrativa Gigante, à altura do palco de sua infeliz alvorada. Obrigado por tudo, Rei Falcão, e um feliz aniversário!

Rei Falcão, colorado e campeão!